Candidatos a joyceanos, preparem o fôlego. A célebre história daquele judeu-húngaro que perambula a esmo pela capital da Irlanda no dia 16 de junho de 1904, e que se transformou na mais discutida obra literária deste século, ganhou uma nova tiragem da editora Civilização Brasileira e já está nas livrarias atrás de novos maratonistas, perdão, leitores.
‘‘Ulisses’’, a obra em questão, chega ao público com a tradução original de Antonio Houaiss e com nova capa, 32 anos depois de sua primeira versão em português. O relançamento traz a reboque as também reedições do volume de contos ‘‘Dublinenses’’ (com tradução de Hamilton Trevisan) e do misto de ficção e autobiografia ‘‘Retrato do Artista Quando Jovem’’ (com tradução de José Geraldo Vieira).
Como de praxe, a fornada vai servir para testar mais uma vez a fama de escritor ‘‘citado e pouco lido’’ que pesa sobre James Joyce (1882-1941). Fama, diga-se, reiterada há poucos dias na TV pelo cineasta e cronista Arnaldo Jabor para quem a opulência verbal de Joyce seria impenetrável. ‘‘Não li, não vou ler e mente quem diz que l꒒ - proclamou ele no vídeo, referindo-se a ‘‘Ulisses’’ e à obra posterior ‘‘Finnegans Wake’’, esta ainda inédita no Brasil, com exceção de alguns trechos traduzidos por Augusto e Haroldo de Campos.
Tal reputação foi combatida, em vão, ao longo dos anos. O último a tentar popularizar Joyce virou saco de pancadas da crítica. Foi no ano passado quando apareceu nas livrarias inglesas uma versão vira-latas de ‘‘Ulysses’’ assinada por um professor irlandês chamado Danis Rose. O livro trazia cerca de 10 mil alterações no texto original incluindo mexidas em frases, pontuações e colocação de apóstrofes.
Joyce, na verdade, jamais pretendeu escrever para leitores de best sellers. Quando o primeiro tradutor de ‘‘Ulisses’’ para o francês lhe pediu explicações sobre o livro, o escritor respondeu: ‘‘Se revelasse o esquema de ‘Ulisses’ perderia minha imortalidade. Incluí tantos enigmas e quebra-cabeças que ele vai ocupar acadêmicos durante séculos.’’
A profecia, pelo jeito, vai se cumprindo. O labirinto joyceano foi alvo, ao longo deste século, de um congestionado trânsito de acadêmicos em busca de alusões, simbolismos e toda a sorte de sutilezas estilísticas contidas nas cerca de setecentas e poucas páginas protagonizadas por Leopold Bloom. Pares de ofício também se curvaram à sua prosa revolucionária.
O escritor Anthony Burgess confessou ter dedicado 50 anos à leitura de James Joyce, credencial que o deixou apto para acrescentar mais um volume interpretativo ao legado do dublinense. O crítico Edmundo Wilson, por sua vez, lembrou que as obras em prosa de Joyce ‘‘possuem uma intensidade artística, uma definitiva beleza de aparência e forma, que o tornam comparável antes aos grande poetas que à maioria dos grandes romancistas.’’
O poeta Ezra Pound notou que ‘‘Ulisses’’ assinalava um ponto de chegada da literatura. O livro revelou Joyce em pleno domínio da linguagem, a qual manejava com inigualável perícia exercitando enigmas, jogos, formas e ritmos. A crítica saudou o romance como uma enciclopédia de padrões narrativos, na qual teria reunido todos os estilos literários - ou não - já registrados pela língua inglesa.
Quando foi lançado, o bafafá foi grande. Aliás, toda a trajetória da publicação do livro merece um texto à parte - a começar pelo próprio parto, que demorou 15 anos para receber o ponto final do autor. O manuscrito original, com a caligrafia fina e estranha do autor, recebeu a primeira edição na França em 1922 depois de ser dalilografado por pessoas que não falavam inglês. Deu naquilo: erros aos montes e omissão de vários trechos, revistos posteriormente pelo alemão Hans Walter Gabler em 1984 e pelo norte-americano John Kidd em 1991.
Como se não bastasse a mancada, o livro foi proibido na Inglaterra e nos Estados Unidos até 1933 e na Irlanda até 1960 sob a acusação de conter obscenidades e pornografia. É essa obra tão controversa quanto monumental que uma nova geração de leitores brasileiros tem a chance de penetrar com o relançamento da Civilização Brasileira. Quem vai encarar?

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