Época de se rever uns aos outros. João Bosco põe na roda disco novo – ao vivo e duplo – em que relê músicas, ao seu ver, marcantes em quase 30 anos de carreira. Já o público londrinense – pessoas que forem hoje ao Cabaré do Filo – poderá destrinchar a saudade, ao vivo e em cores, do cantor e compositor que há muito não subia em palcos locais. Às 21 horas deve começar o espetáculo. Vem João acompanhado de Nelson Farias (guitarra) e André Neiva (contrabaixo).
O show é calcado no quentíssimo ‘‘Na Esquina, Ao Vivo, Volumes 1 e 2’’ , o 21º disco que ainda lateja nas prateleiras. Álbum de releituras de canções antológicas – ‘‘Corsário’’, ‘‘Memória da Pele’’, ‘‘Ronco da Cuíca’’ e músicas recentes, em fase de aquecimento, como ‘‘Mama Palavra’’, ‘‘Enquanto Espero’’, e daí vai.
João Bosco, por direito e competência, tornou-se uma referência, um farol sinalizador da MPB. Dispensa, pois, adjetivos e sintéticas biografias. Quem conhece sua arte, bem ou relativamente, com toda a propriedade poderá dar ressonância ao que hoje ele cantar. A reverência, certamente, virá como consequência. A seguir, os principais trechos da entrevista que João Bosco concedeu, por telefone, à Folha2.
Então quer dizer que a coisa toda começou aos 12 anos quando você ganhou um violão verde?
Isso. Foi minha irmã que tocava piano, cantava que comprou o violão porqye queria aprender a tocar. Esse violão chegou em casa e eu acabei ficando mais tempo com ele.
O que chamou mais a atenção o instrumento ou a cor dele?
(rindo) Acho que um violão verde é uma coisa bem diferente, né? Enfim, a primeira vez que eu vi o violão foi amor à primeira vista. E eu comecei a tocar muito e minha irmã, vendo que eu havia caído de paixão pelo instrumento, acabou me dando.
Podemos dizer que a partir desse momento começou a se desenhar essa sua divisão rítmica tão particular, João?
Sou um compositor que tem uma boa herança da música populara brasileira que tem harmonia, melodia e ritmo...
Mas você colocou um sotaque próprio no tocar, não?
Bem, essa questão rítmica realmente foi uma coisa que em meu trabalho chamou a atenção. Acho o instrumento fundamental na hora de mostrar composições, porque ele ele traduz minha idéia rítmica de maneira muito pessoal
Parece que você encontrou em seu filho, Francisco, um parceiro exato?
É, embora eu ache que a parceria tem uma certa necessidade também de mudança, entende? Você pode passar períodos com um parceiro, mas não acho que tenha que ser algo definitivo, perpétuo.
Quer dizer, é válido haver infidelidade em termos de parcerias musicais...
Exato, lógico. Acho que isso é bom para música e para o músico. Quando você trabalha muito tempo com uma pessoa chega uma hora em que a relação se esgota.
Foi isso que aconteceu entre você e o Aldir Blanc?
Isso acontece com todos... Quando se muda a parceria é porque se percebe que o que havia de se fazer junto com aquela pessoa já se concretizou. Então tem que se buscar novas inspirações, numa espécie de exercício que te leva ao desconhecido. Tudo o que é estabelecido acaba caindo numa rotina que não é bom para o trabalho. Nem Lennon e McCartney escaparam disso.
E impossível deixar de perguntar: há muito diz-que-diz sobre o rompimento de sua parceria com o Aldir. De fato o que aconteceu? Houve desgate, briga?
Olha, uma parceria intensa quando se rompe é porque o trabalho chegou ao fim...
A parceria terminou, mas a amizade continua?
Olha, é difícil manter uma amizade com alguém com quem você desfrutou uma relação intensa de trabalho. É difícil dizer que... Ora, se eu continuasse amigo do Aldir porque não continuaria a fazer música com ele?
Eu entendi, entendi. Mudando um pouco, você é mais gravado por mulheres: Ângela Maria, Maria Bethânia, Gal Costa, Nana Caymmi, Clementina de Jesus, Clara Nunes, enfim várias. Mas foi Elis a mais marcante. Você a considera sua intérprete oficial?
Eu acho que até pelo volume de músicas, pela trajetória e importância a Elis foi o grande destaque de intérpretes dentro do nosso repertório (referindo-se às composições feitas com Aldir Blanc). Ela gravou mais de 20 músicas e isso é um volume de interpretação quase inédito no Brasil. E em se tratando de Elis Regina, que continua sendo a nossa grande intérprete da MPB, isso é algo que você tem que destacar para o resto da vida. A presença de Elis Regina foi algo incomum e fez com que o nosso repertório tivesse a importância que tem hoje, principalmente pela performance dela.
São quase 30 anos de carreira. Já dá para olhar para trás e dizer em que você acertou ou poderia fazer de outro jeito?
Vou te falar a verdade: quando olho para trás fico arrepiado com o que tenho que fazer pela frente. Acho o seguinte: a música para o compositor, para o músico, representa a combustão. A música é o que mantém a gente vivo. Hoje, por exemplo, vejo a música tão diversificada no mundo e principalmente no Brasil que eu fico olhando os jovens que estão vindo e fico pensando de que maneira poderia fazer parte desse grupo...
Mas João, são quase três décadas de carreira. Você não acha que já conseguiu ser uma referência na MPB?
Não dá pra racionalizar dessa maneira porque música não é racional; música é paixão. Olhar para trás ver que se tem uma obra gravada, um nome reconhecido não é o suficiente para dirigir o futuro. Não vai trazer paz porque para um artista o que interessa é o momento em que ele está vivendo.
Você está lançando ‘‘Na Esquina ao Vivo’’, disco duplo, com regravações. Djavan fez a mesma coisa e se deu bem, vendeu um milhão de cópias. Foi por aí que esse projeto foi concebido?
Não! Esse projeto são releituras com novas concepções. Quando se grava um show ao vivo é preciso ter consciência do motivo de estar fazendo aquilo.
E esse é especial por quê?
Porque o resultado das releituras ficou muito bom. A regravação de ‘‘Mama Palavra’’, com Ana Carolina, tornou-se outra música. ‘‘Ronco da Cuíca’’ está completamente diferente da minha gravação de 1976. São releituras que vieram num momento de maturidade. Eu acho que ‘‘Na Esquina Ao Vivo’’, cujas músicas que estão ali presentes, chegaram ao limite máximo de possibilidades de releituras que eu pude fazer. Outras pessoas poderão fazer suas leituras, mas para mim essas músicas chegaram ao ponto de não conseguir alterá-las mais.

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