São Paulo, 30 (AE) - Em 1967, Sérgio Ricardo jogou o violão para cima. Em 1996, milhares de sem-terra gritaram em coro "mercenária", para Gal Costa, que cantava com playback. Em 1999, João Gilberto mostra a língua e ameaça não voltar mais a São Paulo. A vaia a João Gilberto criou o factóide mais extravagante em uma noite em que quase tudo que não podia acontecer aconteceu. Na inauguração da nova casa de espetáculos Credicard Hall, ontem à noite, o cantor baiano reclamou de um eco no palco logo no primeiro verso de "Acontece Que Eu Sou Baiano".
Acompanhado de Caetano Veloso, o cantor passou o resto da noite reclamando. Foi vaiado em determinado momento, menos por sua pregação sistemática a respeito do som do que por ter vociferado contra a seleção brasileira. Respondeu de forma dura, mas quase correta: "Vaia de bêbado não vale". Mais que a insuportável leveza do eco que travava a atuação de João Gilberto, o problema era muito maior. Infestada de bocas-livres, a festa não se distinguia muito de um rodeio ou de um intervalo de jogo de futebol. Durante o show, os VIPs abriam as portas das suítes estrepitosamente para fazer fotos para a revista "Caras".
O solo retrátil - que permite a retirada eletrônica das cadeiras da platéia - é oco e qualquer passo ressoa em toda a sala. As portas rangiam toda vez que eram abertas. Profissional, Caetano fingia ignorar e esforçava-se no palco com a delicadeza de "Luna Rossa" (V. de Crescenzo e A.Viani), assoviando o tema de "As Noites de Cabíria", de Nino Rota. Mas o grupo de empresários paulistas não queria saber e digladiava-se pelo resto de Spumante Prosecco no balde de gelo. Caetano Veloso cumpriu - com precisão demagógica - seu papel diplomático. "As pessoas que vaiaram aqui João Gilberto não me são aceitas no coração", disse. Quando cantavam "Coração Vagabundo", de Caetano, quase um terço da platéia já tinha ido. João Gilberto deu lustro na fama de ranheta. Ele é reincidente: já tinha feito um auê quando da inauguração da casa Tom Brasil, na Vila Olímpia
reclamando do ar-condicionado. "Vou voltar para Buenos Aires, onde eu nasci", disse, com ironia, o baiano de Juazeiro. Mas desta vez ele não estava sozinho. Caetano concordou com a crítica ao som da nova casa. "O problema é pertinente, embora não seja tão brutalmente grave", contemporizou. Disse que o Teatro Guaíra, de Curitiba, apresenta problema semelhante.
O show poderia ter sido perfeito. Caetano e João fizeram uma versão inacreditável da batida "Saudosa Maloca", de Adoniran Barbosa. Cantaram juntos "Ronda", "Desafinado", "Besame Mucho". João cantou "O Pato", "Garota de Ipanema" e "Você Vai Ver" (que nunca tinha cantado antes). Caetano fez seu agrado no público com "Sozinho" e "Leãozinho". Mas foi em "Sampa" que ele aproveitou para dar seu recado. "Da força da grana que ergue e destrói coisas belas", dizia o verso. Ele enfiou ali: "Por exemplo: o som".

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