JAIRO LIMA E A SUPRAPOESIA
Célia Musilli
De Londrina
A poesia é para tocar o coração. Às vezes entra pelos olhos, outras pelos ouvidos. Em situações especiais entra por olhos, ouvidos, paladar, todos os poros. Materializa-se na voz do leitor instigado em modulá-la com sussurros, meias pausas, semitons. Ou simplesmente é convidado a lê-la, prestando atenção às palavras como quem tira a louça com delicadeza, discurso de porcelana.
A convergência dos caminhos da poesia, entrando e saindo pelos poros, é atributo de Jairo Lima, recém-lançado pela Iluminuras com Livro das Árias e das Horas & Pequeno Livro das Nuvens - dois volumes em um.
Nascido em 1945, o poeta pernambucano, que também escreve para o teatro, tem o dom de tecer palavras envolvendo-as com metáforas em que se adivinha a arquitetura da escrita de alguém muito íntimo da linguagem. Mais que isso, ele vem para anunciar o novo, num cenário em que há muitos autores, poucos realmente bons porque a poesia não é texto de arranjo fácil, vicejam por aí muitos equívocos.
Embarcar com Jairo Lima na viagem das palavras é ato de prazer contínuo, com o leitor sempre acompanhado. Há personagens que conduzem os versos - ou nomes próprios escritos com letra minúsculas que remetem a novos significados - ricos de conteúdo, vazados pelas leituras múltiplas que o autor propõe através de palavras e temas recorrentes. Algumas vezes é Penélope quem age, ressurgindo do tempo na tessitura dos fios, memórias coloridas, memórias silenciosas, memórias. A mulher da terna e paciente espera é um entre outros personagens como Ulisses ou simplesmente a Loba, condutora de uma série de dezoito poemas dentro do livro.
A Loba criada por Jairo Lima passeia no tempo, passageira das horas, atua sobre situações de grande beleza e plasticidade sonora. Mas o poeta não faz só jogo de palavras, envolve-as com conteúdos, significados sobrepostos que a leitura desatenta não decifra. É preciso debruçar-se sobre o verso, coração pacificado, psiquê mergulhada numa tarde sem propósitos a não ser ler poesia. Aí sim, a força da linguagem se revela, arrasta o leitor como um rio. Jairo Lima é um artesão de palavras, tão perfeito nos encaixes que nenhuma vírgula, nenhuma pausa sobra no arranjo minucioso dos versos. Ele consegue assim a poética integral, a suprapoesia completa em si mesma, sem excessos nem recalques. Poesia para ler e se encantar.
Livro das Árias e Das Horas & Pequeno Livro das Nuvens, de Jairo Lima. Lançamento da editora Iluminuras, 127 páginas.





