Jazz à brasileira
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quinta-feira, 22 de junho de 2000
Ranulfo Pedreiro De Londrina 
A melhor gravação de uma música, para John Coltrane, ocorria na primeira tomada, ou first take. O saxofonista cultuava as gravações ao vivo todos tocando ao mesmo tempo em estúdio. Mesmo com a possibilidade de erro, Coltrane prezava o clima que a interpretação ganhava. O mesmo sentimento orientou o saxofonista Cléber Alves em Brazilian Jazz Temperado, disco lançado em 1998 na Alemanha e que está ganhando edição brasileira pela Karmin.
Cléber Alves morou dez anos no país europeu, onde estudou na Universidade de Música de Stuttgart. Influenciado por Egberto Gismonti, Alves aproximou ritmos brasileiros do jazz e atraiu o gosto dos alemães ao se dedicar ao frevo, ao maracatu e ao choro na Alemanha os mais difundidos são o samba e a bossa nova.
Como precisava apresentar um concerto de formatura, o saxofonista mesclou os gêneros em composições próprias e selecionou o repertório que originou o disco. A maioria das faixas foi composta por Cléber Alves. O baixista Franco Petrocca e a violonista Zélia Fonseca assinam, cada um, uma música. Há ainda Frevo (Egberto Gismonti) e Choro Negro (Paulinho da Viola).
No estúdio, Cléber seguiu a linha de Coltrane e gravou todo o disco em quatro dias, executando três versões de cada faixa para escolher a melhor. A MPB é muito melódica e a aceitação é muito grande na Alemanha. Lá está muito bem dividido, há um intercâmbio, a música instrumental é muito valorizada, explica, em entrevista por telefone. De volta ao Brasil, o músico sentiu a diferença, mesmo chegando em um momento de efervescência instrumental em Minas com o apoio do selo Karmin.
Esse tipo de gravação exige uma concentração muito grande, os CDs gravados de forma diferente ficam mais frios. Ao vivo fica aquela chama, a gravação tem mais charme, fica mais bonita, ressalta, lembrando que o procedimento é comum no meio jazzístico alemão.
Brazilian Jazz Temperado traz o entrosamento de quem não se apressou para registrar sua obra, e evita o erro dos debutantes ao buscar o comedimento nos improvisos não há excessos, e os instrumentistas evitam acumular tudo o que sabem nas dez faixas registradas.
O CD também apresenta um bom saxofonista, que trabalha a dinâmica das músicas buscando variações rítmicas e mudanças de intensidade no sopro às vezes sutil como no sax soprano de Frevo e outras vezes mais incisivo, como no sax tenor de À Meia-Noite (Zélia Fonseca), em dueto com a voz de Rosanna Tavares.
Enfim, Brazilian Jazz Temperado não é um disco revolucionário, mas cumpre com segurança a proposta de misturar jazz e gêneros estritamente nacionais em músicas e interpretações competentes. Os contatos com a Karmin podem ser feitos pelo telefone (31) 223-7925.


