J. Lo é a Cinderela do momento
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 17 de abril de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Tudo bem - tudo muito mal, a rigor - que estes tempos pascais resultem atípicos, em termos de fraternidade e tolerância, desgastadas ao extremo pela tresloucada aventura ianque-iraquiana. Mas não havia necessidade de um tal reforço de más notícias, como a estréia deste ''Encontro de Amor'', em lançamento nacional a partir de hoje (veja a programação de cinema na página 2). Acreditem, ''Carandiru'' é disparado o grande filme em exibição.
Transparência um: Jennifer Lopez não é uma atriz engraçada. Nem é propriamente uma atriz, e está custando 10 milhões de dólares por filme, cachê à altura somente do namoradinho de plantão, Ben Affleck, outra ocorrência trágica na história recente das tentativas de interpretação cinematográfica. Transparência 2: Raph Fiennes é menos engraçado do que Jennifer Lopez. E mais: é difícil imaginar outro casal mais estranho e disparatado do que este, ele britanicamente ensimesmado e saído dos tortuosos labirintos mentais de ''O Paciente Inglês'' e do recente e aqui inédito ''Spider'', ela despencando dos palcos, do hit parade, seja de onde for, lançando grife de roupas, perfume e novo CD, vestida, semidespida, empunhando uma discutível bandeira porto-riquenha. Entre as muitas composições singulares impostas pelo cinema, talvez a química inusitada que mais se aproxima desses dois seja aquela de Walter Matthau e Jack Lemmon, um ''odd couple'' carregado de charme e talento. Mas aquela é uma outra história, única e inimitável.
A Cinderela original de Charles Perrault não merecia o desrespeito, mas ele aqui está. Na atualização da velha fábula infantil - escrita pelo roteirista Kevin Wade a partir de uma versão imaginada por um tal Edmund Dantes, que nada tem a ver com o conde de Montecristo, e dirigida por um burocratizado Wayne Wang -, a garota aqui e agora é bem mais espertinha que sua inspiradora original. Ela é Marisa Ventura (J. Lo: será possível que o marketing da cantora acha cool este rebatismo?), arrumadeira em um dos luxuosos hotéis de Manhattan. Além do pó, ela também aspira deixar o uniforme e assumir o cargo de sub-gerente. No dia a dia, com as colegas, bisbilhota os quartos e observa os hóspedes pelo circuito interno de tevê.
Um dia, experimentando uma roupa chique que não é dela, é surpreendida pelo príncipe, digo, pelo hóspede e jovem político em ascensão, um VIP chamado Christopher Marshall. Ela a confunde, claro, e acha que ela é bem mais do que é; ela vai levando a situação dupla em banho maria até a tal grande festa, estão lembrados ? Pois bem, em vez de meia noite o prazo fatal para ela voltar ao trabalho pesado é somente a manhã seguinte, o que dá ao casal tempo suficiente para bem executados malabarismos de alcova. Sinais de contemporaneidade, sem dúvida.
Juntos, Marisa e Christopher não cabem em si, e revelam senso de humor digno de um tratamento de canal, versão pré-tecnológica. Gravitando ao redor, personagens bizarros pioram um pouco as coisas, em especial a socialite caça-maridos vivida por Nastasha Richardson, estereotipada e caricaturada em demasia. O filho da camareira, vivido por Tyler Garcia Posey, é mais um garoto superdotado, como convém à cristalizada fórumula hollywoodiana. No geral, talvez Bob Hoskins seja a exceção digna e respeitosa. Mas apenas talvez.
A notar, com senso crítico em guarda: as abundantes amostras da fotogenia de Nova York, cidade onde ainda são possíveis love stories apesar da tragédia. A lamentar: o desaparecimento do diretor Wayne Wang. Teria sido ele mesmo a dirigir ''O Clube da Felicidade e da Sorte'' e ''Cortina de Fumaça''?


