É a primeira vez na longa história da mais antiga franquia - 46 anos, 22 títulos oficiais - que um filme da grife 007 é de fato uma continuação do precedente. ''Quantum of Solace'' começa exatamente uma hora após a morte da bela Vésper Lynd (Eva Green). Sessenta curtos minutos separam este novo episódio do anterior, ''Casino Royale''. De fato não separam, aproximam. Se no filme de 2006 os produtores iniciaram uma espécie de repaginação ou releitura, digamos, mais dura e cruamente contemporânea para o agente britânico, nesta mais recente aventura temos o atestado, ao que parece definitivo, desta transformação.
Houve um momento - e até não faz muito tempo, quando o personagem estava nas mãos de Pierce Brosnan - em que James Bond era sinônimo de elegância, sofisticação, surpresa, humor. Inverossímil, com certeza, mas divertido em sua deliberada pose de auto-paródia. Pouco ou nada resta agora daquela marca de fábrica nesta era Daniel Craig. ''Casino Roayle'' evidenciou isto, e o filme teve uma legião de defensores intransigentes: aqueles que disseram ter lido a novela de Fleming e afirmavam que Craig estava mais próximo que nunca do Bond literário (como se alguma vez os textos originais tivessem importado alguma coisa para a saga...); e aqueles que preferiram que tudo se reduzisse a um mero filme de ação, supondo que desta maneira 007 se modernizaria, se adequando aos tempos que correm.
''Quantum of Solace'', com estréia também em Londrina (veja a programação de cinema na página 2), confirma o que se soube diante do título anterior da série, e que de alguma forma se temia: Bond está mais ou menos reduzido a uma simbiose entre um esbaforido Jason Bourne e um esfrangalhado duro de matar de segunda mão.
Aqui o agente secreto comparece obcecado pela vingança. A morte de Vésper o atormenta, mesmo que alguns dias mais tarde já esteja ao lado de outra mulher - a propósito, este é o Bond menos mulherengo e sexy em todas estas quase cinco décadas de bond-girls e alcovas. Depois de um início simultaneamente envolvente (uma perseguição em estrada italiana) e politicamente incorreto (ele e M se preparam para torturar o individuo que levou Vésper a traí-lo), vão se suceder mais e mais sequências de ação, mas todas parecem amontoadas, e não como sequências claras de uma unidade. Bond está atrás de Quantum, organização corporativa que derruba governos, comercializa apoios, se infiltra em todas as partes e encontra terreno fértil na corrupção em países de terceiro mundo.
A Bond-girl do momento é a boliviana Camille (Olga Kurylenko, modelo e atriz ucraniana de parcos recursos, além da beleza trivial). Ela acrescenta mais lenha à vingança de 007: quer corpo e alma do general Medrano, que matou pai, mãe e irmã e que vai assumir o poder na Bolívia graças a Dominic Greene (Mathieu Amalric, vilão que não cabe em si de maldade), um filantropo que se esconde sob causas ambientalistas, mas que planeja mesmo é se tornar dono de todos os recursos naturais do planeta.
Pergunta que incomoda, e muito: desde quando 007 e sua chefe M (Judi Dench) sujam as mãos torturando um elemento de organização inimiga ? Quando muito, o velho Bond da boa vida também descia a porões, mas era para desfrutar um bom vinho, e não para manchar as mãos de sangue - aliás, roupas ensanguentadas e desalinho total ao melhor estilo Bruce Willis é o que se vê em Daniel Craig durante mais da metade do filme, a propósito o mais curto da lista: 106 minutos, o que aqui é uma vantagem.
É bem verdade que o roteiro dos ingleses Neal Purvi, Robert Wade e do americano Paul Haggis (roteirista dos últimos filme de Clint Eastwood e também diretor - Crash e No Vale das Sombras) não se esmera em dar ao ator muitas oportunidades de empenhar-se, a não ser fisicamente, pulando seja em Siena, seja numa Bolivia de caricatura. E quando esta máquina de correr se detém, o filme se torna sentimental e afetado em moldes de gosto duvidoso, com 007 evocando o amor perdido de sua vida ou elogiando o valor da amizade com o velho agente aposentado (Giancarlo Giannini, em boa forma).
Esta guinada com certeza corre por conta do diretor Marc Forster, que sempre se mostra mais inclinado a extrair uma lágrima fácil do que apurar seu rigor narrativo. Não parecia o homem adequado para esta empreitada, porque como diretor de ação lhe falta desembaraço criativo nas coreografias, em consequência sobrando a tarefa mais árdua para quem está na mesa de montagem. Assim, a vertigem da edição substitui a verdadeira tensão.
E afinal, este título. O que significa, isto que chegou aos quatro cantos em sua versão original em inglês, sem tradução ? Quantum of Solace provém por sua vez do título do conto de Ian Fleming publicado em 1960 e que quer dizer ''quantidade de consolo''. No caso, o filme parece sugerir, o muito que 007 precisa para esquecer seu amor morto. E de certa forma também o mesmo tanto que o espectador requer para aceitar este Bond que não é mais o que costumava ser.

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