JOÃO CABRAL EM DOIS VOLUMES
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de agosto de 2000
Ranulfo Pedreiro De Londrina 
Em Pernambuco nasceu uma poesia tão seca quanto a paisagem do sertão. A palavra perdeu os adereços em busca da objetividade, do racionalismo e do despojamento. João Cabral de Melo Neto trabalhou como um arquiteto na construção de um obra econômica e fundamental, que está sendo relançada pela Editora Nova Fronteira em dois volumes: A Educação pela Pedra e depois e Serial e antes.
A grande ironia desta trajetória foi Cabral morrer cego, em outubro do ano passado. Para quem admirava a luminosidade de Recife, que influenciou a nitidez de sua escrita, a degenerescência da retina surgida a partir de 1992 foi torturante. O poeta, que não se interessava por música e também a economizava nos versos, chegou a declarar que preferia a surdez. O visual delineava seu texto.
A clareza do trabalho de Le Corbusier, baseada no construtivismo e na racionalidade, foi uma referência que se estabeleceu. Le Corbusier, arquiteto franco-suíço, procurava condensar artes plásticas e arquitetura prezando a funcionalidade e os aspectos econômicos, em busca de formas práticas e pouco ornamentais.
João Cabral de Melo Neto repudiava o romantismo, fugia de arroubos sentimentais, evitava metáforas e metonímias, não queria saber de excessos. Talvez por isso desdenhou o amor, dedicando-se pouco ao tema.
O poeta preferia enfocar o mundo a sua volta, com descrições aprofundadas de paisagens, cidades, ruas e edifícios. Comparou o sertanejo pernambucano ao pó sobre o qual insiste em viver. Traçou paralelos entre a procissão dos rios rumo ao oceano e os retirantes à procura de sobrevivência na capital. Enxergou nos engenhos máquinas de dragar vidas, nos canaviais um mar produtivo que expulsava o homem da terra invadindo quintais.
Seus adjetivos são econômicos e densos: a paisagem é mineral, a dor é calada, a tripa é seca, o sangue é mudo. A morte persegue-lhe a pena e alcança primeiro plano em muitos textos. A descrição de cemitérios rende vários poemas.
Toda essa configuração encontra raízes em quadras populares e na literatura de cordel, e caminhou cada vez mais para um realismo que abdicava qualquer hipótese de deslumbre. Em Barcelona, onde exerceu cargo diplomático, João Cabral se aprofundou nos estudos literários e mergulhou no realismo espanhol.
A Espanha, aliás, foi preponderante. Cabral admirava o toureiro que se arriscava aproximando o ventre dos chifres do animal, acompanhava com prazer quase voyeur a sedução das mulheres da Andaluzia e, numa concessão, se interessava pelo flamenco e seu canto rasgado, nevrálgico. Tornou-se amigo de Miró, outra de suas influências.
A edição da Nova Fronteira segue a ordem cronológica. Cabral preferia o inverso. Assim, os leitores tomariam contato primeiro com os versos mais recentes e amadurecidos. Os volumes trazem prefácio de Marly de Oliveira, segunda mulher do escritor.
Pedra do Sono (1940-1941) inicia o volume com as primeiras publicações literárias de Cabral. Já se encontra a referência visual, com uma homenagem a Picasso, e características surrealistas que se estenderiam a Os Três Mal-Amados (1943).
O livro seguinte, O Engenheiro (1942-1945) é dedicado a uma influência confessa: Carlos Drummond de Andrade. Aí já residem os indícios de um novo caminho, à procura da sobriedade, como o próprio título indica. É onde se encontra A Lição de Poesia: (...) Carvão de lápis, carvão/ da idéia fixa, carvão/ da emoção extinta, carvão/ consumido nos sonhos.
Já em Psicologia da Composição (1946-1947), surge: (...) É mineral/ a linha do horizonte,/ nossos nomes, essas coisas/ feitas de palavras./ É mineral, por fim,/ qualquer livro:/ que é mineral a palavra/ escrita, a fria natureza/ da palavra escrita. (...) O confronto entre razão e emoção já se estabelece mais abertamente.
Na sequência, ainda no primeiro volume das obras completas, aparece O Cão Sem Plumas (1949-1950), que traz um dos poemas mais conhecidos de Cabral, O Rio. A obra segue com Paisagens com Figuras (1945-1955), Morte e Vida Severina (1954-1955) de características dramáticas , Uma Faca só Lâmina (1955), Quaderna (1956-1959), Dois Parlamentos (1958-1960), e Serial (1959-1961).
No prefácio, Marly de Oliveira destaca a densidade de Uma Faca só Lâmina e a qualifica de amorosa. O poema principal traz uma obsessão ao lidar com um cerne extremamente ferino: (...) Essa lâmina adversa,/ como o relógio ou a bala,/ se torna mais alerta/ todo aquele que a guarda,/ sabe acordar também/ os objetos em torno/ e até os próprios líquidos/ podem adquirir ossos./ E tudo o que era vago,/ toda frouxa matéria,/ para quem sofre a faca/ ganha nervos, arestas. (...).
O volume dois começa com A Educação pela Pedra (1962-1965), livro dedicado ao primo Manuel Bandeira. Os poemas são cuidadosamente arquitetados e consolidam a visão árida do nordeste, os canaviais sufocando os sertanejos, os rios, a cidade de Recife, a grande pedra que é o sertão: (...) No sertão a pedra não sabe lecionar,/ e se lecionasse não ensinaria nada;/ lá não se aprende a pedra: lá a pedra,/ uma pedra de nascença, entranha a alma.
Depois aparecem Museu de Tudo (1966-1974), A Escola das Facas (1975-1980) e o Auto do Frade (1984), outro texto dramático, desta vez enfocando os últimos momentos de Frei Caneca, jornalista recifense preso durante a Confederação do Equador e fuzilado.
A obra prossegue com Agrestes (1981-1985) e Crime na Calle Relator (1985-1987), revelando a admiração pela Espanha, que chega ao ápice em Sevilha Andando (1987-1993) e Andando Sevilha (1987-1989), que encerram a coletânea.
Além dos dois volumes, a Nova Fronteira lançou também um CD com poemas recitados pelo próprio João Cabral, incluindo memórias biográficas. O pacote reunindo Serial e Antes, A Educação pela Pedra e Depois e o CD João Cabral de Melo Neto por João Cabral de Melo Neto, sai por R$ 56,00, preço sugerido pela editora.


