JK, um presidente cercado por notas
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sábado, 27 de julho de 2002
Antônio Mariano Júnior<BR>Reportagem local 
Era um senhor pé-de-valsa. Gostava de festas e música e, com o devido respeito a sisudos biógrafos, só podia ter alma boêmia. Tinha predileção pelas serestas, mas acabou se consagrando como presidente Bossa Nova. O título está por um fio. E o principal argumento pode ser encontrado ou melhor, apreciado no disco ''Memorial'' em que Wagner Tiso e Zé Renato prestam tributo a um dos mais populares e míticos presidentes do Brasil: Juscelino Kubitschek de Oliveira.
No álbum, a referência à Bossa Nova insurge de forma sutil, apenas para lembrar que o movimento musical eclodiu quando JK governava o Brasil. No mais, prevalecem as serestas, valsas e sambas. Ao contrário de possíveis conotações, o disco não tem nenhum teor político. Trata-se de um inventário musical feito com canções que acompanharam a trajetória do homem Juscelino Kubistchek, da infância em Minas Gerais até a formação do tótem político.
O que era para ser apenas um complemento, acabou ganhando vida própria. Isto é, ''Memorial'' viria como brinde de uma revista dedicada ao centenário de nascimento de JK, publicada pela Takano Editora Gráfica. No entanto, a gravadora Biscoito Fino, em associação com o Instituto Takano, registrou o disco protagonizado pelo cantor e compositor capixaba Zé Renato e o compositor e instrumentista Wagner Tiso. São eles quem rendem tributo ao presidente brasileiro que, entre 1956 e 1961, fez muita gente acreditar que esse era um país que realmente ia para frente. O slogan de governo ''50 anos em 5'', parecia fazer sentido.
Enquanto a profecia numerológica se profetizava, pelo menos metaforicamente, coincidentemente JK era circundado por fatos notórios nos esportes e nas artes como a coroação do Rei Pelé com a conquista do primeiro título mundial de futebol; o brilho da tenista Maria Ester Bueno nas quadras de Wimbledon; os nocautes famosos de Éder Jofre; os primeiros acordes da Bossa Nova; as idéias de Glauber Rocha e o Cinema Novo, entre outros acontecimentos.
Paralelo a isso, o político JK ganhava prestígio popular, entre outras coisas, com o desenvolvimento da indústria automobilística nacional, através de concessões e incentivos fiscais a empresas estrangeiras; a implantação da Central Elétrica de Furnas; a construção de 20 mil quilômetros de estradas; e, claro, a transferência da sede do governo do Rio de Janeiro para Brasília, seu maior trunfo e consequente reconhecimento dos traços arquitetônicos vanguardistas de Oscar Niemeyer e do urbanista Lúcio Costa . ''São fatos interessantes que acontecem apenas com pessoas especiais'', afirma o cantor Zé Renato que diz se identificar com o espírito sonhador de JK. ''Não sou um cientista político, mas pelo o que li ele foi um cara competente que soube conviver com as diferenças e teve mais acertos do que erro'', diz
Wagner Tiso lembra que seu pai era um entusiasta de JK e prefere simplificar em uma palavra a figura do ex-presidente: carismátivo. ''A questão da possível homenagem política do disco não me interessou. A parte de repertório sim, já que abrimos o leque e passamos em várias décadas através de músicas importantes do cancioneiro'', frisa Tiso.
Uma coisa em comum Wagner Tiso e Zé Renato ressaltam: os bons olhos com que o ex-presidente mirava as artes, em especial a música. Talvez seja esse o motivo principal de ''Memorial'' ter razão de ser. O repertório foi composto em comum acordo e a memória afetiva e musical, a linha condutora do trabalho. Para se chegar às 13 faixas do disco, Zé Renato e Wagner Tiso selecionaram cerca de 100 músicas.
São obras popularizadas entres as décadas de 20 e 60 as duas exceções ficam por conta de ''Céu de Brasília'' (Toninho Horta - Fernando Brant), de 1979 ; e ''É a Ti Flor do Céu'' (M.Ferreira - T.Pereira), sem data precisa mas bastante popular em 1902, ano em que JK nasceu. O resultado surpreendente. Independente da homenagem embutida, ''Memorial'' é um trabalho que se dilata por resgatar pepitas da música popular brasileira ''É um disco que explora todas as possibilidades dos instrumentos acústicos. Procurei dar harmonias mais modernas para que a nova geração pudesse também ter contato com as canções'', diz Wagner Tiso, responsável pela direção musical e orquestração.
Zé Renato também ganha pontos com ''Memorial'', que só vem reforçar o compromisso assumido por ele em direcionar sua discografia principalmente à garimpagem de preciosidades musicais. ''Faço música com prazer e cuidado porque a MPB é um tesouro incalculável'', analisa.
Para contextualizar a importância de JK, o encarte do disco traz textos, em forma de verbetes, assinados por Maurício Dias. A coordenação geral do projeto ficou a cargo de Renata Cunha, representante do grupo Takano no Rio de Janeiro, que contou com consultoria de Geraldo Carneiro. Ou seja, ''Memorial'' é cheio de notas, acordes e palavras. Ou seja, um tributo à altura do memorável e festeiro Juscelino Kubitschek.


