Jardelina da Silva
Rubens Pileggi Sá
Especial para Folha2
Certo dia, um pescador de Londrina, de passagem por Bela Vista do Paraíso, ligou para seu antigo conhecido na cidade querendo saber quem era aquela mulher que ele vira fantasiada, gritando na rua. O pescador ficara impressionado com suas roupas e curioso para saber o que ela dizia em seus discursos no meio da avenida principal.
Não era para menos!
Aquela era a ex-costureira Jardelina da Silva, uma senhora de 70 anos de idade, feitos em agosto, viúva, mãe, avó, que vive da aposentadoria que o marido lhe deixou, do serviço rural. Na cidade, é mais conhecida como Jarda.
Sergipana de Ribeirópolis, município de Cachoeira, ela diz que é da raça nazaré por parte de pai e pela parte de mãe, rabo de nego capunga, mourão-de-ferro. Aqueles que nasceram antes de Jesus Cristo. Carne de barro. E tenho sangue de índio também. Sou racista: tenho o mundo inteiro dentro de mim.
Ou seja, uma autêntica brasileira, nordestina, migrante, que só aceitou mudar-se para o Estado de São Paulo e depois para o Paraná colher algodão e café com o marido depois que ele a deixou usar batom e pó-de-arroz. Aí peguei amor a ele. Chegasse o homem mais rico do mundo eu não queria conta ela, que se casou com 27 anos e ele com 18. Tiveram nove filhos. Apenas três estão vivos.
Os trajes, ela mesma cria e costura. Gosto de roupa afogueada e alvoroçada. Quando ganha alguma roupa de butique ela recorta e transforma à sua moda: Detesto roupa de velha, sentencia. Eu aprendi a costurar com as bonecas. Eu ia na igreja e chegavam as Cruzadas (as Filhas de Maria). Umas com fitas azuis e outras com fitas vermelhas. Era a coisa mais linda. Eu via aquelas roupas, chegava em casa e fazia direitinho pras bonecas. Aí, depois, eu já estava costurando roupa de noiva.
Jardelina vai contando a história de sua vida enquanto ajeita a casa, recebe os netos vindos da escola, serve o pão e o café que ela mesmo fez, paga as contas, cuida dos afazeres como qualquer pessoa normal. Na cidade tem fama de boa pagadora, mas cria um mundo paralelo completamente fora da nossa lógica, para quem vê essa louca berrando palavras incompreensíveis, numa linguagem que lhe é própria, em meio a palavrões com que ela responde quando alguém lhe xinga, ou dirigidos aos seus desafetos: Eu falo cada escandelo no meio da rua...
Divertindo, irritando e às vezes infernizando a cidade com suas apresentações inspiradas por seres imaginários: Eu não sei se é rei Messias, se é governo, eu não sei quem é. Tudo o que falo é o Planeta! Obstinada, afirma: Se eu perder um ponto eu caio na morte e perco tudo. É por isso que eu faço.
Na tranquilidade de sua modesta casa entretanto, ela vai revelando outras letras. Mamãe lia o livro da Terra e eu prestava atenção. Ela falava que só uma cigana vai ganhar na prova do fim do mundo. Ela falava assim: Essa cigana, ela usa batom, ela usa tudo quanto é pintura. Ela nunca larga a moda dela, nem acompanha a moda de ninguém. A moda dela é só ela que faz. Eu nem sabia que era eu.
A vertigem criativa de Jardelina começou, segundo ela, quando o bando do cangaceiro Lampião matou seu primo Ascendino. Ela devia ter uns 5 ou 6 anos. Nessa época, diz, já via aparições fantásticas. Quando outro primo foi assassinado numa briga de jogo, o espírito baixou em mim. A família levou-a a uma benzedeira que disse que amarraria os espíritos durante algum tempo, mas depois voltariam.
Isso durou até que ela teve o segundo filho, tirado morto de seu ventre. A profecia da benzedeira passou a se cumprir.
No hospital, Jardelina foi dada como morta pelo médico. Ouviu quando mandaram avisar o marido para encomendar seu enterro. Nesse momento, ela conta, apareceram Jesus Cristo e a Virgem Maria vestidos em túnicas roxas, na cabeceira de sua cama, reanimando-a. Não manda comprar o caixão, não, que ela está viva, foi o que escutou na sequência.
Acordou três dias depois com macacos e cobras caindo do teto, serpentes voadoras tentando agarrá-la. O médico e o marido pediam para que ela se levantasse da cama, mas o chão era mar. Perdeu sangue, perdeu o filho, perdeu o juízo. E os espíritos se desamarraram.
