''O que este povo está fazendo aqui? Não está satisfeito? Volta para o Brasil!'', dizia um típico cidadão inglês indignado com a confusão que se formava na tarde de uma quinta-feira, recentemente, na frente da estação de metrô de Stockwell, na zona sul de Londres. ''Seu preconceituoso. Não vê que ele era inocente? Podia ter sido qualquer um!'', responde uma senhora, também tipicamente londrina.
Enquanto a discussão se desenrola, os ''brazukas'' continuam o protesto. Em punho, cartazes clamando por uma justiça que, três anos depois de um crime que chocou a opinião pública, ainda não chegou.
O protesto que tumultuava e chamava a atenção dos que passavam defendia a condenação dos culpados pela morte de Jean Charles, brasileiro morto com sete tiros na cabeça em julho de 2005 ao sair da estação de Stockwell, quando foi confundido pela Scotland Yard com um suspeito terrorista.
O protesto, os cartazes e os revoltosos faziam parte do elenco do filme ''Leave to Remain'', que está sendo rodado em Londres e conta a história desse brasileiro. O protesto era fictício. Mas a indignação é real. O santuário em homenagem a Jean Charles também. Há uma melancolia de tristes trópicos no memorial ''favelinha'' (como os brasileiros ironicamente definem o altar) precariamente construído na saída da estação. Três anos depois, ninguém ousa tocar no santuário. Nem nos culpados por esse grande ''mal-entendido'' que foi a morte de Jean.
Dirigido pelo brasileiro Henrique Goldman e protagonizado por Selton Mello, o filme vai contar não só a história do crime que até hoje incomoda não só brasileiros e perturba profundamente os brios da polícia inglesa. Ainda sem nome definido, ''Leave to Remain'' (que poderia ser definido como ''permissão para ficar'' ou ''ir para ficar'') conta também a história de um imigrante comum, que tenta ganhar a vida e a civilidade em uma capital européia onde bairros exclusivamente ingleses são raridade.
Confundido com um suspeito terrorista, esse imigrante poderia ser grego, turco, indiano, paquistanês, colombiano, chinês até... Mas era brasileiro. Eletricista, mineiro, filho de família pobre que, como milhares, vê na imigração, ainda que seja para entrar em um país estrangeiro na condição de ''working class'', a chance de prosperidade não encontrada em seu próprio país.
''Foi uma experiência incrível e inédita para mim. Não só pelo tema, que me exigiu demais, mas pela experiência de filmar no exterior. Esta é a primeira vez que eu praticamente só trabalhei com uma equipe estrangeira. Tive de me adaptar à cidade, ao inglês, à história, a tudo'', contou Selton Mello.
''Há vários brasileiros na equipe, mas todos moram em Londres. E há muitos ingleses também. Essa interação entre países e culturas também foi ótima para o filme. A história também fala disso. Afinal, não vivo na tela só o último dia do Jean. Há muito da vida dele, de como ele se divertia aqui, quem era, onde ia, onde trabalhava. Foi um processo muito bom poder criar esse personagem. Jean era brasileiríssimo. Não era um galã, mas tinha charme, era astuto, inteligente. Como tantos brasileiros, era mestre no jeitinho e no bom humor. Estou muito feliz com essa nova experiência.''
''Como o filme tem verba do concurso de roteiros e incentivo de Paulínia, o enterro, as cenas na casa dos pais do Jean, entre outras, serão filmadas na cidade'', contou Goldman, enquanto se preparava para rodar uma das últimas cenas do filme.

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