Não foi só Harry Potter e seus leitores que amadureceram no vácuo de dez anos entre o lançamento do primeiro livro da série, ''Harry Potter e a Pedra Filosofal'', e o último, ''Harry Potter e as Relíquias da Morte''. No catatau despejado nas livrarias, maturou também a escrita de J.K.Rowling.
Inventiva porém pueril nos dois primeiros livros, adolescente, ainda que habilidosa, no terceiro, no quarto e no quinto, política - e incrivelmente prolixa - no sexto, Rowling, no seu último intento, que ganha versão em português em novembro, achou o ponto para onde convergem fantasia, aventura, mitologia e uma densidade psicológica de que carecem muitos ''livros adultos''.
Poucos estiveram lá, mas a companhia tem peso - Lewis Carroll (''Alice no País das Maravilhas''), Robert Louis Stevenson (''O Médico e o Monstro'' e ''A Ilha do Tesouro''), L. Frank Baum (''O Mágico de Oz'') e, dirão alguns, J.R.R.Tolkien (''A Trilogia do Anel). Rowling recorreu a todas essas fontes e a dezenas de outras com uma destreza impressionante para costurar referências e prover-lhes uma cara nova.
Sarcástica e sombria a escritora (britânica) sempre foi, mas as duas características que cresceram em progressão geométrica durante a série desembocam neste último volume de forma avassaladora. Ao contrário do que ocorreu em seus predecessores, ''Relíquias da Morte'' não deixa espaço para lamentos, dramas adolescentes, sentimentalismo fora de hora.

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