''J. Velloso e Os Cavaleiros de Jorge '' é indício, primeiro sinal de que J. Velloso, dominado pelo amor à MPB, está cativado pelo pop. Um affair assumido no segundo CD da carreira, lançado pela Quitanda, selo de Maria Bethânia.
Sobrinho de Bethânia e Caetano Velloso, o compositor, com músicas gravadas não só pela cantora, mas também Gal Costa, Daniela Mercury, entre outros, recebeu as benções da família.
''Quando acabei o disco, mostrei para a Bethânia. Ela é sempre muito sincera comigo. Pensei que não fosse gostar porque tem muita guitarra e programação eletrônica. Fiquei imaginando o que iria pensar, mas disse que tinha adorado, achado um disco inspirado'', conta J. Velloso.
Para encarar essa relação quase que extraconjugal com o pop, o compositor precisou se libertar de alguns preconceitos, mas o resultado é um trabalho requintado e cheio de grandes participações.
J. Velloso também não esconde mais o cantor que por muito tempo resistiu em dar voz às suas canções.
O peso de um casamento estável de 20 anos com a composição talvez foi a principal barreira para se lançar na nova aventura de querer cantar.
Porém, não há resistências ao amor diante da atmosfera parisiense. Não foi diferente com J. Velloso. Diretor artístico da Missa do Rosário dos Pretos na Igreja de Santa Madeleine, em Paris, uma festa semelhante à Lavagem do Bonfim, em Salvador (BA), foi lá que ele tomou coragem para cantar.
''Fui convidado para fazer um show. Não tinha nada pronto. A data da apresentação foi se aproximando e acabei cantando coisas que tinham identificação com os brasileiros que moram em Paris e que os franceses gostam. Virou aquela festa. Quando acabou me senti aliviado. De volta ao Brasil, eu disse a um produtor: Quero cantar'', lembra, J. Velloso que, inicialmente, pensou em apresentações em teatros, mas acabou optando pelo barzinho cultural da capital baiana ''Casa da Mãe'' - o que deu outra dimensão ao espetáculo, já que o clima de conversas paralelas de um bar exige músicas que peguem o público logo de começo. O show programado para apenas um final de semana ficou seis meses em cartaz.
A relação com o palco se tornou prazerosa a tal ponto do compositor deixar de lado a fidelidade à pura MPB para tentar novas experiências.
Participações especiais no CD, como o maestro italiano Aldo Brizzi, radicado na Bahia, que deixou a música erudita para ficar com a eletrônica, contribuem para tornar mais sólida essa nova fase amorosa de J. Velloso.
''Brizzi botou programação eletrônica na faixa IPod. Eu tinha preconceito, purismo que fui perdendo ao longo do processo de gravação do CD e em quase todas as músicas têm um tipo de programação'', destaca o compositor.
Outros companheiros foram aparecendo. Além de dois grandes compositores do recôncavo baiano, Roberto Mendes em ''Verde Saudade'', ''Doida Para Amar'' e ''Feiticeira'' - esta uma cantiga de ninar numa versão xote - e Roque Ferreira nas músicas ''Me Dá Um Cheiro de Amor'' e ''Foguete'', o CD traz participações de Jorge Vercillo, Jorge Mautner, Virgínia Rodrigues, Paulo Dáfilin, Mário Ulloa, Silvinho do Acordeon e Luizinho do Jejê.
''Depois do encontro no CD, eu já fiz cinco shows com Mautner. A Virgínia entrou para o projeto do disco porque eu queria uma voz lírica. É uma das vozes mais lindas. O Mário Ulloa, um violonista de Porto Rico, que já ganhou o Grammy, viaja o mundo inteiro tocando, também tem participação no trabalho'', comenta o compositor.
Inevitalmente, J. Velloso não escapa de perguntas sobre a influência de sua árvore genealógica musical, mas como bom baiano, agradece a todos os santos pela família ilustre:
''Para mim não é difícil. É natural. Vou beber da água da formação sincrética baiana muito forte, mas quando estou dando entrevistas sempre me perguntam sobre o peso e como me sinto em carregar o sobrenome famoso. Me sinto carregado nos braços por dois músicos, Bethânia e Caetano, que chegaram em minha casa e apresentaram uma profissão que carregam com seriedade''.

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