Neste domingo, 19, Janis Joplin faria 60 anos. Mas, considerando uma antiga lenda popular, de que pessoas muito especiais quando morrem viram estrelas, o destino de Janis havia traçado um caminho bem mais curto para que ela pudesse brilhar no céu. Morreu, aos 27 anos, em 1970, por overdose de heroína. Cumprindo um desejo da cantora, a família cremou seu corpo e as cinzas foram jogadas numa praia deserta do norte da Califórnia (EUA). Uma cena que compõe um retrato perfeito do que foi, de fato, a vida de Janis Joplin longe dos palcos. Apesar de arrastar multidões para seus shows, a cantora sempre reclamou da solidão. ''No palco, eu faço amor com 25 mil pessoas, depois vou sozinha para casa'', disse, certa vez.
A marca principal de Janis Joplin era a rebeldia. Característica que, muito provavelmente, a impulsionou a vôos mais altos, longe de sua terra natal: a pequena Port Arthur, cidadezinha, à época com 70 mil habitantes, no Texas (EUA). Parecia mesmo não ser o lugar ideal para alguém do naipe de Janis. O curioso é que, quando criança, sonâmbula, era comum encontrá-la perambulando pela noite, procurando sua casa. ''Estou indo pra casa, estou indo pra casa'', dizia nestas ocasiões. Porém, se o sonambulismo foi curado, a sensação de constante busca, de inquietude, parece mesmo ter acompanhado Janis por toda a vida.
Primeira filha do casal Seth Joplin e Dorothy East, teve exclusiva atenção dos pais até os 6 anos, quando nasceu Laura e, quatro anos depois, o irmão Michael. O culto de domingo era hábito na família Joplin. Tanto que, ainda menina, Janis já cantava, e com sucesso, no coral da igreja. Aprendeu piano e, como adorava desenhar, fez aulas particulares de artes. Atividades intelectuais eram estimuladas intensamente no lar dos Joplin. Para a cantora, seu pai - que resistia em comprar uma TV - era um ''secreto intelectual, um leitor, um conversador, um pensador''. Mas passava horas trancado na garagem de casa bebendo, isolado da família. Este era o único lugar da casa no qual Dorothy permitia a entrada de bebida. A mãe exercia papel de ''monitora'', como lembra Laura, da vida dos filhos. Era bastante rigorosa e estimulava-os a sempre melhorar em suas atividades. Contudo, se os pais foram dedicados ao estimular o desenvolvimento intelectual dos filhos, deixaram faltar o essencial: afeto, carinho.
É possível que Janis tenha herdado uma dose de melancolia e a incessante solidão do pai. Mas, como ela mesmo lembra em várias entrevistas, tudo mudou, e muito, quando completou 14 anos. A mudança do corpo com a chegada da adolescência era algo que ela nunca conseguiu superar em toda a vida. Engordou e o rosto ''bonitinho'' deu lugar a uma pele completamente destruída pelas marcas de espinhas. Outro trauma, nesta idade, foi a falta de seios. Ela se comparava com suas amigas de classe, todas mais velhas e desenvolvidas, e entrava em depressão.
O primeiro disco comprado por Janis foi um de Leadbelly. Mas quem despertou sua atenção mesmo foi Odetta, a primeira cantora que tentou imitar. Nos anos 60, Odetta era a rainha afro-americana da música folk; fez sucesso juntamente com Richie Havens, Len Chandler e Jackie Washington. Foi com Odetta, diziam os amigos, que Janis descobriu que sabia cantar.
Quando terminou o colegial, Janis deixou a casa dos pais e entrou para a Lamar Tech, no curso de artes. Mas ela queria mesmo era divertir-se e, ao invés de aulas, frequentava, com outros colegas boêmios, os bares de Beaumont. Começou a tocar com os amigos Patti Skaff e Dave McQueen. Patti e Dave se casaram e foram para New Orleans; Janis abandonou a faculdade e voltou para a casa dos pais. De volta ao lar, foi, a pedido da mãe, para a Faculdade de Port Arthur, fazer um curso de secretariado. Concluiu o curso e os pais permitiram que ela mudasse para Los Angeles. Foi morar com as tias. Tempos depois, Janis estava de volta à casa dos pais e, de novo, na Lamar. Nesta época, experimentou o sexo com uma mulher pela primeira vez. Deixou Lamar e matriculou-se na Universidade do Texas, em Austin. Em poucos meses, Janis estampava a capa do ''Daily Texan''; a manchete: ''Ela ousa ser diferente!''
