Jazz cheio de brasilidade
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segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Pobre e sem grandes atributos físicos, a norte-americana Ella Fitzgerald (1918-1996) não acreditava nas qualidades incomparáveis da sua voz única, um prodígio de afinação com condições de alcançar três oitavas. Ainda adolescente, seu talento se tornou reconhecido em um concurso para cantores e rapidamente a filha de uma lavadeira passou a ser a ''Rainha do Jazz'' e a ''First Lady of Song'' (primeira dama da canção). Com o domínio absoluto do scat - técnica de improvisar cantando apenas os sons e não palavras -, influenciou o estilo bebop e, apesar da infância difícil, impreganava suas interpretações de uma alegria contagiante.
Também grande divulgadora dos compositores da Bossa Nova, Ella agora ganha disco-tributo capitaneado por Jane Duboc (voz) e Victor Biglione (guitarra e arranjos), argentino radicado no Brasil. ''Tributo a Ella Fitzgerald'' (Rob Digital) faz uma releitura primorosa de 16 canções eternizadas por Lady Ella. ''Ouço Ella desde a barriga da minha mãe e todas as suas canções são maravilhosas. Escolher o repertório não foi uma tarefa fácil, mas decidimos seguir o critério das músicas que ela mais regravou, acreditando que talvez fossem também as que mais gostava de cantar'', comenta Jane Duboc, que conta que sua canção preferida é ''Angel Eyes'', inclusa no disco.
Apresentando uma simbiose entre a música brasileira e o jazz americano, a proposta do disco é evidenciar a riqueza rítmica do Brasil. Há desde acordes de Villa-Lobos, passando por elementos do samba e do baião, chegando a uma complexidade harmônica carregada de emoção. No repertório, destaque para ''Night and Day'' (Cole Porter), ''April in Paris'' (Vernon Duke, E.Y. Harburg) e ''Someone to Watch Over Me'' (George Gershwin, Ira Gershwin). Além destas, destaca-se a música ''Bonita'' de parceria entre Ray Gilbert e Tom Jobim, compositor interpretado inúmeras vezes pela artista. Vale ressaltar os comentários de Jane e Victor no encarte do disco que de forma não didática trazem dados históricos e impressões pessoais sobre as músicas.
''Ficamos muito felizes com o resultado final pois conseguimos impregnar o disco de jazz com uma grande brasilidade'', afirma a cantora que recentemente fez o lançamento do CD no Posto 8, no Rio de Janeiro, em show elogiado pela crítica especializada. A primeira vez que Jane e Victor trabalharam juntos foi há 30 anos no disco homônimo de Oswaldo Montenegro. Depois disso, eles se reencontraram apenas em 2005, no festival de jazz ''Frutas Tropicales'', na Finlândia, onde, junto com Wagner Tiso, interpretaram grandes sucessos da MPB. Victor é o músico estrangeiro com o maior número de participações em shows e discos da história da música brasileira.
Com 36 anos de carreira e 25 álbuns, alguns deles lançados no exterior, Jane agora também está comemorando o lançamento de disco e DVD de estreia do seu filho Jay Bequer, de 36 anos. Representante do estilo pop rock, ''Formidável Mundo Cão'' privilegia as composições próprias e arranjos de Jay. ''Ele está seguindo uma vertente musical bem diferente da minha e temos uma boa relação; contribuo na direção vocal'', acrescenta a cantora.


