Jane Campion conta um conto de amor e poesia
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de maio de 2009
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha2 
Em 1993, aos 39 anos, Jane Campion ganhava o prêmio máximo do Festival de Cannes com ''O Piano''. Agora ela volta com ''Bright Star'', a história de amor entre o poeta romântico inglês John Keats (Ben Whishaw), então com 23 anos, e sua jovem vizinha, Fanny Brawne (Abbie Cornish, a musa de Cannes), entre 1818 e 1820. Ficaram noivos em segredo em 1819, mas não puderam casar. Debilitado pela tuberculose, Keats parte para convalescer em Roma, mas ali morre aos 25 anos, sem jamais rever Fanny.
Seu último poema foi ''To Fanny''. A jovem passou três anos em luto fechado, trancada no quarto lendo poemas de seu grande e único amor. ''Considero que o universo de Keats e de Fanny é inundado pela luz, ele se ilumina e irradia esta luz. E mesmo que Keats tenha desaparecido, a chama do gênio poético e do espírito único não pode ser apagada'', explica Jane Campion.
Amor e poesia, é o que senhora evoca em ''Bright Star''. A poesia sempre acompanhou seus pensamentos ?
Oh, não! Na minha juventude, achava a poesia irritante e frustrante. Sentia que havia um mistério impenetrável, impossível de perceber. Mas assim que escrevi a adaptação do romance de Sausanna Moore, ''In The Cut'' (''Em Carne Viva''), disse a mim mesma que deveria fazer um esforço, porque minha heroína (personagem vivida pela atriz Meg Ryan) era uma professora de inglês. Me especializei então lendo biografias de poetas, como a Colleridge. E fui seduzida por uma, de Andrew Marton, sobre John Keats. Foi uma revelação, um choque.
Por quê?
Fiquei extasiada pelo momento em que Keats reencontra Fanny Brawne. E me rendi completamente àquela história de amor, tão apaixonada e poderosa como a de Romeu e Julieta. Ela é toda perfeita: em verdade, em inocência, em sofrimento. Um amor puro, pelo qual pagaram o preço. Graças a Keats agora amo a poesia, e compreendo que é preciso permanecer nos limites do mistério, sem procurar os efeitos artísticos da obra.
Como a senhora construiu seu filme ?
Me inspirei na biografia de Andrew Marton, nas trinta cartas de amor de Keats a Fanny, em suas odes, em suas baladas. Queria contar a história do ponto de vista de Fanny. O título do filme, ''Bright Star'', é o mesmo do poema que ele escreveu numa página em branco em um dos livros de sua coleção de Shakespeare. As cartas que Fanny enviou ao poeta foram destruídas por ele. Em ''represália'', Fanny conservou todas as que ele enviou, de simples notas até longas crônicas.
A senhora acha que, se Keats não tivesse reencontrado Fanny, sua obra teria sofrido mudanças ?
Quando amamos abaixamos a guarda, nos tornamos completamente vulneráveis. É uma espécie de rito de passagem. É preciso estar aberto tanto ao sofrimento quanto à graça.


