Jabuti na água fria
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Algo raro aconteceu. Uma obra infantojuvenil venceu o Prêmio Jabuti de livro do ano de ficção de 2011. Os louros foram para "A Mocinha do Mercado Central" (Editora Globo) da escritora mineira Stella Maris Rezende. O resultado foi anunciado na noite da última quarta-feira pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), entidade responsável pelo mais cobiçado prêmio literário do país.
Tudo indica que a premiação da obra de Stella Maris Rezende, apesar de ser raridade, foi na realidade um balde de água fria. Um corta fogo na polêmica iniciada um mês atrás, quando a CBL divulgou os três ganhadores do prêmio na categoria romance e o livro de Ana Maria Machado, "Infâmia" (Editora Objetiva) não estava na lista. Um dos jurados havia conferido à obra duas notas 0 e uma nota 0,5.
Devido a essas notas, o primeiro lugar da categoria foi entregue ao romance de estreia do paranaense Oscar Nakasato, "Nihonjin", professor da Universidade Tecnológica do Paraná no campus de Apucarana. A atual presidente da Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Machado, uma das escritoras mais consagradas do país por seus clássicos infantis, ficou chupando o dedo na categoria romance adulto.
Uma polêmica que rapidamente pegou fogo - na imprensa, blogs e redes sociais - e revelou um drama que o Prêmio Jabuti, com 34 anos de existência, vem sofrendo nos últimos anos. Em 2010, "Leite Derramado" de Chico Buarque, que ficou em segundo lugar na categoria romance, foi escolhido como livro do ano. Em 2011 alguns livros que apareciam na lista de indicados não cumpriam as exigências do regulamento e precisaram ser excluídos de última hora.
Todo esse carrossel de polêmica coloca o Prêmio Jabuti e a indústria do livro em situações constrangedoras. E tira do foco daquilo que realmente interessa ao leitor: a literatura.
Ao longo de toda sua história, o Jabuti manteve a tradição de escolher como melhor livro de ficção do ano o primeiro colocado nas categorias adultas de romance, contos ou poesia. A premiação de "A Mocinha do Mercado Central" de Stella Maris Rezende se apresenta como um claro corta fogo da indústria do livro frente à verdadeira discussão: novos autores não podem criar boa literatura como os consagrados escritores?


