Jacob do Bandolim, o máximo da MPB
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quinta-feira, 26 de junho de 2008
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Um mau pedaço das dores de amor é quando alguém pisa num coração que lhe pertence. Não é possível revelar essa dor, dando-lhe sabor agridoce de maravilhosa melodia, se não, reclinando a cabeça sobre o peito da música de compositores como Jacob do Bandolim, bandolinista que o mundo afora venera.
A letra para chorar tamanha ingratidão, de Hermínio Bello de Carvalho, só é perfeita porque soluça sobre a música de Jacob. É para revenciar o carioca das Laranjeiras, no ano em que completaria 90 anos, que o compositor, poeta e produtor musical, produziu o DVD ''Ao Jacob, seus bandolins'', lançamento da Biscoito Fino.
''Jacob é a glória da nossa Música Popular Brasileira. A sua música tanto serve para fazer o chorinho brilhar e o cantor dizer poesia em suas melodias'', confessa Zezé Gonzaga, a cantora preferida do maestro Radamés Gnattali, uma das convidadas do recital realizado na Sala Cecília Meirelles, comemorando a inauguração do Instituto Jacob do Bandolim, em 2002.
O encontro musical já tinha originado um álbum duplo, reunindo bandolinistas de primeira grandeza, como Joel Nascimento e Hamilton de Holanda, acompanhados por Rogério Caetano, no violão de 7 cordas, numa versão inusitada de ''Noites Cariocas'', e a nova geração dos bandolins.
Com alguns anos de atraso, chega ao mercado o DVD, que aproveita o registro audiovisual feito simultaneamente naquela noite memorável. A eternidade na música é um céu de muitas moradas, reservado a músicos, a exemplo de Jacob, que construiu uma obra monumental de excepcional qualidade.
Através do DVD, alguém de tamanha grandeza, que arrebatou o saxofonista francês Claude Lutter ao ponto de considerar o brasileiro o maior músico do mundo, recebe uma homenagem à sua altura celestial - porque é impossível existir outro Jacob Pick Bittencourt, que mereça o sobrenome Bandolim.
Além do repertório afinadíssimo com a obra do músico, o DVD ainda traz uma biografia narrada pelo próprio Jacob, fotos e charges de Ulisses Araújo. O músico marcou a carreira de nomes, como Dino 7 Cordas e Benedito César Farias, que integraram o legendário grupo Época de Ouro. Os dois estão no DVD, em última aparição pública, interpretando o choro ''Treme-Treme''.
''Para mim, Jacob é um mestre ausente'', contracena com a tradição musical, Nilze Carvalho (bandolim), representante da nova geração, que divide o palco em ''Bole-Bole'', com Zé da Velha (trombone), Silvério Pontes (trompete), acompanhados por Luiz Otávio Braga (violão de 6 e 7 cordas), Sérgio Prata (cavaquinho) e Netinho (pandeiro). Uma porção a mais no caminho até o céu de Jacob vencida não só pelas cordas, mas também pelos metais, que cortam esse firmamento.
Uma constelação de estrelas dos bandolins, que deixa espaço para astros, como Altamiro Carrilho, também brilhar numa interpretação fabulosa de ''Doce de Coco'' - a mesma música que a preferida de Gnattali, Zezé Gonzaga, empresta o calor de sua voz para cantar a desilusão do amor no DVD.
Jacob era extremamente exigente. Numa dessas passagens, Nara Leão perguntou ao bandolinista, que não gostava de sua voz, se tinha algum preconceito em relação à cantora. Ele respondeu que sim.
No DVD, o samba ''Assanhado'', lançado em 1961, uma bossa que o violinista Carlinhos Leite costumava fazer ao violão, que Jacob improvisou em cima, é páreo para Armandinho (bandolim elétrico) e Yamandú Costa (violão de 7 cordas).
Jacob morreu em 1969. Sua música ganhou uma morada eterna. Aos que herdaram essa tradição e os que apreciam o refinamento do músico, que dominava o bandolim, que só podia cantar em seu respeito, o depoimento de Dino 7 Cordas ensina o caminho para chegar até essa moradia. No DVD, 7 Cordas diz que Jacob era apenas o máximo e, se foi o máximo, não é preciso dizer mais nada.


