Para os fãs de João Gilberto, parece sonho: o cantor que encarna de forma absoluta a Bossa Nova sobe ao palco do Guairão neste sábado para uma única apresentação do show ‘‘João Voz e Violão’’, título do CD lançado em 1999 e agraciado com o Grammy de Melhor Álbum de World Music, no ano passado. É a primeira vez que o intérprete de ‘‘Chega de Saudade’’ vem ao Paraná, em 50 anos de carreira.
A recepção terá que ser à altura do artista, que prima pela exigência. O silêncio deverá imperar quando João estiver cantando, o som equalizado no tom correto e o ar condicionado, caso seja ligado, não poderá estar gelado como habitualmente acontece, fazendo a platéia se encolher de frio. Vale lembrar que durante um especial na TV Globo João Gilberto pediu para desligar o ar. Pelo jeito ninguém lhe deu a mínima. Voltou a reclamar mas já avisando que iria interromper o show caso não fosse atendido. As providências foram tomadas rapidamente.
Poucos anos atrás, na inauguração do Credicard Hall em São Paulo, detestou o som, pegou o violão e foi embora. Numa festa no Ibirapuera, em comemoração ao aniversário da cidade, atrasou duas horas para chegar, e quando subiu ao palco, para dividir o show com Rita Lee e Paulinho da Viola, não se deu por achado: ficou ali por 20 minutos e saiu irritadíssimo com a falta de educação da platéia que não se calou para ouvi-lo cantar.
Enfim, nada de novo nesses episódios. Em se tratando do lendário baiano, estas são algumas das muitas cenas protagonizadas por ele. Nascido em Juazeiro em 1931, aos 18 anos trocou o interior pela capital, onde foi crooner de uma orquestra até deixar tudo para trás e ir aventurar-se no Rio de Janeiro. Na nova cidade atuou como solista do conjunto Garotos da Lua.
Pouca gente sabe que João Gilberto gravou seu primeiro disco-solo em 1952, seis anos antes de estourar com a Bossa Nova. Ele escolheu dois sambas-canções, interpretados bem ao estilo de Orlando Silva: ‘‘Quando Ela Sai’’ e ‘‘Meia-Luz’’. Passou em brancas nuvens. Em 1953 a cantora Marisa levou ao acetato uma composição sua: ‘‘Você Esteve com Meu Bem?’’. Após quatro décadas outro baiano viria a gravá-la: Caetano Veloso.
Por sinal Caetano, que é um dos mais notórios e religiosos fãs do conterrâneo, dirigiu a produção do CD ‘‘João Voz e Violão’’. O show, obviamente, tem por base o repertório do disco, mas trará também os clássicos que levam a marca do artista. Da última gravação constam ‘‘Desde que o Samba é Samba’’, ‘‘Você Vai Ver’’, ‘‘Eclipse’’, ‘‘Não Vou pra Casa’’, ‘‘Desafinado’’, ‘‘Eu Vim da Bahia’’, ‘‘Coração Vagabundo’’, ‘‘Da Cor do Pecado’’, ‘‘Segredo’’, ‘‘Chega de Saudade’’. Como se vê tem algumas faixas de Caetano, Gilberto Gil, Ari Barroso, Marino Pinto, Bororó, Tom e Newton Mendonça – só grandes nomes.
Cantar o moderno e o antigo é uma característica de João, o que mostra a sua falta de disposição para o preconceito de que aquilo que vem de outra época seja obrigatoriamente ultrapassado. Fosse assim e a música clássica, as óperas praticamente não existiriam.
Quando encantou e escandalizou os ouvidos brasileiros ao surgir em julho de 1958, com o lançamento pela Odeon do 78 rpm trazendo de um lado ‘‘Chega de Saudade’’ (Tom e Vinícius) e de outro ‘‘Bim-bom’’, de sua autoria, repetindo a dose em novembro com ‘‘Desafinado’’ (Tom/Newton Mendonça) e ‘‘Oba-lá-lᒒ, também de sua autoria, o moço não estava unicamente voltado à vanguarda que vinha da zona Sul do Rio. Ele buscava no passado grandes músicas para compor seu repertório.
Em ‘‘Chega de Saudade’’, seu primeiro LP, que chegou às lojas em março de 1959 – produção do refinado Aluísio de Oliveira, com arranjos de Tom Jobim –, conviviam serenamente compositores tradicionais como Ari Barroso, Zé da Zilda, Luís Peixoto e Marino Pinto ao lado de uma garotada que atendia pelos nomes de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli, por exemplo.
Reverenciado em todo o mundo, há dois anos atrás o genial brasileiro chegou devidamente atrasado para um show no Carnegie Hall, em Nova York. Desculpou-se com a platéia (deixara os óculos no quarto do hotel e perdera a chave) e, como era de se esperar, deu um espetáculo primoroso. Tão primoroso que o público não arredava pé – e ele, generoso, retribuiu cantando mais cinco números. Pelo jeito a noite poderia se estender indefinidamente, mas quando João se preparava para o sexto bis, o diretor da casa correu ao microfone: ‘‘Ladies and gentlemen, João Gilberto, João Gilberto!’’. Era um convite para ele se retirar, pois os funcionários da casa são sindicalizados e após às 23 horas, a multa para o teatro é fatal. Tomara que em Curitiba João repita a dose.
‘‘João Voz Violão’’. Show de João Gilberto, no Guairão. Única apresentação, com início às 21 horas. Ingressos: R$ 70,00 (platéia), R$ 60,00 (primeiro balcão), R$ 50,00 (segundo balcão

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