Jarbas, o desastrado
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quarta-feira, 18 de junho de 1997
Carlos da Silva 
Jarbas era do tipo desastrado. Com ele as coisas pareciam correr tudo bem, mas na hora de pôr as cartas na mesa era trágico. Consumiu seis exatos meses contemplando Angélica, jovem, exuberante e recente viúva que passara a morar num apartamento próximo do seu. Vivia bolando coincidências que pudessem proporcionar-lhe oportunidade de vê-la. Como uma festinha de aniversário do filho dela, um garotinho que fazia questão de deixar claro que não nutria a menor admiração por ele. Mas Jarbas insistia e sempre dava com os burros na água.
A festinha rolava animada e concorrida. Ele descobrira que ela apreciava suco de maracujá, providenciou meio litro do suco num saco plástico. Desses que alguém acreditava infuráveis pelas pontas penetrantes do canudinho. Parecia um paspalho: de bermuda, camiseta, chinelo de plástico e crente que estava despertando a simpatia de Angélica, que o olhava fixamente, percebendo no rosto dele um sorriso falso e pretensioso. Antes que ele ousasse dirigir-lhe a palavra, ela o surpreendeu: O senhor está urinando o líquido amarelado desse saquinho plástico. Na outra mão a metade de uma melancia. Alguém fizera de propósito os dois buracos utilizando os benditos canudinhos. Bastaria comprimi-los. Ela não quis ouvir explicação. Puxou o garotinho pelo braço e foi embora.
Dia seguinte. Como sempre, a mulher dos seus sonhos, Angélica, ingressou no saguão do edifício às 18h30. Não esboçava nenhum sorriso. Ao contrário, o semblante parecia transmitir uma mensagem: Não perturbar. Sobrevivente será severamente punido. Jarbas entendeu. De novo usando aquela bermuda rota e amassada. Sem cinto. Nosso herói conduzia nas mãos o marmitex e garrafas de refrigerante. No rosto o ar de preocupação. E tinha fortes motivos para isso. A mulher que ele pretendia conquistar olhou-o estarrecida e, como advertência, exclamou: Sua bermuda caiu. Faça qualquer coisa, menos exibir essa intimidade. De preferência, desapareça da minha frente. E lá se foi mais uma chance de conquistar a mulher dos seus sonhos. Apareceu Alfredo, seu amigo há vários anos, que ponderou: Conquistar uma mulher não é seu forte, Jarbas. Mas você tem carisma, que poderá ser aproveitado na política. Por que não? Filie-se a um partido e deixe o resto comigo. Você vai começar como vereador. O passo seguinte será candidatar-se a prefeito. Os degraus acima contemplam cargos eletivos mais elevados. Com direito a entender os meandros dos precatórios.


