JAPÃO OU MORTE
PUBLICAÇÃO
domingo, 17 de dezembro de 2000
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha 2 
Novo livro de Fernando Morais, Corações Sujos, resgata o dramático episódio da imigração japonesa no Brasil, quando um grupo terrorista executava imigrantes que aceitavam a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial
Quando a Segunda Guerra Mundial terminou em 1945, com a rendição da Alemanha e a devastação do Japão por duas bombas atômicas, uma outra guerra teve início no Brasil. Uma batalha que começou discretamente e, em treze meses de duração, deixou oficialmente 23 pessoas mortas e outras 147 feridas.
Entre os brasileiros, essa batalha trata-se de um episódio histórico praticamente esquecido, ou desconhecido das novas gerações. Entre os imigrantes japoneses no Brasil, uma difícil página da memória que foi intencionalmente silenciada.
Em seu novo livro lançado pela Editora Companhia das Letras, Corações Sujos, o jornalista Fernando Morais resgata esse episódio ocorrido há 55 anos atrás que resultou na prisão de mais de 31 mil imigrantes japoneses. Grande parte habitantes do interior do Estado de São Paulo, eram acusados de pertenceram a uma organização terrorista chamada Shindo Renmei (Liga do Caminho dos Súditos). Desse total, 381 cumpriram pena em penitenciárias, outros 80 foram considerados elementos nocivos aos interesses nacionais e expulsos do país.
Tudo começou em agosto de 1945. Rendendo-se às tropas norte-americanas após a devastação de Hiroshima e Nagasaki, o Japão foi obrigado a cumprir uma série de exigências do governo americano para a assinatura do termo do fim da guerra. Entre esses termos, estava o pronunciamento oficial do imperador Hiroíto de que, além da admissão da derrota, sua figura não era representante de Deus na Terra.
O próprio Hiroíto foi obrigado, em cadeia de nacional de rádio, a fazer tal pronunciamento. Fato que resultou numa verdadeira úlcera no tecido moral do povo japonês. No Brasil, quando os imigrantes japoneses tomaram conhecimento da derrota e do pronunciamento do imperador, um celeuma foi instituído: Devotos das mais rígidas tradições militaristas japonesas, seguidores cegos do imperador, sustentavam a teoria da vitória do Japão com argumentos que consideravam indiscutíveis: em 2600 anos o Japão jamais perdera uma guerra; na remotíssima hipótese de que a pátria tivesse sido derrotada, o mundo teria testemunhado a morte honrosa de 100 milhões de japoneses, que se suicidariam coletivamente, acompanhando o mesmo gesto do imperador - o que efetivamente não ocorrera.
Os 200 mil integrantes das colônias nipônicas instalados principalmente no interior de São Paulo e na capital paulista, ficaram divididos em dois grupos. De um lado os makegumi (derrotistas), aqueles que acreditavam que o Japão havia perdido a guerra e a vida devia ser tocada para frente. De outro lado, os kachigumi (vitoristas), aqueles que acreditavam na vitória do Japão e que todas as notícias veiculadas pela imprensa eram mentirosas, uma série de inverdades que visavam destruir as tradições.
Com o objetivo de perseguir aqueles que acreditavam que o Japão havia realmente perdido a guerra, os vitoristas fundaram clandestinamente uma entidade secreta com objetivo de punir os derrotistas (também chamados de corações sujos), acusados de traírem a pátria por acreditarem na suposta verdade. Recebendo o nome de Shindo Renmei, a entidade se transformou rapidamente numa seita ideológica de fanatismo e violência.
A função da Shindo Renemi era divulgar informações de que Japão não havia perdido a guerra, como todos anunciavam. Nessa tarefa, chegavam a adulterar e falsificar informações de jornais e revistas. Num dos casos mais exemplares, divulgaram a notícia que navios, enviado pelo próprio imperador Hiroíto, aportariam em Santos e no Rio de Janeiro para levarem de volta os imigrantes ao Japão vitorioso. Tudo não passava de farsa, que, mesmo assim, contagiava milhares de pessoas.
