O jazz já experimentou dias gloriosos de popularidade. Hoje, resiste à voracidade do mercado fonográfico ostentando cada vez mais um perfil cult.
Com a explosão mundial da música eletrônica, o catálogo histórico do gênero tornou-se uma das principais fontes de referência e pilhagem para DJs e produtores.
A riqueza de timbres e as variações rítmicas, virtudes das coletâneas ''Flying Jazz Grooves'' e ''Flying Funk'', reforçam a constatação. Muitos samples já foram pilhados daqui. Ouvintes com razoável trânsito pela música das pistas, poderão se divertir reconhecendo trechos contrabandeados desses dois CDs, que acabam de sair no Brasil pela BMG.
Os discos reúnem faixas de apelo dançante dos selos Bluebird, Flying Dutchman e RCA. O repertório foi extraído de gravações dos anos 60 e 70, fontes inesgotáveis de inspiração para as novas gerações. ''Flying Jazz Grooves'' abre com a The Gil Evans Orchestra executando ''Crosstown Traffic'', de Jimi Hendrix, num funk vigoroso cujos improvisos instrumentais remetem a trilhas de antigos seriados policiais de TV.
The Dierdre Wilson Tabac desponta em ''I Cant't Keep From Crying Sometimes'', de levada introdutória irresistível só com baixo e bateria. Também sobressai o trio vocal formado por Dave Lambert, Jon Hendricks e Yolande Bavan, que cantam o hit ''Yeh-Yeh'' acompanhados por nomes do porte de Coleman Hawkins no sax-tenor e Clark Terry no trompete. É música para ouvir estalando os dedos e batendo o pezinho.
O mito Gil Scott-Heron aparece cuspindo palavras revoltadas no clássico ''The Revolution Will Not Be Televised'', pinçado do álbum ''Pieces of Man'', o segundo de sua turbulenta trajetória. Seu canto barítono ganha em densidade ladeado por Hubert Laws (flauta), Ron Carter (baixo), Burt Jones (guitarra), Brian Jackson (bateria) e Bernard ''Pretty'' Purdie (bateria).
Outro destaque, o saxofonista argentino Gato Barbieri apresenta a peça ''El Pampero'', de crescendo explosivo e groove matador. A faixa foi gravada no Festival de Montreaux, na Suiça, com participação do brasileiro Naná Vasconcelos na percussão. Além dos citados, a coletânea traz registros de Harold Alexander, Esther Marrow, Wild Bill Davis, David Axelrod, Spontaneous Combustion, Leon Thomas, Oliver Nelson e uma colaboração deste último com a The Count Basie Orchestra.
Menos diversificada e mais modesta em virtuosismos instrumentais, a compilação ''Funk Flying'' privilegia a black music resgatando standards do funk, soul e rhythm and blues. Três artistas escalados no outro disco marcam presença aqui Esther Marron, Gil Scott-Heron e Harold Alexander. A primeira protagoniza um dos ponto altos do repertório na balada soul ''Mamma'', pontuada por bonito arranjo para cordas.
Melhor, só Nina Simone, morta recentemente e que é capaz de colocar até nerd de óculos fundo-de-garrafa para dançar ao compasso de ''Save Me'', a faixa que abre o CD. Nina comparece ainda com ''Funker Than a Mosquito's Tweeter''. A cantora é a única, ao lado de Lonnie Liston Smith & The Comic Echoes, a ganhar duas faixas na coletânea. O elenco de garimpados inclui ainda The Jimmy Castor Bunch, Nite-Liters, Weldon Irvine, The Loading Zone, The New Birth, Richard 'Groove' Holmes and Brenda Jones, The Main Ingredient, Bernard Purdie e Johnny Griffith.

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