São Paulo, 16 (AE) - De tanto lhe perguntarem por que escreve, José J. Veiga decidiu responder por escrito, de uma vez por todas - e o fez no texto de apresentação da série "O Escritor por Ele mesmo", da qual é o convidado de amanhã (17) à noite, às 20h30, no Instituto Moreira Salles (IMS), em São Paulo. Diz, em resumo, que escreve "por compulsão" e toma emprestada outra explicação, do francês Julien Gracq, para completar a resposta: "Escrevo para saber o que vou encontrar". E o que encontra? "Encontro sofrimento e prazer", responde, depois de pensar por alguns segundos.
Sofrimento na busca da palavra certa para encaixá-la no lugar exato e em revisões incansáveis num duelo com a autocrítica voraz que, no início do ofício, fez com que demorasse até sete anos entre o lançamento do primeiro livro, "Os Cavalinhos de Platipanto", de 1959, e o seguinte, "A Hora dos Ruminantes", de 1966. O prazer vem mais tarde, meses depois
com o livro pronto, impresso e nas livrarias. Resta ainda uma ansiedade quanto à crítica, mas essa sempre lhe foi generosa. Então, o escritor recolhe-se e jura que nunca mais vai começar um novo livro.
O sofrimento talvez não compense o prazer. "Passo tempos sem fazer nada, quieto", diz. Vive em paz, não duradoura. "Vou ficando irrequieto, não paro dentro de casa, a mulher começa a reclamar", conta. "Então, percebo que tem um livro me chamando e preciso libertá-lo", explica. Tem sido assim nos últimos 40 anos, em que libertou suas principais obras
12 ao todo, a começar pelo já citado livro de contos "Os Cavalinhos de Platiplanto" (1959) e depois "A Hora dos Ruminantes" (1966), "A Máquina Extraviada" (1967), "Sombras de Reis Barbudos" (1972), "Os Pecados da Tribo" (1976), "De Jogos e Festas" (1980), "Aquele Mundo de Vasabarros" (1982), "Torvelinho Dia e Noite" (1985), "A Casa da Serpente" (1989)
O Risonho Cavalo do Príncipe (1992), "O Relógio Belisário" (1995) e "Objetos Turbulentos" (1997).
"Depois de aprontar um texto, eu o releio e vou expulsando as palavras que não pagaram entrada", explica o escritor, bem-humorado, criando o posto de cobrador literário. Veiga não dá boa-vida às palavras, de quem exige credencial para entrar em seu texto. "Não se pode deixar palavras se apertando, sobrando, fora de lugar", ensina.
Saúde - O escritor completou 84 anos em fevereiro. Não escreve desde outubro, quando sentiu-se mal e foi diagnosticado que sofria de uma pancreatite somada a uma úlcera. "Descobri de repente que estava velho", diz. "Até então, nunca tinha sofrido além de uma gripe". Muito a contragosto, Veiga passou dois meses e meio internado num hospital no Rio. Voltou para casa, mas não tem escrito. Sente-se fraco. Tomou "um barril de soro". Perdeu 15 quilos, recuperou um terço. Prefere esperar algumas semanas para ganhar força. Por isso, sai pouco de seu apartamento na Glória, zona central do Rio, onde mora com a mulher Clérida, pintora, formada em Belas Artes e com quem está casado há 47 anos.
O escritor, que nasceu e foi criado numa fazenda em Goiás, entre Corumbá e Pirenópolis, diz com um certo prazer que é preguiçoso. Mas trabalhou desde muito moço, primeiro no comércio, em Goiás, depois como propagandista de laboratório, no Rio, e mais tarde como locutor da Rádio Guanabara. Virou escriturário numa repartição pública e, em 1943, formou-se advogado. Mudou-se para a Inglaterra no final da 2.ª Guerra para trabalhar como comentarista na BBC de Londres.
Veiga retornou ao Brasil cinco anos mais tarde, foi trabalhar no jornal "O Globo" e em seguida na "Tribuna da Imprensa". Virou redator-tradutor na revista "Seleções do Readers Digest", cargo que ocupou até 1970. Ao deixar a revista, já havia publicado seus três primeiros livros. Em 1972, assumiria o cargo de editor do Instituto de Documentação da Fundação Getúlio Vargas até aposentar-se em 1984.
Enfrentar uma platéia, como a que costuma lotar o auditório do IMS, não deve ser problema para Veiga. "No início, eu gaguejava, tremia, suava, era difícil", conta. "Hoje superei e participo desses encontros com prazer". O prazer é nosso.

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