Guiada por vozes que se identificam como Exu, Caboclo, Zé Pelinto, Pajé, Virgulino Ferreira, Janos Quadro, Demar de Barro, Dom Pedro I, Princesa Isabel, Pedro Alves Cabral, ela diz que é mão de morto e cada detalhe que coloca em suas criações tem significado. Em um chapéu de pano com cartas costuradas de um lado e rótulos de caixa de fósforo de outro, ela afirma que é Deus e Lampião jogando na minha cabeça. Quem ganhar vai poder usar o fogo.
Só que nem todos na cidade encaram suas ações com uma dose de bom humor.
Certa noite, há cerca de dez anos, Jardelina teria recebido uma ordem de seu guia para se vestir de noiva e ir à delegacia. Colocou a roupa, pintou o bigode característico quando o Exu é macho e foi. Já cheguei azeda dizendo Sou Lampião Ferreira. Quero ir preso. Eu matei o primo da Jardelina. Tem que falar a verdade. Não foi eles que veio me forçar. Fui eu que fui.
Então o polícia disse: se quer ir presa, entra aí. Tinha uma perua velha toda quebrada no quintal da cadeia e eu nem liguei. Pensei que tava sozinha. Aí que eu tou na cabeceira, eu ouvi: rã, rã (tosse). Era voz de homem. Aí perfumaram o tarado, tacaram Avanço (desodorante) nele. Eu gostava de Avanço até aquela hora, depois peguei nojo. Pedi que ele não me tocasse que eu era virgem do meu marido, que no dia da precisão eu livrava ele. Aí ele falou que eu era biscate e fez o que quis comigo.
O processo por estupro está registrado no Fórum da cidade, nº 85/89, artigo 213. O réu é o doente mental João Borges, internado no manicômio judicial com medida de segurança imposta em 29 de dezembro de 1992. Depois daquela imundície eu revoltei.
Não foi só com a polícia que ela teve problemas, também foi expulsa da igreja católica, onde gostava de ir aos domingos. Estava com uma roupa toda enfeitada e veio dois polícia dizendo que eu não podia entrar mais lá.
Além disso, teve sua casa incendiada por conta de uma desavença do filho com um inimigo, mas com a ajuda da prefeitura e do mutirão da vizinhança construíram outra no mesmo lugar.
Assim é Jardelina, que não aceita convite para se tornar crente porque acha a roupa deles muito feia: Eu, andar com aquelas roupas lá? Deus me livre! Internada várias vezes em manicômios, clínicas de recuperação de doente mentais de Londrina e região, tratada com sossega-leão (injeções para acalmar os pacientes), ou por ervas e rezas miraculosas feitas por benzedeiras e curandeiros, ela agora só toma remédio para a pressão e para tratar da rouquidão da garganta, causada pelos discursos nas ruas.
É uma coisa enviada. Cria uma roupa de noiva e vai ao cemitério, de véu e grinalda, casar com o marido morto. Sorteia um túmulo qualquer e despacha para Nosso Senhor, amarrando fitas coloridas na estátua de bronze de Jesus. Coloca um pacote de carne sobre o carro da funerária para passar na prova, porque Jesus disse que no fim do mundo não ia poder comer carne de gado. Despacha no centro da cidade sacos de arroz e farinha formando desenhos e linhas, que ela diz ser para seu pai, que era farinheiro. Entra no Banco do Brasil com um pacote de sal grosso e deposita lá seu salário sobre uma mesa escolhida. Deita na rua, tira suas medidas com um carvão grosso que carrega na bolsa e depois desenha duas figuras menores ao lado, dizendo que são seus filhos gêmeos, já mortos. Cola pinhões em placas do governo, perto de sua casa, em homenagem a um suposto pretendente da adolescência: Pinhão é homem solteiro. Assina com batom o formato de sua mão no carro da prefeitura. Borda letras enviadas pelo pai, escritas pela nora (Jardelina não sabe ler nem escrever), em panos que ela transforma em estandartes. Pinta em facas e foices com esmalte. Enfim, alguém com muito fôlego. Repare pra ver o que eu apronto!
Não é à toa que Jardelina já apareceu na revista de arte e cultura Medusa, de Curitiba, e este mês é assunto de reportagem da revista Marie Claire.
Se o pescador curioso pensa que já sabe muito sobre essa personagem que apronta numa pequena cidade, pode ir se preparando que tem mais. Desde 1986, Jardelina registra religiosamente suas criações no Foto Pan. A coleção já conta com a assombrosa soma de mais de 140 fotografias de suas obras. Um acervo a ser preservado e catalogado. Eu fui lá nas artes, não sabe? Eu sou vidente. Eu fui nas artes invisível. Tá tudo escrito lá. Essas letras, tudo. E eu no retrato assino o mundo.





