Em Pernambuco nasceu uma poesia tão seca quanto a paisagem do sertão. A palavra perdeu os adereços em busca da objetividade, do racionalismo e do despojamento. João Cabral de Melo Neto trabalhou como um arquiteto na construção de um obra econômica e fundamental, que está sendo relançada pela Editora Nova Fronteira em dois volumes: ‘‘A Educação pela Pedra e depois’’ e ‘‘Serial e antes’’.
A grande ironia desta trajetória foi Cabral morrer cego, em outubro do ano passado. Para quem admirava a luminosidade de Recife, que influenciou a nitidez de sua escrita, a degenerescência da retina surgida a partir de 1992 foi torturante. O poeta, que não se interessava por música e também a economizava nos versos, chegou a declarar que preferia a surdez. O visual delineava seu texto.
A clareza do trabalho de Le Corbusier, baseada no construtivismo e na racionalidade, foi uma referência que se estabeleceu. Le Corbusier, arquiteto franco-suíço, procurava condensar artes plásticas e arquitetura prezando a funcionalidade e os aspectos econômicos, em busca de formas práticas e pouco ornamentais.
João Cabral de Melo Neto repudiava o romantismo, fugia de arroubos sentimentais, evitava metáforas e metonímias, não queria saber de excessos. Talvez por isso desdenhou o amor, dedicando-se pouco ao tema.
O poeta preferia enfocar o mundo a sua volta, com descrições aprofundadas de paisagens, cidades, ruas e edifícios. Comparou o sertanejo pernambucano ao pó sobre o qual insiste em viver. Traçou paralelos entre a procissão dos rios rumo ao oceano e os retirantes à procura de sobrevivência na capital. Enxergou nos engenhos máquinas de dragar vidas, nos canaviais um mar produtivo que expulsava o homem da terra invadindo quintais.
Seus adjetivos são econômicos e densos: a paisagem é mineral, a dor é calada, a tripa é seca, o sangue é mudo. A morte persegue-lhe a pena e alcança primeiro plano em muitos textos. A descrição de cemitérios rende vários poemas.
Toda essa configuração encontra raízes em quadras populares e na literatura de cordel, e caminhou cada vez mais para um realismo que abdicava qualquer hipótese de deslumbre. Em Barcelona, onde exerceu cargo diplomático, João Cabral se aprofundou nos estudos literários e mergulhou no realismo espanhol.
A Espanha, aliás, foi preponderante. Cabral admirava o toureiro que se arriscava aproximando o ventre dos chifres do animal, acompanhava com prazer quase voyeur a sedução das mulheres da Andaluzia e, numa concessão, se interessava pelo flamenco e seu canto rasgado, nevrálgico. Tornou-se amigo de Miró, outra de suas influências.
A edição da Nova Fronteira segue a ordem cronológica. Cabral preferia o inverso. Assim, os leitores tomariam contato primeiro com os versos mais recentes e amadurecidos. Os volumes trazem prefácio de Marly de Oliveira, segunda mulher do escritor.
‘‘Pedra do Sono’’ (1940-1941) inicia o volume com as primeiras publicações literárias de Cabral. Já se encontra a referência visual, com uma homenagem a Picasso, e características surrealistas que se estenderiam a ‘‘Os Três Mal-Amados’’ (1943).
O livro seguinte, ‘‘O Engenheiro’’ (1942-1945) é dedicado a uma influência confessa: Carlos Drummond de Andrade. Aí já residem os indícios de um novo caminho, à procura da sobriedade, como o próprio título indica. É onde se encontra ‘‘A Lição de Poesia’’: ‘‘(...) Carvão de lápis, carvão/ da idéia fixa, carvão/ da emoção extinta, carvão/ consumido nos sonhos.’’
Já em ‘‘Psicologia da Composição’’ (1946-1947), surge: ‘‘(...) É mineral/ a linha do horizonte,/ nossos nomes, essas coisas/ feitas de palavras./ É mineral, por fim,/ qualquer livro:/ que é mineral a palavra/ escrita, a fria natureza/ da palavra escrita. (...)’’ O confronto entre razão e emoção já se estabelece mais abertamente.
Na sequência, ainda no primeiro volume das obras completas, aparece ‘‘O Cão Sem Plumas’’ (1949-1950), que traz um dos poemas mais conhecidos de Cabral, ‘‘O Rio’’. A obra segue com ‘‘Paisagens com Figuras’’ (1945-1955), ‘‘Morte e Vida Severina’’ (1954-1955) – de características dramáticas –, ‘‘Uma Faca só Lâmina’’ (1955), ‘‘Quaderna’’ (1956-1959), ‘‘Dois Parlamentos’’ (1958-1960), e ‘‘Serial’’ (1959-1961).
No prefácio, Marly de Oliveira destaca a densidade de ‘‘Uma Faca só Lâmina’’ e a qualifica de amorosa. O poema principal traz uma obsessão ao lidar com um cerne extremamente ferino: ‘‘(...) Essa lâmina adversa,/ como o relógio ou a bala,/ se torna mais alerta/ todo aquele que a guarda,/ sabe acordar também/ os objetos em torno/ e até os próprios líquidos/ podem adquirir ossos./ E tudo o que era vago,/ toda frouxa matéria,/ para quem sofre a faca/ ganha nervos, arestas. (...)’’.
O volume dois começa com ‘‘A Educação pela Pedra’’ (1962-1965), livro dedicado ao primo Manuel Bandeira. Os poemas são cuidadosamente arquitetados e consolidam a visão árida do nordeste, os canaviais sufocando os sertanejos, os rios, a cidade de Recife, a grande pedra que é o sertão: ‘‘(...) No sertão a pedra não sabe lecionar,/ e se lecionasse não ensinaria nada;/ lá não se aprende a pedra: lá a pedra,/ uma pedra de nascença, entranha a alma.’’
Depois aparecem ‘‘Museu de Tudo’’ (1966-1974), ‘‘A Escola das Facas’’ (1975-1980) e o ‘‘Auto do Frade’’ (1984), outro texto dramático, desta vez enfocando os últimos momentos de Frei Caneca, jornalista recifense preso durante a Confederação do Equador e fuzilado.
A obra prossegue com ‘‘Agrestes’’ (1981-1985) e ‘‘Crime na Calle Relator’’ (1985-1987), revelando a admiração pela Espanha, que chega ao ápice em ‘‘Sevilha Andando’’ (1987-1993) e ‘‘Andando Sevilha’’ (1987-1989), que encerram a coletânea.
Além dos dois volumes, a Nova Fronteira lançou também um CD com poemas recitados pelo próprio João Cabral, incluindo memórias biográficas. O pacote reunindo ‘‘Serial e Antes’’, ‘‘A Educação pela Pedra e Depois’’ e o CD ‘‘João Cabral de Melo Neto por João Cabral de Melo Neto’’, sai por R$ 56,00, preço sugerido pela editora.

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