João e Maria com os pés na realidade
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de março de 2003
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Uma garotinha criada pela babá faz um drama típico de criança mimada para não tomar o remédio. Finge estar num bosque e começa a fazer perguntas para a empregada para despistá-la. A babá por sua vez pressente que seus próprios filhos podem estar precisando de ajuda e deixa a filha da patroa sozinha. No bosque ou em casa? Essa mistura entre a ficção e a realidade, a espetacularização dos acontecimentos pela mídia e as necessidades urbanas da sociedade permeiam a peça ''João and Maria'', da Cia. Senhas de Teatro, única companhia curitibana a participar da Mostra Contemporânea do 12º Festival de Teatro de Curitiba.
O evento teve sua abertura oficial ontem, no Ópera de Arame, mas somente hoje começa a maratona de apresentações. A largada dá início com cinco espetáculos na Mostra Contemporânea, incluindo ''João and Maria'' e 60 peças no Fringe, mostra paralela do festival. O espetáculo da Cia. Senhas e a peça ''Mire Veja'' da Companhia do Feijão, de São Paulo, são as estréias do dia. A Mostra Contemporânea conta ainda com apresentações das peças ''Memorial do Convento'', que já está com os ingressos esgotados e ''A Hora em que Não Sabíamos Nada uns dos Outros'', da Cia. Elevador de Teatro Panorâmico, que realiza o desafio de utilizar 600 figurinos em cena, divididos em 15 atores que interpretam, juntos, 300 personagens (lei matéria nesta edição).
A única representante curitibana na Mostra Contemporânea, a peça ''João and Maria'' é um projeto antigo da Cia. Senhas. O espetáculo começou a ser pensado há dois anos e desde novembro do ano passado o grupo vem realizando as pesquisas necessárias para a atuação. Trata-se de um espetáculo colaborativo, conforme explica a autora e diretora Sueli Araújo. ''A peça teve esse resultado porque são com essas pessoas. Se a equipe fosse outra seria diferente'', diz. Isso porque o grupo foi buscar nas ocorrências cotidianas (e nas suas próprias), as influências para a criação do espetáculo.
O modo como as pessoas se relacionam com a televisão. Essa ''caixinha de surpresas'' susbstituindo a família e a educação, o comprometimento da integridade intelectual em função das influências da mídia, são levadas ao palco numa história não linear. ''Nós trabalhamos com uma idéia e não com a história em si'', argumenta Sueli. O resultado são fragmentos do cotidiano (ou do inconsciente) de cada um que dão oportunidade para que cada espectador se reconheça na peça.
A cena da babá citada acima, por exemplo, é apenas uma das muitas histórias do espetáculo. A empregada é Maria, uma mãe de família que deixa seus três filhos em casa, vendo televisão, enquanto vai trabalhar para poder sustentar a casa. ''Nós brincamos com o que é real ou não'', diz Sueli. Quanto à façanha de integrar a Mostra Contemporânea, em meio a companhias com reconhecimento nacional, Sueli observa que esse é também um reconhecimento da Cia. Senhas, que desde 1999 vem desenvolvendo um trabalho bastante peculiar e expressivo.
Mas foi a partir de ''Devorate-me'', espetáculo que integrou a mostra paralela da edição passada do festival, que a Cia. Senhas despertou o interesse da organização do evento. ''Este ano coincidiu de estarmos estreando um espetáculo na época do festival, também por isso estamos na Mostra Contemporânea'', diz Sueli. A peça tem apenas duas apresentações, hoje e amanhã, às 21h30 e 20 horas, respectivamente, na Casa Vermelha (Largo da Ordem) e foi uma das mais procuradas do festival. Ontem, já tinha 90% dos ingressos vendidos para os dois dias do espetáculo.
Serviço:
12 edição do Festival de Teatro de Curitiba. Até o dia 30 de março em diversos espaços da cidade. Ingressos à venda no quiosque do FTC no Shopping Mueller.


