Jesus Cristo gay causa muita polêmica em NY
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sexta-feira, 16 de outubro de 1998
Planet Pop/AE 
A polêmica do Jesus Cristo gay chegou de vez à Broadway. Estreou esta semana em Nova York a peça Corpus Christi, de Terrence McNally. Mais de 2 mil manisfestantes juntaram-se na frente do Manhattan Theater Club na terça-feira: a maioria contra a blasfêmia, mas muitos a favor da liberdade de expressão. Grupos religiosos de católicos, protestantes, judeus e muçulmanos foram mantidos longe da entrada do teatro por dezenas de policiais. Dentro do espaço, a segurança também era rígida, para evitar atentados.
O personagem principal do espetáculo é Joshua (interpretado por Anson Mount), um adolescente de Corpus Christi, no Texas. A pequena cidade é caracterizada na peça, nos anos 50, por sua homofobia. Ele nasceu em um daqueles motéis de beira-estrada. Sua mãe, Mary, é uma matrona texana exuberante que foi abandonada pelo marido, Joseph. Joshua é gay e fã de James Dean. Sua primeira relação sexual é com Judas (papel do ator Josh Lucas).
Depois que fica claro que Joshua gosta de homens, pouca coisa da história da Bíblia faz diferença. Há pequenas mudanças - a figura de Maria Madalena é feita por um garoto de programa, Joshua realiza um casamento gay e por aí vai. Joshua fica mais parecido com Jesus Cristo na metade do espetáculo, quando começa a pregar o amor e a compaixão. Ele cerca-se de 12 apóstolos gays. Na cena final, é crucificado por ser a Rainha das Bichas (Queen of the Queers). De acordo com os críticos, Corpus Christi não é boa o suficiente para chegar a ser uma blasfêmia. O tema gay não tem muito impacto dramático.
De cenas mais polêmicas, há apenas duas de beijos entre Joshua e Judas, além da cerimônia de casamento. O figurino do espetáculo é simples. Na maior parte da peça, os atores estão descalços e vestem camisas brancas e calças cáqui. Na cena da crucificação, Joshua está de cueca. O cenário é vazio, formado apenas por bancos de madeira. O Manhattan Theater Club, na Rua 55, entre a 6ª e a 7ª Avenidas, tem 300 lugares para a platéia.
Em um comunicado, McNally agradeceu ao teatro por seu apoio ao desenvolvimento do trabalho, dos primeiros rabiscos à noite de abertura. Na verdade, a história toda não foi bem assim. O espetáculo foi cancelado pelo teatro por conta da controvérsia inicial. Quando outros dramaturgos ameaçaram boicotar o espaço, voltou-se atrás na decisão. Agora que o trabalho está completo, confio na produção para expressar a minha visão, disse o autor. McNally montou suas peças de sucesso várias vezes no local. Ele é o autor de Master Class (encenada no Brasil por Marília Pêra), O Beijo da Mulher-Aranha e Love! Valour! Compassion!, além do libreto de Ragtime.
Os grupos religiosos querem que a peça saia de cartaz, o que é muitíssimo improvável. Mais de 1,5 mil cristãos, judeus e muçulmanos reuniram-se na porta do teatro para protestar. Muitos usaram megafones para amplificar seus gritos de cancelem a peça, enquanto outros seguravam crucifixos e terços. Na esquina da outra ponta da rua, cerca de 400 pessoas, comandadas pelo produtor de TV Norman Lear, faziam uma demonstração silenciosa de apoio a McNally. Do lado de dentro do teatro, seguranças foram contratados para revistar o público, inclusive com detectores de metais, e ficar de prontidão para evitar qualquer tipo de protesto na platéia. Quando surgiram as primeiras notícias de que a peça seria encenada, no início deste ano, McNally e os atores receberam ameaças de morte.


