James Joyce do Mangue
Wilmar Klein
De Curitiba
Escritor marginal era Antônio Fraga, e o resto é pose. Personagem da zona do Mangue, no Rio, foi apanhador de siris, mineiro, garimpeiro, lanterninha de cinema, auxiliar de cozinha, vendedor de perfume em bordéis - quem disse que marginal não trabalha? -, mas, sobretudo, escritor - quem disse que marginal não cria? -, desses que escrevem em guardanapo em mesa de botequim. Entenda-se: marginal, aqui, não significa bandido, mas excluído. E Fraga o foi, pela condição social, pela pouca cultura, pela falta de refinamento, que o impediram de ser aceito no círculo das letras cultas (embora tenha conhecido e convivido - até que ponto, não saberia dizê-lo - com escritores sofisticados com Oswald de Andrade). Morto em 93, conseguiu em vida publicar apenas um único e magro livro, Desabrigo- narrativa destituída de pontos finais e econômica em vírgulas, cujos personagens sem eira nem beira (cobrinha, desabrigo, miquimba - assim mesmo, com minúscula) vagam pela zona do meretrício. Este livro e 14 textos inéditos foram resgatados no volume (organizado pela professora de literatura, doutorada pela PUC do Rio, Maria Célia Reis da Silva) Desabrigo e Outros Trecos, que acaba de ser lançado pela editora Relume Dumará. Todos esses escritos, somados, não chegam a preencher 120 páginas, mas são o suficiente para atestar a vitalidade da prosa de Fraga, extremamente coloquial, coalhada de gírias.
Pelo incomum dessa mesma prosa (incluídas em tal estranheza as mencionadas ausência de pontos finais, a quase inexistência de vírgulas, as gírias que ao leitor cultivado podem parecer tão exóticas quanto o dialeto pidgin dos aborígenes de Papua-Nova Guiné), Fraga foi visto, pelos poucos críticos que o haviam lido, como uma espécie de modernista obscuro e houve até quem o alcunhasse de James Joyce do Mangue. Parecem-me rótulos descabidos: Fraga não foi autor de prosa experimental; a sua, não obstante as inegáveis idiossincrasias, era, antes, uma literatura à margem, fundada na oralidade, no cotidiano sem charme da patuléia, na fealdade incômoda de um Brasil onde os excluídos são ainda legião. É preciso ler Antônio Fraga .
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Reprodução
Brinquedo Assassino: atração hoje no Telecine 2
Festival de horror
Como amanhã é uma sexta-feira especial - 13, e de agosto - , nada mais adequado à data do que uma maratona de filmes de terror. Na TV a cabo, o canal Telecine 2 reprisa, às 19h30, Cemitério Maldito (1989), adaptação do romance homônimo de Stephen King dirigida por Mary Lambert e com direito aos Ramones (Pet Sematary) na trilha sonora; às 21h15, Brinquedo Assassino (Childs Play, 1988), o primeiro e mais assustador, dirigido por Tom Holland; e às 22h45, Poltergeist 2 - O Outro Lado (1986), de Brian Gibson, uma continuação inferior do filme de 82, assinado por Tobe Hooper. Também às 22h45, o Telecine 1 exibe Trilogia do Terror 2 (1996), de Dan Curtis - um filme perfeitamente dispensável, a menos que, como eu, você seja fanático pelo gênero e assista a qualquer bobagem.
Já o canal Brasil oferece, dentro do Festival Sexta-Feira 13, opções melhores, começando, às 23h, com o clássico do horror tupiniquim À Meia-Noite Levarei Sua Alma(1962), de José Mojica Marins, com ele na pele do iconoclasta Zé do Caixão, Magda Mei e Nivaldo de Lima. Produção artesanal, elenco amador, porém um filme com altas doses de criatividade e que sempre impressiona (não obstante o fato de algumas sequências serem involuntariamente risíveis). Já na madrugada, o mesmo canal apresenta, à 1h, Enigma para Demônios (1975), de Carlos Hugo Christensen, com Monique Lafond e Luiz Fernando Lanelli. Uma jovem órfã vai morar com os tios em Ouro Preto (MG) e, ao visitar o túmulo da mãe, pega uma flor em um túmulo qualquer. A partir daí, começa a receber estranhos telefonemas. Qualquer semelhança com o conto Moça, Telefone, Flor, de Carlos Drummond de Andrade , não é mera coincidência. E, para fechar a maratona, tem ainda, no Canal Brasil, O Estranho Mundo de Zé do Caixão (1968), de José Mojica Marins, que, retomando o personagem que o consagrou, apresenta três histórias macabras (O Fabricante de Bonecas, Tara e Ideologia) com roteiros capengas. O melhor do filme, na minha opinião, é a música de abertura, cantada pelo próprio Zé. Uma pérola de breguice melódica (quase um hino religioso) com letra sinistra. A banda que tiver a coragem de regravá-la em versão hardcore vai virar banda cult.
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