Deu o que tinha que dar e os melhores trabalhos foram premiados nesta 11ª edição do Cine Ceará. ‘‘Janela da Alma’’ foi o grande vencedor na categoria longa-metragem, com três prêmios (melhor filme, fotografia e música), mas ‘‘Latitude Zero’’ fez boa figura e ficou com quatro troféus do júri oficial (direção, ator, roteiro e direção de arte) além de levar o prêmio Samburá, atribuído pela crítica local. ‘‘A Canga’’ levou o troféu de melhor curta-metragem, seguido de perto pelo cearense ‘‘Retrato Pintado’’, que ganhou diversos prêmios, mas não o principal. E ‘‘O Bruxo Bel Borba’’ ficou com o troféu de melhor vídeo.
Antes da cerimônia de premiação, foi apresentado, fora de concurso, o longa-metragem ‘‘Memórias Póstumas’’, que André Klotzel adaptou do clássico de Machado de Assis. Bastante aplaudido pela platéia, que se deixou levar pela narrativa serena e segura de Klotzel. Serena também, porém longa, longuíssima, foi a cerimônia de premiação. Poucos incidentes, poucas reclamações, como se os artistas reconhecessem que os melhores estavam sendo chamados. Vladimir Carvalho recebeu o troféu para seu ‘‘Barra 68’’ dizendo que estava se tornando um especialista em prêmios especiais do júri, sem nunca ganhar o principal. Rosemberg Cariry, filho da terra, que ganhou um troféu de roteiro, em parceria com seu filho, Petrus, pelo vídeo ‘‘Maracatu Fortaleza’’, comentou depois que era o primeiro prêmio que recebia no Ceará. Pequenas espetadas, reclamações tímidas que não podem impressionar a quem está acostumado às baixarias pós-festival, comuns em eventos do gênero, do tipo brigas físicas, bebedeiras ressentidas, troféus atirados na lata do lixo.
Nada disso ocorreu em Fortaleza e não deveria mesmo ocorrer. Claro, todo cineasta se julga um Orson Welles incompreendido, e portador de uma mensagem para a humanidade. Mas nem o mais empedernido dos egocêntricos seria capaz de negar que o documentário ‘‘Janela da Alma’’, de Walter Carvalho e João Jardim, mereceu o prêmio principal. Seu tratamento sensível de um tema difícil – o olhar – contempla tanto a emoção quanto a reflexão. Aponta mais: que uma não anda bem sem a outra. Fica no limite entre tudo o que pode ser dito sobre o olhar e aquilo que deve ser intuído. Ou nas palavras do deficiente visual Arnaldo Godoy, que faz um comovente depoimento no filme e subiu ao palco com sua filha para receber o prêmio em nome dos diretores: a vida não é só isso que se vê. É um pouco mais, como sabe mestre Paulinho da Viola.
Os quatro prêmios recebidos por ‘‘Latitude Zero’’ fazem jus à qualidade do longa de Toni Venturi, história de uma relação terminal vivida nos confins do País. O tratamento do tema é árduo, convicto, procura as arestas e não a facilidade. São méritos. Mas há um preço a pagar quando nem todas as variáveis ficam sob controle, no caso o excesso de teatralidade de algumas sequências, que determina o limite de alcance da obra. O máximo de dramaticidade acontece quando à intensidade se une a contenção, mas o estilo interpretativo predominante no Brasil é avesso à economia de meios. Prefere o excesso, o que é uma pena.
E um certo excesso também põe limites ao vencedor entre os curtas-metragens, o belo ‘‘A Canga’’, de Marcus Villar. A situação proposta por Villar – uma família de miseráveis trabalhando como animais em uma terra infértil – é realmente difícil de ser equilibrada. Entre a exasperação trágica e aquilo que passa o limite do suportável há um fio de navalha. Que é atravessado aqui e ali. O diretor quase alcança o tom justo. Quase, mas ainda assim é um filme de grande impacto.
Como é também, mas trabalhando em outra chave, o curta cearense ‘‘Retrato Pintado’’, de Joe Pimentel, vencedor em diversas categorias. A história evoca a tradição local de pintura sobre fotografias, mas propõe um lírica viagem no tempo. Um bonito trabalho, que vai além do mero registro de uma técnica artesanal.
Como balanço final, pode-se dizer que a nova fórmula do festival acabou dando certo. A mostra competitiva de longas-nacionais conseguiu reunir alguns títulos de boa qualidade. Nem tudo era inédito, nem tudo era bom, mas a média é bastante razoável. E felizmente os júris, de curta e de longa, tiveram o bom senso de premiar os melhores. O que vai acontecer no futuro depende da quantidade – e da qualidade – da produção nacional nos próximos anos. Se ela não entrar no ritmo geral do apagão, e se os diretores se dispuserem a colocar seus filmes em competição no Ceará, o novo formato poderá vingar. Neste primeiro ano a aposta foi vencedora. A qualidade foi mantida, o público veio, e apesar de alguns percalços de início, tudo deu certo no fim. A última impressão é a que vale.

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