Manaus - ''É como dizia Guimarães Rosa: está tudo no barro, debaixo do chão'', explica João Bosco. A resposta vem de bate-pronto, assim que a conversa chega à brilhante geração de músicos mineiros dos anos 60 e 70. A reportagem quer saber o que - clima, topografia, arquitetura ou teor de zinco em água potável - havia em Minas para que o Estado parisse músicos como Toninho Horta, Milton Nascimento e João Bosco. Músicos não só talentosos, mas visionários, cuja linguagem se encontrava espantosamente vinculada à tradição musical do País, ao mesmo tempo em que apontava para direções abstratas e modernistas.
''Desista'', avisa João. ''Você já pediu para algum mineiro se autodefinir? O mineiro é um mistério. Nem ele sabe o que é. Minas é uma antena parabólica que capta sinais sabe se lá de onde. E de repente chega um cara como Milton, recebe aquele sinal e a música brasileira nunca mais é a mesma.''
Desisto. Arrancar de João Bosco uma teoria sobre seus conterrâneos/contemporâneos a fim de introduzir sua música é perda de tempo. Vamos aos fatos. São 40 anos de sua primeira gravação, ''Agnus Sei'', lançada como disco de bolso pelo Pasquim, em 1972, e regravada em seu novo CD e DVD ao vivo, ''40 Anos Depois'', que saem no fim do mês.
São 25 discos em 65 anos. Um cancioneiro brilhante, feito em parceria com Aldir Blanc. Síntese do cotidiano brasileiro feita com humor, lirismo, drama e virtuosismo poético. Um violão que o coloca no patamar de Gil, Baden, Caymmi e João Gilberto como pilar do instrumento. Uma interpretação rítmica, em cordas e voz, mediunicamente entranhada na tradição africana do País.
Se João é um desses para-raios a qual se refere? ''Eu entendia esses caras. Eu olhava para eles e achava graça pra caramba. Olhava para aquele violão do Caymmi e pensava: 'esse violão não é um violão de acompanhamento. É um violão a serviço de outra finalidade. Um violão que descreve todo um cenário''', lembra.
Refere-se aos dedilhados que tanto o influenciavam (vide a própria quarentona ''Agnus Sei'') na época em que cursava arquitetura em Ouro Preto, possuía apenas cinco discos (''Canções Praieiras'', de Dorival, entre eles), e escapava vez ou outra até Belo Horizonte para conversar com Milton Nascimento, que o recebia entre os meio tempos de suas apresentações em restaurantes da capital.
''Eu saquei tudo isso desde o início. Quando via o Bituca (Milton) fazendo aquelas coisas, aquelas harmonias interplanetárias, eu dava risada. Eles captavam, eu entendia. Acho que essa é a ideia. Devo muito do meu trabalho a eles. Ao Caymmi, ao Milton, ao Gil, que é outro cara que tem uma percepção fantástica.''
A gênese de ''Agnus Sei'', há 40 anos, está vinculada a cacoetes estilísticos que definiriam grande parte de sua obra, conta João, já confortável, entregando um pouco do ouro mineiro, que escondia no começo da entrevista.
''É lógico que tem uma parte de mim que é muito marcada por Minas Gerais. Que vem não só daquela paisagem, mas especificamente daquela arquitetura de Ouro Preto.'' ''Agnus Sei'' precederia seu estarrecedor LP de estreia, ''João Bosco'', lançado em 1973. ''Nesse disco, queria retratar a minha relação com Ouro Preto. A forma como eu, um músico mineiro, e o Aldir, um poeta carioca que chegava para letrar essa cidade, reagiam a ela. Morei 11 anos em Ouro Preto. Me aprofundei em tudo de lá, na arquitetura, no Manoel da Costa Ataíde. Tudo aquilo estava embrenhado na minha forma de fazer música. Aquilo nunca me deixou. Quando fui para o Rio, isto se desdobrou nas canções do 'Caça à Raposa', que conta a história contrária: como um mineiro barroco se comporta no Rio de Janeiro de seu parceiro carioca.''
Em 1972, ''Agnus Sei'' era uma entre várias acumuladas por João Bosco e Aldir Blanc, desde o início da parceria, em 1969. A genial ''Bala Com Bala'', por exemplo fora gravada pela cantora no mesmo ano da estreia, dando início a uma fecunda parceria que marcaria a história da MPB. Outras, como ''Mestre Sala dos Mares'' e ''Caçadores de Esmeralda'' aguardavam um momento propício para ver a luz do dia.
Durante a fase barroca, João ainda terminava a faculdade e Aldir o visitava para lapidar canções. A parceria vingava intuitivamente desde que João Bosco tinha ido ao Rio de janeiro a convite de Vinicius de Moraes, com quem já havia composto um samba, em 1967.
''A gente sempre percebeu as coisas sem precisar falar muito. É como jogador de futebol. Pelé e Coutinho. Ganso e Neymar. Os caras já sabem'', explica. As tabelinhas renderam os gols de placa que já conhecemos. ''Galos de Briga'', ''Linha de Passe'', ''Comissão de Frente'' e outros marcos essenciais da discoteca brasileira. Porém, como a faixa inicial de ''Galos de Briga'' sugeria (num perfeito título de matéria, diga-se), uma ''Incompatibilidade de Gênios'' faria a dupla interromper a produção a partir de 1983, e retomá-la apenas na década passada.
''Isso é um assunto em que a gente nem toca mais. É um passado tão passado'', comenta. ''Depois, é o seguinte: o Aldir diz uma coisa muito bonita. O tempo que ficamos juntos é a obra que a gente fez. Já o tempo que ficamos separados, costumo dizer que navegamos em navios diferentes, olhando para as mesmas estrelas. Tudo é poesia na vida. Você não pode negar as encruzilhadas. As pedras no meio do caminho. Como disse um grande mineiro'', reflete.

mockup