São Paulo, 12 (AE) - Ao criar sua gravadora, a ECM, pela qual saem os discos de Egberto Gismonti e Keith Jarrett, o produtor alemão Manfred Eicher disse que só queria gravar música mais bonita do que o silêncio. Foi dali que Caetano tirou os versos conclusivos de sua bossa nova "Pra Ninguém": "E melhor do que o silêncio só João".
Na capa de "João Voz e Violão", a atriz Camila Pitanga leva esticado o indicador da mão direita aos lábios, num gesto de "psiu". A ênfase no pedido de atenção - respeito - faz referência direta ao barulho que o público fez numa apresentação recente, em São Paulo. Era inauguração de uma casa nova. O som estava ruim. A voz e o violão de João ecoavam, voltavam para ele
impediam sua concentração.
Na verdade, João Gilberto exige do público a reverência que ele dedica à música. Parece nunca estar no palco, ou no estúdio, para tocar, simplesmente, mas para reiterar a reverência. Por isso estuda cada canção exaustivamente. Toca cada uma delas milhares de vezes, até chegar a um resultado satisfatório. Mas não necessariamente definitivo: suas regravações, no novo disco, de "Desafinado", "Chega de Saudade" e "Eclipse" mostram que sempre há mais por descobrir numa canção.
Mesmo a batida célebre, marca registrada da bossa nova, que pode parecer, à primeira vista, sempre igual, metronômica, é sutilmente modificada de compasso para compasso - quanto mais de interpretação para interpretação. A divisão das frases musicais muda, milimetricamente; as notas internas do acorde encontram caminhos novos de solução, elucidação do caminho harmônico. Há sempre um vislumbre.
Num mundo minimalista, uma pequena diferença corresponde a iluminação, epifania. Isso é João Gilberto. Por isso é preciso ouvi-lo em silêncio. Sua música é dirigida à sensibilidadade e à inteligência. Se é que são coisas diversas. Por isso, também, João Gilbeto nunca está preocupado com músicas novas, inéditas. Prefere debruçar-se sobre as que gosta e esmiuçá-las, encontrar-lhes o sentido mais profundo e, desse âmago, dessa ossatura, reconstruir-lhes o corpo. Com maior beleza.
É o que faz com "Desde Que o Samba É Samba". Há, na bossa de Caetano Veloso, perspectivas harmônicas que o autor não soube explorar. Coube a João ir buscar o que Caetano apenas intuiu - deixou em estado de suspensão - ao compor e ao gravar a música. Essa sabedoria, fruto de dedicação integral, João Gilberto a repete em cada faixa de todos os discos, em cada número de todos os shows. Em silêncio, ouvi-lo cantar "Segredo", de Herivelto Martins e Marino Pinto, expõe-nos o horizonte mais amplo dos tão explorados versos e melodia ("Teu mal é comentar o passado/ Ninguém precisa saber o que houve entre nós dois"). Nunca a dor contida nas palavras simples foi tão intensamente visível.
Quatro décadas depois de gravar pela primeira vez a bossa primordial "Chega de Saudade", João Gilberto ainda é capaz de encontrar frescor na melodia de Jobim e graça nova nos versos coloquiais de Vinícius de Morais. "Chega de Saudade" é uma das músicas brasileiras mais conhecidas e executadas de todos os tempos, aqui e em todo o mundo. Poderia estar esgotada - João Gilberto prova que não. Há sempre um ângulo novo - como no amor, que a canção de amor louva, nada se repete, não há dois momentos iguais. Nem há dois silêncios iguais.

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