Jerry Adriani volta com "Forza Sempre", disco em italiano
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 16 de setembro de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 17 (AE) - Roberto Carlos tinha meia dúzia de calhambeques invocados na garagem. Jerry Adriani não deixava por menos: tinha um Oldsmobile Cutless e estava na crista da onda. Também tinha um processo nas costas por sedução de menor em Belém do Pará. E nunca fazia shows na mesma cidade em que Wanderley Cardoso estivesse. Corriam os anos 60 e Jerry Adriani era o enfant terrible da Jovem Guarda.
Mas o tempo passou na janela e Jerry Adriani notou. E tentou mudar de rumo. Aos 52 anos, já fez balanço da carreira, já gravou um certo "romantismo família" e tentou ser um êmulo de Elvis Presley. Esta semana, após idas e vindas, voltou aos programas de auditório e está na boca da crítica musical com um novo e inesperado disco, "Forza sempre". Interpreta canções em italiano de seu mais famoso univitelino vocal, Renato Russo, e sua banda Legião Urbana.
"Era um medo que eu tinha", diz Adriani, sobre o fato de parecer oportunista ao gravar Renato Russo, mártir precoce do rock nacional. "Mas não se trata de uma tentativa de reviver Renato Russo e sim da ambição de um intérprete em gravar algumas das mais importantes canções de nossa época", afirma.
A semelhança vocal entre Renato Russo e Jerry Adriani já tinha impressionado (e até mesmo constrangido) o próprio Russo. "Eu soube que ele foi até discriminado por isso", lembra Adriani, cujo nome verdadeiro é Jair Alves de Souza. Russo surgiu nos anos 80, quase 20 anos depois do primeiro sucesso de Adriani. Encontraram-se pela primeira vez no programa "Marília Gabi Gabriela", na Bandeirantes.
"Hey, olha o homem aí!", disseram os rapazes da Legião Urbana para Renato Russo. Jerry Adriani estava no estúdio ao lado e Renato Russo ficou sem graça. "Ele me perguntou: você acha que minha voz é parecida com a sua?", conta Adriani. "Eu disse: lamento dizer, mas é parecida, embora não seja igual."
O desavisado que ouvir "Forza sempre" pode pensar que Renato Russo ressuscitou. Os membros remanescentes do Legião Urbana, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá fazem apenas participações especiais no disco. O cérebro do projeto é Carlos Trilha, que foi tecladista do Legião e grande amigo de Renato Russo. As versões para o italiano são de Gian Fabra, também ex-Legião.
"Claro que ele tinha o jeito dele, o timbre dele", salienta Adriani. "Eu sou tenor, ele era barítono, mas é realmente um registro muito parecido", confessa. Ele lembra que
na segunda vez que encontrou Renato Russo, num aeroporto, Renato gritou: "Jerry, eu sonhei com Elvis e ele me mandou imitar você."
A boutade de Renato Russo tem sua razão de ser. Ambos beberam na mesma fonte. "As costeletas que eu usava no início da carreira eram em homenagem ao Elvis da primeira fase, que eu adorava." Jerry Adriani até tentou ser uma espécie de sósia temporão do cantor de Memphis, quando gravou um disco só com canções do rei do rock.
As costeletas voltaram à moda e Jerry Adriani voltou a ser respeitável. "Forza sempre" é um bom disco. E o cantor nem precisou mergulhar nas velhas intrigas dos tempos da Jovem Guarda para garantir espaço na mídia. E as intrigas foram muitas
conta Adriani. Nos anos 60, começou uma que atravessou 30 anos. Foi num show no Ginásio Caio Martins, em Niterói, do qual participavam Adriani, Cauby, Elis Regina e Wanderley Cardoso. O empresário Cícero de Carvalho vaticinou: Jerry Adriani encerrará a noite.
No meio da noite, no entanto, veio uma contra-ordem. "Desculpe, Jerry, mas o Wanderley disse que ou ele canta por último ou então não canta", disse o empresário. Foi o maior rebu, para usar um termo da época. "Aquilo para mim era uma traição, um desrespeito", diz o cantor. "A partir daí, passou a ser um lance pessoal: onde ele ia eu não ia." O curioso é que os dois começaram juntos no Programa Júlio Rosenberg e eram muito amigos. "Tomávamos ônibus juntos no Anhangabaú: eu ia para São Caetano e ele ia para Pirituba", lembra Adriani, que já fez as pazes com Wanderley, o outro bad boy da Jovem Guarda. Os dois eram uma espécie de dupla Romário-Edmundo da época.
Depois, veio o caso da "groupie" de Belém do Pará. A moça foi ao juiz com umas cartas de Jerry Adriani prometendo-lhe casamento. "As cartas eram forjadas, mas até provar que focinho de porco não é tomada...", diz o cantor. "Eu realmente era namorador, mas nunca fui corruptor", avisa.
Jerry Adriani compara sua trajetória na música com uma estrada. "É cheia de viadutos e às vezes você está por baixo, às vezes por cima", afirma. A pior fase, lembra, foi nos idos de 1975. "Eu não sabia o que fazer", lembra. Nem ele nem os outros ídolos da Jovem Guarda - à exceção de Roberto Carlos, que soube manter a mística.
Neto de italianos, Adriani acostumou-se a ouvir o idioma desde a infância, embora não o domine. Teve de fazer um intensivão com Gian Fabra e Carlos Trilha (que o chama de dom Adriani) para não cometer deslizes nas gravações de "Forza sempre" em italiano. O resultado impressiona. Mas ele se sente confortado principalmente por ter conseguido agradar aos "legionários" remanescentes, Bonfá e Villa-Lobos. "Eles poderiam simplesmente dizer: bye, bye, velho, você está fora, não vai gravar nada."