''Como outros rebeldes da época, Janis rejeitava categorias rígidas de identidade, em seu mundo, categorias raciais e algumas vezes até mesmo sexuais eram desprezadas como camisas-de-força. Janis, no entanto, experimentou coisas muito além, procurando sexo tanto com homens quanto com mulheres, autoproclamando-se a 'primeira pessoa negro-branca''', bebendo e embriagando-se como se fosse um rapaz'', escreve a historiadora americana Alice Echols em ''Janis Joplin. Uma Vida. Uma Época''.
Em Austin, Janis juntou-se a Powell St. John e Lanny Wiggins. Formaram o Waller Creek Boys. Foi aí que a voz de Janis começou a ecoar. Bem como sua ''fluência sexual'' e o contato com as drogas e a bebida. Teve um intenso romance com Julie Paul, uma jovem com jeito masculinizado e corpo de zagueiro. Em 1963, Janis embarcou decidida para São Francisco. Em North Beach, viveu de favores, cheques-desemprego e com algum dinheiro que ganhava cantando em bares. Chegou, inclusive, a roubar comida em supermercados.
No ano seguinte, Janis comprou um Morris Minor amarelo de segunda mão e foi, com sua amiga Linda Poole, para Nova York. Mais drogas, bebida e romances furtivos. De 1963 a 1964, Janis namorou Jae Whitaker, uma moça negra com perfil meio andrógino, mas que era doce e a amava.
Entretanto, em 1965, após uma decepção amorosa, que incluiu uma promessa de casamento, Janis abandonou a vida desregrada em São Francisco e retornou para Port Arthur. Largou as drogas, a bebida, começou a pentear os cabelos e arrumar-se melhor. Não deu certo. Apaixonou-se por Bruce e, mais uma vez, deixou a pequena cidade natal para trás e retornou para São Francisco. Trabalhou como garçonete para se manter. Bruce foi para o Vietnã e, na guerra, morreu.
Janis mergulhou então mais profundamente no perigoso mundo do LSD, da heroína e da maconha. Foi aí que conheceu um amigo de Bruce, Sam Andrew. Graças a ele, Janis conseguiu emergir do fundo do poço. Ele a levou para o The Big Brother & The Holding Company. O grupo tinha Sam e Jim Gurley nas guitarras, Peter Albim no baixo, Dave Getz na bateria e Janis no vocal. Não tocava lá essas coisas, mas cresceu.
Em entrevista à por e-mail, Andrew, que também esteve com Janis na Kozmic Blues Band, diz que foi o músico que mais tocou ao lado de Janis. ''Eu toquei com Janis por mais tempo e por mais noites que qualquer outro músico na vida dela.''Tendo como empresário Chet Helms, a banda estourou. Após a apresentação no Monterey Pop Festival, em 1967, publicações como ''Vogue'', ''Glamour'', ''Time'', ''The New York Times'', ''Eye'', ''Village Voice'' e tantas outras, começaram a procurar Janis insistentemente para entrevistas. Ocasião em que a banda assinou contrato com a Columbia Records, pela qual gravou ''Cheap Thrills''. ''Janis era extremamente profissional e era muito fácil trabalhar com ela. Sempre pontual, ela sabia exatamente o que fazer. Janis era uma pessoa muito engraçada e fazia todo o mundo rir. Ela gostava desse ambiente bom. Bebia muito e usava muitas drogas, mas isso porque era uma pessoa jovem, selvagem, e gostava muito de se divertir. Quando o assunto eram os negócios, entretanto, Janis se dedicava completamente'', lembra Andrew.

mockup