Jaime Alem, de bem com a vida
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sábado, 26 de abril de 2014
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Como um relicário, o coração de Jaime Alem, de 62 anos, parece só ter espaço para guardar boas lembranças. Depois de 30 anos dedicando-se à direção musical e aos arranjos sofisticados da cantora Maria Bethânia, ele agora está investindo em carreira solo. No mês passado esteve em Londrina para gravar o clipe da canção "Relicário", que estará presente em seu novo trabalho, ainda sem nome definido e previsto para ser lançado este ano pela gravadora Biscoito Fino. O repertório traz 13 composições autorais, de variados estilos, com formações diferenciadas - solo, em dupla e trio. No final de 2009, ele lançou o disco instrumental "10 Cordas do Brasil", focado na viola caipira, a partir de convite do produtor musical Chico Adnet, um incentivo a mais para voltar a gravar suas composições.
E com um sorriso constante no rosto, Jaime Alem está leve e feliz com a nova direção da sua carreira musical, mesmo que a separação abrupta da parceria com Bethânia - há dois anos - tenha sido marcada por algumas situações no mínimo constrangedoras - como o dia em que foi destratado publicamente pela cantora em show no Teatro Castro Alves, em Salvador, por supostamente "não achar o tom", ou ficar sabendo por telefone da sua substituição pelo próprio Wagner Tiso, seu amigo pessoal, que ficou apenas alguns meses no cargo ocupado por ele por três décadas.
"A minha relação com a Bethânia é como um casamento que naturalmente foi se desgastando. É assim que eu encaro e se fiquei tanto tempo com ela é porque tinha muita coisa boa, não é mesmo?", indaga. E entre as coisas positivas, está o fato de aprender a valorizar a relação da música com a poesia e do seu potencial de emocionar. "Isso eu aprendi com ela, que sempre defendeu com muita coragem e determinação o seu ponto de vista, a sua convicção musical", observa.
Em Londrina, acompanhado de sua companheira de vida, a cantora Nair Cândia, juntos há 42 anos, agora Jaime Alem retoma um sonho antigo que era o de voltar a cantarem juntos. A estreia da dupla aconteceu em 1974, no LP "Jaime e Nair", considerado cult no meio musical e que ganhou versão em CD em 2001, com divulgação pela Europa e pelo Japão. Na canção "Relicário", Nair que foi backing vocal de Maria Bethânia - interpreta em tom lírico a música composta pelo marido há quatro anos, que além de cantar, toca violão de 12 cordas, dando um toque mais folk à música, em bela afinação.
Do outro lado
Durante a gravação do clipe, realizada pela produtora londrinense Union Filmes, sob a direção do cineasta inglês Jonathan Murphy e produção de Natasha Murphy, Alem demonstrou um certo constrangimento em cena, embora estivesse entre amigos de longa data: "É engraçado estar atuando dessa forma. Sempre estive do outro lado, dirigindo alguém. Isso ainda é novo para mim", diverte-se o músico, que em breve deverá retornar do Rio de Janeiro para gravar o clipe da canção "Elo Perdido", composta por ele há 12 anos, dentre mais de 200 canções guardadas.
Em meio a objetos cênicos pessoais trazidos por ele para a gravação do clipe, como uma velha mala com seus discos antigos preferidos (com destaque para os de Milton Nascimento) e até pergaminhos de arranjos orquestrais do seu avô materno português Guilherme Gambeta - que datam de 1909, Jaime Alem não nega a sua vocação musical. "É uma vida inteira dedicada à música", resume, sorridente.
Como um barco à vela, que não está à deriva, Jaime Alem segue em frente, dirigindo com o talento de sempre os novos rumos da sua vida.
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