A televisão pariu a versão de sucesso de ‘‘O Auto da Compadecida’’, sob a meticulosa e segura direção de Guel Arraes. Muitas fitas de vídeo com os quatro capítulos da minissérie foram pirateadas pelo País até a obra ser transferida para a película, atraindo mais de dois milhões de espectadores para as salas de cinema. Agora, a obra de Ariano Suassuna volta ao ventre materno, na versão em DVD e VHS. Esse é o primeiro DVD duplo nacional, trazendo a versão integral da minissérie e o filme.
‘‘O Auto da Compadecida’’ completa a trilogia de sucessos da força da narrativa nordestina (junto com ‘‘Central do Brasil’’ e ‘‘Eu, Tu, Eles’’), comprovando que a estética da fome rende farta bilheteria e prêmios. Além disso, propicia visibilidade em festivais internacionais de cinema. A comédia solar escrita por Ariano Suassuna possui uma vivacidade e um frescor que prendem a atenção do começo ao fim. No início, a edição imprimiu um ritmo mais frenético ao filme exigindo atenção redobrada.
‘‘O Auto da Compadecida’’ apresenta as aventuras pelo pão de cada dia empreendidas pelo esperto João Grilo (Matheus Nachtergaele) e pelo abobalhado Chicó (Selton Mello). Os dois se safam das enroscadas com inteligência, numa espécie de Lei de Gerson às avessas. O responsável por arrancar boas risadas atende pelo nome de João Grilo, o anti-herói clássico da literatura brasileira, aparentado da comédia dell’arte. O raciocínio rápido, a esgrima verbal e o humor afiado de João Grilo ganham um peso maior com a cativante interpretação de Matheus Nachtergaele.
Vale ressaltar a habilidade de Guel Arraes na direção de atores, despojados integralmente na dureza do sertão, e a excelente fotografia de Félix Monti. A incógnita agora é com relação à carreira internacional de ‘‘O Auto da Compadecida’’. O mundo deve se render ao filme, assim como o Brasil. A produção serviu para despertar na Hollywood brasileira, a Rede Globo, a produzir filmes, mesmo que de forma ainda não apropriada. (Distribuição: Colúmbia. Duração: 104 min.)















ReproduçãoFilme de Luiz Villaça propõe discussão sobre as expectativas que contornam os relacionamentos entre as pessoas










Por Trás do Pano
A grata surpresa de 1999 no cinema nacional foi assinada pelo estreante diretor Luis Villaça. ‘‘Por Trás do Pano’’ não teve a carreira merecida nas salas de exibição, com um público numericamente tímido. Por isso, agora não se deve perder a oportunidade de assisti-lo em vídeo. O filme agraciou a sensível interpretação de Denise Fraga como melhor atriz no 1º Grande Prêmio Brasil de Cinema.
Helena (Denise Fraga), talentosa atriz, recebe a grande chance de sua carreira teatral ao ser convidada pelo famoso diretor Sérgio (Luis Melo) a dividir o palco com ele. ‘‘Por Trás do Pano’’ suplanta a tensão preparatória à montagem de um espetáculo teatral ao encadear os momentos de dúvidas e descobertas da profissional. Além de descortinar os segredos de um ofício, o filme de Villaça contrapõe no ringue do palco o tormento do processo criativo com a acomodação profissional, quando se passa a trabalhar no piloto automático. O roteiro de Flávio de Souza e Luiz Villaça propõe uma envolvente discussão sobre as expectativas que temos sobre as pessoas. Um filme sem grandes pretensões, que justamente por isso agrada aos cinéfilos mais exigentes. (Distribuição: Europa Filmes. duração: 90 min.)







ReproduçãoDarlene Glória dá vida à tragicômica personagem Geni, uma prostituta saída do universo de Nelson Rodrigues








Toda Nudez Será Castigada
No pacote de lançamentos de filmes nacionais, chega em DVD a eficiente versão de Arnaldo Jabor para o texto teatral de Nelson Rodrigues ‘‘Toda Nudez Será Castigada’’, rodada em 1973. O filme não perdeu o vigor, sendo considerada a melhor adaptação da obra rodriguiana para a película.
Herculano (Paulo Porto), se apaixona pela prostituta Geni (Darlene Glória). Em meio a delirantes crises de valores, ela se envolve com Serginho (Paulo Sacks) e acaba engendrando uma série de ações trágicas, com final já prenunciado no início do filme. ‘‘Toda Nudez Será Castigada’’ apresenta excelentes atuações das tias de Herculano (Isabel Ribeiro, Elza Gomes e Henriqueta Brieba), além de Paulo Porto e Paulo César Pereio.
Mas é Darlene Glória quem tatua na memória uma das mais patéticas e tragicômicas personagens da literatura universal. Darlene Glória não se recuperou do sucesso do filme e da vida de orgias e drogas à época do filme. Se converteu ao protestantismo e virou irmã Helena. ‘‘Toda Nudez...’’ de Arnaldo Jabor levou o Urso de Prata no Festival de Cinema de Berlim (1974). (Distribuição Versátil. Duração: 102 min)

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