Mas a grande atuação da Shindo Renmei foi perseguir e assassinar os japoneses que acreditavam na verdade, que o Japão havia perdido a guerra. Cumprindo verdadeiros rituais, a organização escolhia os traidores e planejava sua execução. Os matadores comunicavam anteriormente suas vítimas. Dois caminhos eram indicados: suicídio ou assassinato. Com a bandeira do Japão amarrada no peito, os executores percorriam o interior de São Paulo espalhando medo e pânico. Entre as principais cidade de atuação da organização estavam Tupã, Bastos, Cafelândia, Bauru, Oswaldo Cruz, Araçatuba, Presidente Prudente, Marília, Pompéia, Birigui, Mirandópolis, Santos e São Paulo.
Após várias execuções, a polícia brasileira começou a investigar o caso. Depois de muita dificuldade com a língua (a maioria dos acusados falava apenas japonês), descobriu um modo eficiente de saber quem fazia parte e quem não fazia parte da Shindo Renmei. A tortura era simples. Nos interrogatórios era colocada uma foto de Hiroíto no chão. O detido que não pisasse na fotografia, confirmava sua simpatia pela organização. Outro teste consistia em mandar os suspeitos limparem os sapatos com a bandeira do Japão. Aquele que não executasse tal ato assinava sua confissão.
Para se ter uma idéia da proporção das coisas, Fernando Morais cita um caso que teria repercussões na Constituição Brasileira em elaboração na época. Depois de assistir ao assassinato de vários japoneses considerados brasileiros, a população da cidade de Tupã realizou uma verdadeira catarse coletiva e violenta. A gota dágua foi o assassinato equivocado de um motorista de caminhão, mulato querido por toda a cidade, por um suposto membro da Shindo Renmei.
Enlouquecida, a população saiu pelas ruas espancando todos os japoneses da cidade. Casas eram invadidas e os homens eram espancados a pauladas, amarrados e arrastados pelas ruas, humilhados a toda espécie de violência. Não havia distinção de idades ou sexos, ter olhos puxados era a prova criminal. O episódio tomou tamanha proporção, que os ânimos foram acalmados apenas com a intervenção o exército.
Os militares tiveram que criar uma espécie de campo de concentração de japoneses num galpão desativado. Durante quase dois dias, cerca de 800 imigrantes nipônicos ficaram isoladas para acalmar a situação e evitar mortes. A pólvora se espalhou para cidades vizinhas, cada qual, a seu modo, realizou catarse semelhante.
A repercussão política da atuação da Shindo Renmei e da reação da população foi tão grande que, a Assembléia Legislativa Federal que preparava a nova Constituição Brasileira, ficou claramente dividida na aprovação de uma emenda: a proibição da entrada de imigrantes japoneses no Brasil. Além disso, Ademar de Barros teria conseguido sua eleição para o governo de São Paulo graças ao apoio dado aos terroristas nipônicos. Para isso teria libertado alguns dirigentes da entidade em troca dos votos da colônia.
Fernando Morais, autor de outros livros sérios como Olga (Editora Alfa-Ômega, 1985 - Editora Companhia das Letras, 1993) e Chatô, o Rei do Brasil (Editora Companhia das Letras, 1994), realiza uma reportagem empolgante em Corações Sujos. Bem escrita, bem documentada e bem editada, a obra oferece um panorama geral dos acontecimentos. Ao mesmo tempo não realiza uma análise história ou sociológica da existência da Shindo Renmei. Prefere apresentar os fatos de maneira detalhada e baseado numa ampla pesquisa, oral, escrita e fotográfica.
Em várias partes do livro, Fernando Morais menciona que no Norte do Paraná também existiam ramos da Shindo Renmei, mas não chega a estender o assunto. Entre os possíveis focos citados estaria a cidade de Assaí, sem maiores detalhes. E aí surge a dúvida: sendo o Norte do Paraná a maior concentração de imigrantes japoneses depois do interior do Estado de São Paulo, teria ocorrido algum tipo de conflito na região? Uma resposta que fica no ar.
Nas últimas páginas de Corações Sujos, num ato ousado e ao mesmo tempo documental, Fernando Morais oferece os nomes, entre os 1.423 acusados, dos 381 imigrantes processados pelo Ministério Público. Também cita os 80 homens acusados pelos crimes da Shindo Renmei que deveriam ser extraditados do Brasil. Presos desde 1946, eles tiveram a expulsão protelada até 1956, quando o presidente Juscelino Kubitschek assinou decreto abolindo as penas.
Corações Sujos de Fernando Morais, Editora Companhia das Letras, 352 páginas, R$ 51,50.


