JAPÃO E ESPANHA RETOMAM O ESPÍRITO DE CANNES
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 10 de maio de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Cannes Especial para a Folha 2 
Passado o vendaval Moulin Rouge, a superprodução Fox que abriu a mostra competitiva e selou o tratado de paz nas até então estremecidas relações entre o Festival de Cannes e as grandes companhias americanas, o panorama retoma a normalidade e as coisas por aqui voltam a fazer sentido. O que significa reencontrar a idéia clássica de um festival cinematográfico importante como este - filmes intrigantes, reveladores, distanciados dos padrões vigentes de cotidiana e rasteira mesmice. Nesta linha, as estimulantes entradas minimalistas de Espanha e Japão são no mínimo o sinal verde de que o festival de fato começou.
Primeiro longa-metragem em versão catalã escalado para concorrer à Palma de Ouro, o espanhol Pau i El Seu Germà (Paulo e Seu Irmão) é o terceiro filme do jovem (30 anos) barcelonês Marc Recha, já com extenso currículo de participações e premiações em mais de 40 festivais internacionais. Vindo assim meio como não se sabe bem de onde, este filme pequeno, íntimo, produzido por uma desconhecida companhia independente de Barcelona, é afinal a crônica em torno de uma ausência. Depois da morte aparentemente acidental do irmão Álex interpretado nos flash-backs pelo próprio diretor , Pau viaja com a mãe retomando os locais por onde o irmão andou. Chegam a um distante povoado perdido nos Pirineus. Alí, Pau descobre não apenas que Álex se suicidou. Conhecendo outras pessoas ligadas a Álex, e se misturando à áspera, ríspida geografia do local, Pau, a mãe, a ex-namorada, o ex-patrão e alguns amigos do morto acabam repartindo novas descobertas e experiências sobre eles mesmos e a respeito de um mundo marcado pela impessoalidade e pela ausência de comunicação entre as pessoas.
Usando câmera na mão quase sempre, luz natural e interiores também naturais, além de quase nenhuma música, Marc Recha andou muito próximo dos métodos do Dogma, os mandamentos cinematográficos dos monges-cineastas dinamarqueses que pregam uma volta dos filmes à castidade formal e temática. Independente, porém, de sectarismos ou enxugamentos, Paul i El Seu Germà tem uma maneira muito particular e original de conversar com o espectador sobre uma múltipla trajetória existencial-exorcizante, não esquecendo ainda de acrescentar um sutil recado ambientalista por conta da desfiguração dos Pirineus espanhóis.
Um dos últimos títulos a entrar na mostra competitiva, já em abril, Distance justifica a admissão tardia. Dirigido por Hirokazu Kore-Eda, outro jovem realizador com passaporte carimbado no circuito festivaleiro comandado por Cannes, Veneza e Berlim, e primeiro dos três fortes concorrentes japoneses capitaneando a invasão asiática deste ano, o filme é um doloroso mergulho na reação de pessoas envolvidas num evento traumático. Um filme de rotulação quase impossível, como os dois longas de ficção anteriores de Kore-Eda (Maboroshi foi o único lançado comercialmente no Brasil), cineasta-chave para uma abordagem da neo-nouvelle vague japonesa - Aoyama Shingi, outro nome de peso no movimento, também está aqui e concorre à Palma.
A história foi inspirada na tragédia causada por adeptos do culto milenar religioso Aum Shinrikyo (Arco da Verdade), que em 1995 mataram a sangue frio centenas de pessoas no metrô de Tóquio utilizando gás sarin. No roteiro de Kore-Eda as circunstâncias são outras, o tempo passou e o que interessa são as lembranças. Quatro parentes de pessoas ligadas à seita e responsáveis pelas mortes se reúnem para celebrar os três anos da morte de marido, irmãos, pais. A peregrinação termina numa das fontes naturais onde a água foi contaminada. O surgimento de uma quinta pessoa e o roubo do veículo utilizado no transporte até o local vão proporcionar uma noite inteira de de isolamento, um processo terapêutico em que os labirintos da memória de cada um vão ser mapeados em busca de algumas respostas. O filme trabalha com vários níveis de identificação e auto-conhecimento, tentando reunir os fragmentos de memória - uma recorrência no cinema de Kore-Eda - e restabelecer coisas reais, concretas e reconfortantes. Ao final, todos encontram alguma coisa inesperada.
Sob o ponto de vista formal, Distance reivindica com justiça o rigor e o despojamento de três mestres: o maior de todos, Yasujiro Ozu, Alain Resnais (não por coincidência outro especialista no caleidoscópio da memória) e Krzystof Kieslowiski.


