Cannes - Hollywood o conhece simplesmente por Jack. Desde que estreou nas telas, em 1958, em ''A um Passo do Crime'', Jack Nicholson hipnotiza a platéia com sua galeria de personagens desajustados, sarcásticos ou diabólicos. Quando entra em cena, ninguém consegue ficar imune ao carisma do ator 11 vezes indicado ao Oscar e vencedor de três estatuetas - por ''Melhor É Impossível'', ''Um Estranho no Ninho'' e, como coadjuvante, por ''Laços de Ternura''. Chamá-lo de astro é pouco. Nicholson é um ícone das telas, ainda que ele não resista a fazer piada sobre o assunto. ''Ninguém conhece mais cinema do que eu'', diz, irônico.
Mesmo consciente de que não precisa provar mais nada para ninguém, Nicholson não consegue se afastar dos sets de filmagem. ''Sou obcecado por cinema. Quando olho para trás, reconheço as minhas maiores realizações nos filmes'', contou o ator de 65 anos, que teve a sorte de trabalhar com grandes diretores, como John Huston, Elia Kazan, Mike Nichols, Roman Polanski, entre outros. ''Gosto tanto de cinema que poderia ser deixado sozinho em ilha deserta, contanto que tivesse à mão um videocassete e algumas fitas com filmes meus e 'Oito e Meio', de Fellini'', brincou Nicholson, desde já uma das apostas ao Oscar em 2003.
Embora seja muito cedo para arriscar qualquer prognóstico sobre a próxima edição do prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, Nicholson promete alcançar a 12 indicação da carreira. Ao protagonizar ''About Schmidt'', ainda sem data para estrear no Brasil, o ator revela a mediocridade de um homem que dedicou a vida inteira a um emprego chato e a uma mulher que ele nunca amou. Warren, seu personagem, é um vendedor de seguros recém-aposentado que descobre o prazer das pequenas coisas ao colocar o pé na estrada, após o velório da esposa. ''Que me perdoem as seguradoras, mas não existe emprego mais maçante que vender seguros.''
Leia a seguir os principais trechos da entrevista que Nicholson concedeu em Cannes, onde ''About Schmidt'' arrancou elogios da crítica internacional. Além do novo filme, Nicholson falou de Hollywood, da paixão pelo time de basquete de Los Angeles (o Lakers) e dos fãs que, estranhamente, costumam deixá-lo circular tranquilamente pelas ruas ou pelos ginásios em dias de jogos. ''Justamente porque Jack não posa de astro, os fãs lhe dão espaço'', observa Harry Gittes, produtor e amigo de longa data do ator.
É um fardo ser um ícone de Hollywood?
Se você atua uma ou duas vezes, ninguém tenta descobrir quem você é através dos personagens. Mas no meu caso as pessoas pensam que me conhecem só porque me viram inúmeras vezes nas telas. O trabalho fica complicado quando você precisa quebrar uma imagem, como em ''About Schmidt'', onde eu procuro convencer as pessoas de que a percepção delas a meu respeito está errada. Eu posso perfeitamente interpretar um homem insignificante.
Fica irritado quando é acusado de interpretar a si mesmo?
Como podem dizer isso? Ninguém conhece o verdadeiro Jack (risos). Cada trabalho é diferente, cada personagem é diferente. É isso que me atrai na profissão. Do contrário, não continuaria no negócio. Nenhum diretor com quem trabalhei quis que eu fosse eu mesmo no set.
Acredita intimidar diretores, principalmente os menos experientes, com a sua presença no set?
Acho que não. Estou sempre aberto e me coloco inteiramente a serviço da história e do cineasta. Não sou difícil de dirigir, apesar de que dizem por aí (risos).
Quanto você precisou envelhecer para interpretar Warren Schmidt?
Warren é mesmo mais velho que eu. Mas não muito (risos). Basicamente tive de engordar, de caminhar de forma mais pesada e o diretor ainda ajudou a me deixar menos atraente escolhendo os piores ângulos (risos). Desta vez, não foram usados truques, como filmar o meu rosto ligeiramente de cima para baixo, fazendo sombra no queixo. Parece que não, mas isso faz grande diferença. Ainda trouxe um quê de decadência ao visual do personagem, tentando esconder a calvície ao pentear o cabelo de lado. Durante os três meses em que filmei ''About Schmidt'' até parei de me olhar no espelho. Tive medo de não voltar a ser o mesmo.
Como conseguiu estabelecer longevidade em Hollywood?
Sempre fui chato e perfeccionista, não importando o orçamento da produção. Como nunca estive satisfeito, tentei coisas diferentes, evitando assim cair na armadilha de um personagem só. Quando um papel traz sucesso, o ator fica tentado a repeti-lo. Pelo menos mais uma vez. E esse é o erro. Depois de um tempo ninguém aguenta mais vê-lo.
É verdade que, por conta de sua paixão por basquete, você pede aos diretores que não deixem as filmagens coincidirem com o horário dos jogos?
Quando eles me contratam, eu nego. Mas eles sempre dão um jeitinho de me dispensar na hora da partida. Quando não há mesmo como me liberar, a produção geralmente grava o jogo e eu assisto assim que termino o trabalho.
Como Hollywood mudou ao longo dos anos?
Sou do tempo em que não havia programas de entretenimento sobre cinema, talk shows e uma mídia com apetite voraz pela vida pessoal dos atores. Talvez por isso eu tenha tão clara a idéia de que não importa o que eles falam de você. O trabalho é o que conta. É o que fica.
Por qual filme gostaria de ser lembrado?
Gosto de todos os meus filmes, com destaque para ''Com a Corda no Pescoço'', que eu dirigi. Entre os que atuei, gosto de todos por diferentes razões. Desde os que me renderam prêmios até os mais incompreendidos, como ''A Pequena Loja dos Horrores''.
Como enfrenta o assédio dos fãs?
Nunca tive uma postura pedante com relação ao público. Vou a todos os lugares que tenho vontade. Se as pessoas que encontro querem falar comigo, eu converso. Por que não? Prefiro me divertir a fazer disso um drama.

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