Sai o detetive inglês Sherlock Holmes, entra o terrorista sérvio Dimitri. Em vez da virada do século no Rio, o período entre a Primeira Guerra Mundial (1914) e o suicídio de Vargas (1954). No lugar do thriller, a aventura. Deu certo com ‘‘O Xangô de Baker Street’’ (420 mil exemplares vendidos no Brasil, dois meses entre os mais vendidos na França), e o humorista e apresentador de TV Jô Soares, 60 anos, decidiu não abandonar o romance histórico em seu novo livro, ainda sem nome, que deve sair até o final do ano pela Companhia das Letras.
Em entrevista à reportagem, Jô Soares adiantou com exclusividade detalhes da nova obra, ainda na 330ª página de um total de 350. Falou da adaptação que o cineasta Miguel Farias (‘‘Stelinha’’ e ‘‘Para Viver um Grande Amor’’) faz de ‘‘Xangô’’, dos 10 anos de seu programa de entrevistas no SBT e da marca de charutos que vai lançar. Enrolados nas Ilhas Canárias, com semente e capa cubanas, nos tamanhos robusto, touro, churchill e corona, devem ser batizados de Jô Soares, é claro.
Em que pé está o livro?
Jô Soares - Faltam 20 páginas. Então, vou reler. Deve ter 350 páginas. É romance histórico e tem um nome de trabalho, não-definitivo, que eu prefiro não dizer porque pode mudar.
Qual o tema?
Jô Soares - Começa com o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, em Sarajevo (estopim da Primeira Guerra Mundial, em 1914), e termina com o suicídio de Getúlio Vargas (em 1954). É a história de Dimitri, um anarquista, terrorista, treinado como assassino e que chega sempre atrasado nos lugares. É um anarquista desajeitado, desastrado, digamos assim. O personagem está sempre envolvido nas situações históricas mais importantes do momento.
E Dimitri é brasileiro?
Jô Soares - É sérvio, mas filho de uma brasileira.
Como em ‘‘Xangô’’, você tem uma equipe que o auxilia?
Jô Soares - Não, fiz a maioria das pesquisas. Tive de ler paca, porque era por meio do estímulo da pesquisa que ia desenvolvendo o personagem. Agora, recebo o auxílio do pessoal do Dedoc (departamento de pesquisa da editora Abril) e de uma pesquisadora, Ângela Marques da Costa, que levanta uma série de dados.
Por exemplo?
Jô Soares - Por exemplo, o valor do rublo em 1930...
Qual a rotina?
Jô Soares - Primeiro, faço um roteirão. Só escrevo quando sei como é o fim. Começo ao contrário, se não fico perdido. Esse roteirão vai se modificando, tem personagens que surgem sem você querer. Você mata, eles voltam. É uma coisa mediúnica. Feito o roteiro, começo a mandar brasa.
Por que de novo romance histórico?
Jô Soares - A história é um grande tema.
Depois do ponto final, quem será o primeiro a ler o livro?
Jô Soares - Eu. Se bem que pessoas vão lendo junto comigo. Geralmente os escritores odeiam fazer isso, não é? Eu adoro. Porque sou basicamente um showman, um homem de palco, exibicionista. Então, vivo de estímulo. Eu não aguentaria escrever um livro de 350 páginas sem mostrar.
Você pretende continuar escrevendo?
Jô Soares - Tenho três idéias de livros. Um se passa nos anos 60, outro em 1938 e tem um romance de mistério durante a Roma antiga.
Você participou da adaptação de ‘‘Xangô’’ para o cinema?
Jô Soares - Não. Estou tão envolvido que ia querer cortar coisas que eram para ficar ou deixar que ficassem coisas que seriam cortáveis. Para ter uma idéia como me envolvo, quando acabei de dirigir meu filme (‘‘O Pai do Povo’’, de 1976), não consegui fazer o trailer.
Por que o Miguel Farias?
Jô Soares - As duas primeiras pessoas que me procuraram foram o Guilherme Fontes e ele. O Miguel se empenhou muito, vendi os direitos para ele. Outro que ficou entusiasmadíssimo foi o Harry Belafonte. Recebemos também um fax do John Malcovich, mas a coisa já estava toda engatilhada.
No Brasil, a única crítica negativa feita a ‘‘Xangô’’ foi da revista ‘‘Exame’’. Não houve aí uma certa unanimidade burra?
Jô Soares - Não era crítica, não falava sobre o livro, era mais um comentário, de que eu só recebi críticas positivas por ser famoso e ter muitos amigos. Esse comentário ficou desmentido pelas críticas excelentes que o livro teve no mundo todo. Eu não sou conhecido no resto do mundo, meu programa não passa em Paris, em Berlim, Roma.
Dez anos depois, você acha que o ‘‘Jô Onze e Meia’’ cansou ou ainda tem fôlego?
Jô Soares - O programa se modifica a cada dia. Qual o projeto para os próximos dez anos? Não dá para dizer, depende do que acontece. E tem um lado de registro histórico que é o que eu mais gosto. O programa é um painel da história do Brasil nos últimos dez anos, tudo o que aconteceu está lá.
Você vai fazer mudanças?
Jô Soares - O programa não tem nenhuma camisa de força, não tem rotina que tenha de ser cumprida. Então, eu posso fazer uma entrevista atrás da mesa, posso ir para o piano, de repente tem uma entrevista internacional no telão...
Uma das críticas a se fazer ao seu programa é que às vezes você se envolve demais com o entrevistado. Ou, se discorda do seu ponto de vista, fala mais do que ele.
