Cannes - Não é um filme inesquecível, e pode-se até perguntar o que estaria fazendo numa competição que é a vanguarda do cinema mundial. Mas quando se recorda que Olivier Assayas e seu flácido ‘‘Demonlover’’ estão aqui incompreensivelmente em pé de igualdade na corrida pela Palma, ‘‘About Schmidt’’, dirigido por Alexander Payne, passa à categoria de filme palatável, na linha comédia agridoce acompanhada de performance extra classe de Jack Nicholson.
Ele é Warren Schmidt, um sexagenário de Omaha, Nebraska, experimentando a falsa bonança da aposentadoria depois de uma vida profissional dedicada aos seguros. Após um casamento de 42 anos, sua vida doméstica é um mar de gentis e rotineiras frugalidades com a mulher Helen, que o mantém sob carinhosa vigilância à distância. A filha única, Jeannie, mora em Dever e está para se casar com um genro que Warren não pediu a Deus. Para imprimir certa dignidade à pasmaceira e ao ócio que lhe impuseram, Warren se inscreve num desses programas mundiais de ajuda humanitária, apadrinhando uma criança africana. É nas cartas que escreve ao garoto tanzaniano Ndugu, de 6 anos, que vamos conhecendo melhor o personagem, suas idiossincracias e sua maneira de ver o mundo,
De repente a mulher morre. Warren, na boleia de seu ‘‘motor home’’, não espera muito e cai na estrada, lembrando outros road-movies da terceira idade realizados nos anos 70 - ‘‘Harry, o Amigo de Tonto’’, de Paul Mazursky, e ‘‘Kotch, Ainda Há fogo Sob as Cinzas’’, de Jack Lemmon. A caminho de Denver para o casamento da filha, ele faz uma espécie de jornada crítica, irônica em torno da classe média americana, também presente nas bodas e na família do noivo.
Nunca esteve tão bem, e tão...Jack Nicholson. Engraçado ou comovente, o ator exibe o domínio absoluto de sua arte. O estranho, nele, é que durante todo o filme ele sempre parece um pouco com cada um de seus personagens mais marcantes. E no entanto Nicholson é aqui por inteiro Warren Schmidt. E nenhum outro. Um prodígio.

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