João faz anos
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de junho de 2001
Ruy Castro Especial para Agência Estado. 
Se João Gilberto, que completa 70 anos hoje, pudesse voltar no tempo - digamos, ao dia 10 de julho de 1958 -, seria capaz de imaginar que o novo som que ele estava produzindo naquele momento no estúdio da Odeon, no Rio, poderia sustentá-lo a ouro e mel pelo resto da vida? Não. Nem em delírio, ninguém poderia imaginar tal coisa. Mas, pelo que se veria em poucos anos (em escala nacional e planetária), aquilo poderia ter acontecido.
Estes 43 anos, se ele tivesse feito jus a royalties todas as vezes que alguém adotou a batida da Bossa Nova (a sua batida do violão) ao gravar um disco, não haveria como medir sua fortuna. Do jeito que as coisas se deram, no entanto, João Gilberto pode ter sido, comparativamente, o que menos lucrou com sua invenção. Quem mandou fazer música por amor?
Talvez seja esta a sina dos inventores supondo que, em música, esses possam ser determinados. No passado, era impossível: quem inventou a marcha, a valsa, o ragtime, o tango, o bolero, o boogie-woogie ou qualquer outro ritmo, para não falar do samba? Por mais que se identifiquem alguns desses ritmos com certos nomes (a valsa com Johann Strauss 2.º, o ragtime com Scott Joplin, etc.), eles não foram os seus únicos criadores. Seria mais justo dizer que foram os que sintetizaram a contribuição de muitos que vieram antes deles. O mesmo quanto à batida da Bossa Nova, estabelecida por João Gilberto. A diferença é que, neste caso, há registros orais, por escrito e gravados, de quando essa batida foi oficialmente inaugurada embora não tanto de quando foi de fato criada. Seja como for, na ponta final dessa síntese estava João Gilberto.
E quais eram os elementos dessa síntese? Praticamente tudo que se criara em música popular brasileira nos 30 anos anteriores, ou seja, desde 1928. A Bossa Nova (como foi chamada aquela batida de violão, transferida para a bateria de Milton Banana sob orientação direta de João Gilberto) era uma soma de muitas outras bossas, nascidas da intuição de outros grandes criadores do passado. Isso nunca foi negado nem por ele, nem por Tom Jobim ou por Vinícius de Moraes , o que não impediu que os inimigos do novo ritmo, na tentativa de desmerecê-lo, fossem procurar naquele passado os argumentos para combatê-lo.
Quando João Gilberto surgiu, era fácil dizer, por exemplo, que ele era apenas uma cópia atrasada de Mário Reis, o primeiro brasileiro a simplificar o jeito de cantar a cantar sem voz, quase falando, o que só se tornara possível, no Brasil de 1928, pela introdução do microfone elétrico nas técnicas de gravação. Mas, da maneira como falavam, até parecia que Mário Reis era um caso único no mundo daquele tipo de cantor. Os apressados não sabiam que, desde a introdução do microfone elétrico (que, nos EUA, se dera antes ainda, em 1925), todos os países do mundo estavam produzindo os seus mários reis.
A influência de Mário Reis sobre João Gilberto foi indireta e fundamental apenas na medida que isto, sim , Mário Reis foi o introdutor de um canto original brasileiro, que ele pode ter aprendido em primeira mão com os sambistas do bairro carioca do Estácio. Nesse sentido, Mário Reis seria o pai de uma fabulosa legião de cantores, de samba ou de marcha, mas todos de bossa, que desaguaria em João Gilberto.
Nada a opor a esta tese. De fato, sem Mário Reis e sem Carmen Miranda, Luís Barbosa, Vassourinha, Ciro Monteiro, o Bando da Lua, os Anjos do Inferno, os Cariocas, a dupla Joel e Gaúcho, Jorge Veiga, Moreira da Silva, Emilinha Borba (por que não?), Johnny Alf e os próprios Garotos da Lua (o conjunto vocal em que ele cantava em 1950) , não haveria João Gilberto. E o que dizer dos compositores e letristas que escreveram tão bem para esses cantores de bossa? Ari Barroso, Ismael Silva, Noel Rosa, Lamartine Babo, João de Barro, Bororó, Assis Valente, Bide e Marçal, Nássara, J. Cascata, Sinval Silva, Pedro Caetano, Wilson Batista, Geraldo Pereira, Ataulfo Alves, Haroldo Barbosa, Dorival Caymmi, Luís Gonzaga sem eles, também não haveria João Gilberto. E não se esqueça dos músicos, dos instrumentistas porque, sem Pixinguinha, Benedito Lacerda, Ratinho, Luís Americano, Abel Ferreira, Waldir Azevedo, Altamiro Carrilho, João Donato e tantos outros, igualmente não haveria João Gilberto.