Jô Soares - Hoje em dia eu me controlo muito mais. Eu sou humano, não sou jornalista no sentido convencional da palavra, sou um comediante. Um humorista que faz entrevistas. Apesar de já ter escrito em vários órgãos de imprensa. Aliás, para mim, órgão de imprensa é o pinto do dono do jornal. (risos)
Às vezes, falta contundência em suas perguntas, não? Em outras, sobra contundência. Parece que o programa cresce ou perde proporcionalmente ao fato de você gostar ou não gostar do entrevistado.
Jô Soares - Claro. Como em qualquer conversa, quando o assunto é bom, a conversa pega fogo e vai até de madrugada. Quando o assunto é morno, a participação é menor.
Fazendo um balanço dos 10 anos, diga cinco grandes entrevistas e cinco decepcionantes.
Jô Soares - As frustrações eu prefiro não dizer, porque as pessoas foram convidadas minhas, seria deselegante. Das grandes, o Agildo Ribeiro é um. O Sérgio Malandro deu uma entrevista surpreendente. O Luiz Carlos Prestes deu uma entrevista fantástica. O Ulysses Guimarães, na época do impeachment, também deu uma entrevista que foi definitiva.
Até agora, o seu programa é uma ilha de tranquilidade no mar agitado que são Silvio Santos e o SBT. Seu colega Serginho Groisman, por exemplo, teve o horário de seu programa mudado 40 vezes. O departamento de jornalismo foi simplesmente extinto. Como é trabalhar no meio disso tudo?
Jô Soares - Não sei o que responder. Seria antiético fazer uma análise de como o dono da empresa administra a sua própria empresa. Eu tenho um programa que tem total liberdade de criação. O Silvio nunca interferiu em nada, ao contrário, sempre teve um comportamento impecável em relação ao programa. Não vejo como ele mexeria num programa desses, que é diário e que vai ao ar num horário, tem até o horário no título... É claro que o fato de trabalhar no SBT, você sempre está diante dessas mudanças, chega lá e mudou tudo, mudou aquilo, mudou aquilo lá, mas ele administra a empresa do jeito que ele quer administrar, não é? Da mesma forma, é muito estimulante essa coisa imprevisível do SBT porque ao mesmo tempo que hoje não tem jornalismo, amanhã, de repente, ele sai e contrata uma puta equipe. Quer dizer, é sempre uma surpresa. Você chega e é sempre uma coisa maravilhosamente imprevisível.
Você está sofrendo assédio da Record?
Jô Soares - Se eu estivesse, eu não iria dizer. (risos)
Pouca gente sabe que você já teve um programa como o ‘‘Jô Onze e Meia’’, em 1973, na Rede Globo. Por que acabou o ‘‘Globo Gente’’?
Jô Soares - O programa já nasceu sem muita possibilidade de alçar vôo porque era em plena ditadura. Um programa de entrevistas com censura, como você vai fazer? Sobreviveu se não me engano uns seis meses. Mas tinha problemas: não havia platéia, era semanal...
Em quem você vai votar para presidente?
Jô Soares - Bom aí, essa pergunta eu não posso responder e vou te dizer por que. Porque como eu faço um programa onde levo todos os partidos políticos, todas as facções políticas, enfim, de todas as áreas, se eu me manifestar a favor de um ou de outro o que for de outro partido, vão dizer: ah! ele está falando isso porque ele vai votar no outro e vice-versa. E também eu acho que como uma pessoa que de certa forma pode influenciar o voto dos outros eu não quero esse tipo de responsabilidade. Eu quero votar como cidadão, não como o Jô Soares, da televisão. Porque na hora que você revela uma intenção de voto você liga as duas coisas.
Você cria um clima descontraído em seu programa, sempre falando da ‘‘Flavinha’’ (mulher de Jô), dando a impressão de que se expõe, mas a verdade é que se conhece muito pouco de sua vida pessoal. Isso não ocorre com seus companheiros norte-americanos, por exemplo, de quem se sabe o salário, as mulheres, os filhos etc. É proposital isso?
Jô Soares - É.
Por quê?
Jô Soares - Claro, claro, porque eu acho que a vida particular das pessoas é uma coisa sagrada, uma coisa íntima e que também sofre alterações como a vida particular de todo mundo e que eu acho que não são para ser notícia, não é? E a minha vida pública já é tão pública, já é tão escancarada se eu não preservar a minha vida particular fica uma misturada que não tem tamanho.
Mas você expõe as pessoas que vão a seu programa, inclusive em questões íntimas.
Jô Soares - Dificilmente, dificilmente, porque o programa não é investigativo. O programa comenta os fatos. Então, não é que eu descubro uma coisa a respeito de uma pessoa e jogo em cima dele no programa. Qualquer comentário que eu faço, já foi feito ou a pessoa dá voluntariamente uma informação de repente no meio do programa, mas dá uma informação que eu não sabia, não é? De repente ele fornece uma informação no programa que eu não sabia, mas eu não fico vasculhando nesse sentido, quanto é que você ganha e não sei o que e você se separou por que a primeira vez. Esse tipo de pergunta eu não faço nunca.
Quanto você ganha?
Jô Soares - (risos) Você sabe que eu não sei? Ganho muito bem e gasto muito bem também. Quando você falou isso, lembrei-me de uma coisa engraçada. Quando entrevistei o Walter Mercado, falei: ‘‘Quantos anos você tem?’’ E ele: ‘‘Todos!’’. (risos)

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