James Osterberg, o Iggy Pop, lança "Avenue B"
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terça-feira, 19 de outubro de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 20 (AE) - Ele nos conta, logo na primeira faixa, que procurou encontrar um equilíbrio entre diversão e dignidade. Modéstia de James Osterberg, o Iggy Pop, o mais original entre os roqueiros cinquentões em atividade, espécie de reserva moral do punk. "Avenue B", seu novo disco, é a reunião de relatos épicos de um sujeito que já viu tudo, mas que se encontra boquiaberto com os confrontos dessa nova era que se anuncia.
Acontece que Iggy Pop está apaixonado. E as mulheres que conheceu agora parece que o deixaram meio pirado. Elas invariavelmente têm irmãos menores que usam camisetas dos Ramones, usam roupas com suásticas, gostam de militarismo e dos Rolling Stones, lêem a "Cosmopolitan" e por aí vai. Não têm mais o perfil bem definido que Iggy se acostumou a conhecer.
O resultado desse embate é "Avenue B", um disco meio dark, meio arrastado no começo, à maneira de Leonard Cohen e Tom Waits. Dizem que a contundência para com as mulheres modernas tem algo a ver com o divórcio recente de Iggy Pop, de 52 anos, o eterno lagarto do punk. Um simples pé no traseiro causou tudo isso. Mas o resultado geral é pungente, prenhe de uma sinceridade rara e também com letras fortes, bem costuradas.
Nas duas primeiras faixas (No Shit e Nazi Girlfriend), Iggy trabalha num estilo de recitação, trabalhando as frases sob uma base de teclados, violino e viola. Ele só abre para a invenção sonora em "Avenue B", a faixa-título, terceira do álbum, na qual se faz acompanhar pelo trio Medeski, Martin & Wood, que esteve se apresentando no sábado em São Paulo, no Free Jazz Festival.
Iggy Pop fez um dos grandes shows de rock que a cidade já viu, no extinto Projeto SP, no fim dos anos 80. Já era então essa espécie de sobrevivente de rosto sulcado e olhos fundos que passou pelo inferno nos anos 60 e 70 e permanece imantado de um tipo de "imunidade comportamental". Ele pode dar-se ao luxo de certas excentricidades (assim como Lou Reed e Patty Smith).
"Avenue B" é certamente uma dessas excentricidades. Tem canções virulentas, como Corruption, na qual se destaca o dueto entre a guitarra rasgada de Whitey Kirst e sua voz cavernosa. Tem outras coisas incompreensíveis, como "Miss Argentina" e "Español" (na qual toca guitarra e parece uma versão gringa de Fito Páez). E outras simplesmente inovadoras, como a neobíblica "I Felt the Luxury" (de novo com Medeski, Martin & Wood). "Motorcycle" é constrangedora, é um ex-punk quase em estado Amado Batista. Sozinho, com uma guitarrinha lamentosa, ele canta: "Agora a voz dela/tão clara e espanhola/soa como um sino de igreja na minha cabeça/mas eu não acredito em uma palavra do que ouço/eu não vou me apaixonar de novo". Calma, James: tome uma aspirina e bola pro mato que o jogo é de campeonato!
Na última faixa, "Facade", ele volta a se redimir. Fala de Nova York como Lou Reed, da dureza e da solidão de uma cidade como um sentimento generalizado. É um disco desigual, mas seu artífice é íntegro e sua música merece o esforço. Serviço - "Avenue B". CD de Iggy Pop. Virgin. Preço médio (importado): R$ 25,00. À venda pelo site www.studiotan.com


