São Paulo, 16 (AE) - Como quase todo mito, o de Joana dArc é, também, uma superfície em branco sobre a qual cada autor imprime a sua marca. O último a fazê-lo (outros virão) foi o diretor francês Luc Besson, cuja versão para a vida e martírio da "virgem de Orleans" chega amanhã (17) às telas. Cada época teve sua Joana e o fim do milênio mereceu de Besson uma heroína aeróbica, que trava seus combates com decisão e ouve vozes como uma médium mal resolvida.
Besson pouco liga para a intriga política associada à lenda de Joana - dá, às condições sociais do século 15 na França
status de mero pano de fundo. A França, exaurida pela Guerra dos Cem Anos aparece superficialmente, da mesma forma que o delfim e depois rei Carlos VII (Malkovich), soberano fraco, corrupto e pouco propenso a enfrentar os ingleses.
A mártir parece menos movida pela indignação política, ou pelo ardor religioso, que por um prosaico sentimento de vingança. A "cena primária" de sua história pública seria aquela em que sua irmã é estuprada e morta por um soldado inglês. Tudo o mais, freudianamente, decorre daí. Das vozes que ouve à coragem suicida que exibe em combate. Uma maneira de interpretar o mito, prerrogativa do cineasta, mas que é, no fundo, tendenciosa e simplificadora.
"Joana dArc" não esconde o fascínio do diretor pelo cinema norte-americano. Por isso, com sua ênfase na ação em detrimento da reflexão, o filme lembra em determinados momentos o épico "Coração Valente", de Mel Gibson. Boas cenas de batalha e um desempenho até certo ponto surpreendente da ex-modelo, ex-cantora e ex-senhora Besson, Milla Jovovich, tornam o programa apetecível, apesar das quase 2 horas e 40 minutos de duração. É, possivelmente, o melhor filme de Luc Besson. Mas, como se trata de Luc Besson, a frase anterior não tem valor de recomendação.

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