Jingles que ninguém esquece
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de setembro de 1998
César Almeida Agência Estado 
Ao contrário das sátiras políticas, que têm apenas o objetivo de fazer rir, os jingles têm uma missão mais difícil: ajudar a eleger o candidato. E uma comparação com os tempos antigos leva inevitavelmente à conclusão de que os velhos jingles tinham mais humor que os de hoje - e alguns até rivalizavam com as músicas de Carnaval.
Em 1910, os candidatos Hermes da Fonseca e Ruy Barbosa disputaram a Presidência, num tempo em que se costumava satirizar os candidatos no Carnaval - especialmente os que chegavam ao poder. Em 1922, o presidente eleito Artur Bernardes foi a musa da sugestiva música Seu Mé, sucesso em 78 rotações. Em 1929, Júlio Prestes fez campanha com a marcha É Sopa, de Eduardo Souto, em que a eleição aparece como uma partida de futebol.
Quando Getúlio Vargas decretou o Estado Novo, Sílvio Caldas cantou Na hora H quem ficar é seu Gegê, anunciando uma ditadura de oito anos. Em 46, nas primeiras eleições diretas depois do Estado Novo, o general Dutra foi o vencedor, e logo seu governo entrou nas paradas musicais, criticado com estes versos: Ai, Gegê!/Que saudade que nós temos de você/Tudo sobe, sobe, sobe/E o pobre do cruzeiro cada dia desce mais. Quando Vargas voltou ao poder, em 1950, o tom da marchinha era outro: Bota o retrato do velho outra vez/Bota naquele lugar/O sorriso do velhinho/faz a gente trabalhar.
Em 1961, Jânio Quadros teve sua marca registrada numa marchinha lembrada até hoje: Varre, varre, vassourinha/Varre, varre a bandalheira/O povo já está cansado/de sofrer desta maneira. Quatro anos depois, quando tentou se eleger logo após o golpe militar de 64, Lacerda apostou num jingle bem populista: Vão acabar os barracões de zinco/Com Lacerda em 65/Nossas portas vão dormir sem trinco/Com Lacerda em 65.
O resto da história todo mundo sabe. Até hoje, os jingles, em sua maioria, repetem promessas antigas em novos versinhos. À margem do tom ufanista e populista, Gaúcho da Fronteira condenou as promessas não cumpridas, algum tempo depois da posse de Collor: Parece que a noiva é a mesma/Só mudaram o penteado/Entra Juca, sai Manduca/e o baile sempre formado.


