São Paulo, 06 (AE) - Hokusai, o grande mestre gravador japonês nascido no século 18, viveu 89 anos. Costumava dizer que só foi entender o significado da natureza aos 73 anos. Levou mais dez anos para conseguir retratar pássaros, insetos e peixes sem traços de constrangimento e morreu sem atingir sua meta: fazer com que cada linha de sua gravura ganhasse autonomia. Séculos depois, uma artista brasileira tenta o impossível: gravar a Via-Láctea e transportar a luz do Sol para o papel.
São dois desafios, tão gigantescos como a missão de Hokusai, empenhado em retratar o mundo sem recorrer ao naturalismo. Hokusai impôs sua visão lírica e acabou com a banalidade do ukiyo-e, anunciando o Japão moderno por intermédio de seus seguidores (Hiroshige, por exemplo). A brasileira Jacqueline Aronis não pretende ir tão longe. Quer apenas explorar a luz em suas gravuras, expostas na Galeria Valú Oria (Al. Gabriel Monteiro da Silva, 1.403), em São Paulo, até o dia 22.
A remissão a Hokusai é deliberada. Há muito da tradição japonesa na exposição "Do Firmamento", de Jacqueline Aronis, particularmente uma série que mostra círculos coloridos como traduções visuais do Sol. A série conserva o poder evocativo das formas arcaicas de Gyokudo, em especial sua série de ciclones. O japonês Gyokudo foi buscar inspiração na gravura chinesa. A artista brasileira usa o serialismo minimalista americano, mas ambos lidam com o incidental, elegendo como tema o fluxo de energia.
O ponto focal da série estelar de Jacqueline Aronis, a exemplo dos artistas japoneses, não está no objeto representado, mas na confluência de outros pontos. Num espaço mínimo ela recria a Via-Láctea ou uma paisagem marinha que poderia ter sido anunciada por Mokubei há dois séculos. Como em Mokubei, as montanhas parecem, à primeira vista, o foco principal dessa gravura. Não é o caso.
Prova evidente desse distante parentesco é a gravura "Entardecer", água-tinta em que um distante barco define o equilíbrio da paisagem, rompendo com a perspectiva ocidental e recuperando a lição das nuvens de Mokubei, mais importantes que as montanhas desenhadas em primeiro plano.
Obviamente, Jacqueline Aronis vive em outros tempos. O uso da escrita em sua gravura tem significado diferente dos textos que entram como elementos formais nas gravuras de Mokubei. Nessas gravuras, os textos são meramente elucidativos. Nos trabalhos de Jacqueline, embora omitidos, os textos passam por metamorfose poética. São João da Cruz, que já mexeu com tantas cabeças modernas (a do videomaker Bill Viola, entre elas)
volta a incomodar a consciência hedonista deste fim de século, inspirando toda uma série geométrica da artista, em que o triângulo se converte em luz.
O triângulo invertido forma uma ampulheta que filtra as palavras e transforma o tempo. Cria-se uma nova dimensão espacial com a gravura. O resultado lembra vagamente a espacialidade da gravura de Rosetsu. O espectador está diante de uma folha de papel de dimensões ínfimas, mas o olho não consegue se fixar num único ponto, vagando nas profundezas do espaço branco da folha. A gravura não representa. Ela existe em estado caótico, unindo imagem e matéria num único bloco, exatamente como o barco, as nuvens e as montanhas do lírico trabalho "Entardecer".

mockup