Jeferson e Tarciana, os protagonistas da cena
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segunda-feira, 17 de junho de 2002
Ana Carolina Soares<BR>Agência Estado 
São Paulo Mais de dois milhões de televisores, só na Grande São Paulo, estavam ligados na no último dia 10, por volta das 22 horas. Em frente de cada aparelho, adultos, crianças, idosos. Todos puderam assistir no Big Brother Brasil 2 da Rede Globo os participantes Tarciana e Jeferson fazendo sexo, protegidos apenas por uma manta. A cena causou indignação nos telespectadores, poder público e até na direção da emissora, que repreendeu os responsáveis pelo programa pela forma semi-explícita que a sequência foi levada ao ar.
Na última quinta-feira à noite, o secretário-geral do Ministério da Justiça, João Benedicto de Azevedo Marques, determinou a reclassificação do reality show da Globo. Antes livre, a atração passou a ser indicada para maiores de 16 anos e só pode ser levada ao ar depois das 22 horas. Mas os tradicionais flashes ao vivo em horários abaixo das 22 horas, especialmente no Faustão e no Fantástico, continuam permitidos.
Para a direção da Globo, a decisão do ministério não altera o andamento do programa. Nunca exibimos o Big Brother antes das 22 horas, diz Luis Erlanger, diretor da Central Globo de Comunicação.
Além de causar uma movimentação na emissora, a cena entre Tarciana e Jeferson reabre uma discussão antiga: como o sexo deve ser abordado na televisão brasileira? Não sou contra a censura, mas a sociedade precisa prestar mais atenção e repreender certas abordagens, diz Fermino Magnani, juiz de Direito da Vara da Infância e da Juventude. O problema nem é o sexo que, quando esteticamente bem colocado e contextualizado na dramaturgia, enriquece o produto. Ou o horário em que a cena é veiculada, pois o que é ruim às 12 horas continua ruim às 24 horas. O que vale nessa discussão é a forma, normalmente sem refinamento, bruto e gratuito, com que vários programas costumam tratar o sexo.
Erlanger concorda com o juiz e explica que, antes mesmo dos telespectadores começarem a se manifestar sobre a cena do Big Brother, a diretora geral da emissora, Marluce Dias da Silva, convocou a direção do programa, o núcleo de jornalismo e a Central Globo de Qualidade para uma reunião. Os participantes do reality show podem continuar fazendo sexo, mas agora pretendemos editar a cena de outra forma. Por exemplo, usando símbolos. Um champanhe estourando, uma flor desabrochando ou mesmo o diálogo entre Tarciana e Thaís (outra participante do BBB) indicariam que houve sexo, explica Erlanger.
O diretor da ONG TVer, Laurindo Leal Filho, acredita que a Central Globo de Qualidade é contraditória. A emissora acaba promovendo cenas não só de sexo, mas de escatologia, diz Leal, citando outros programas como Hipertensão (em que os participantes eram obrigados a passar por situações humilhantes, como comer baratas) e mesmo as novelas da Globo. Richard Goesleng, membro do conselho do Instituto de Defesa do Telespectador, aproveita para citar O Clone. Houve um capítulo em que o clone transava com uma moça na praia. Assisti ao episódio ao lado do meu filho de 7 anos, que me perguntou se era de verdade. Expliquei que era um set de filmagem, que era de mentirinha. E ele me perguntou se essas pessoas não tinham vergonha. Disse que isso era raro na televisão brasileira em geral, conta Goesleng. O discurso da equipe do Instituto se assemelha ao do governo e de outras associações que zelam pela qualidade da programação no Brasil. Não queremos censura, mas qualidade, diz Goesleng.
Para a forma com que o sexo vem sendo abordado na televisão além da baixa qualidade das grades , algumas soluções são apontadas. O Ministério da Justiça acena com a criação de ouvidorias nas emissoras. Os ouvidores (um executivo indicado pela própria direção da empresa) teriam direito a um espaço na grade, com a participação ao vivo dos telespectadores.
Muitas situações ocorrem porque o telespectador é muito passivo. Um diálogo entre as empresas e seu público é a melhor forma de repensar o conteúdo dos programas, acredita Azevedo Marques. Marques e sua equipe entraram em contato com todas as emissoras abertas do País e pretendem convocá-las para uma reunião. No dia 27, em Brasília, acontece o seminário A Crise da TV no Brasil promovido pela ONG TVer. Excessos acontecem porque a legislação brasileira é fraca, afirma Leal. A Consituição prevê que as empresas devem respeitar os valores éticos, o que nem sempre acontece. Além da ouvidoria, há um projeto para a criação de um conselho que fique atento às programações., rebate o secretário geral de justiça.


