‘‘A Cor do Pôr-do-Sol’’ surge – e já não era sem tempo – para lembrar que Ivan Lins é um dos mais originais melodistas da MPB. É um CD que joga um balde de frescas águas na discografia recente do cantor e compositor – principalmente no sóbrio, retilíneo e previsível ‘‘Anjo de Mim’’, de 95, o último que continha canções inéditas. Motivado ou não com as novas parcerias, o fato é que ‘‘A Cor do Pôr-do-Sol’’, com o perdão do trocadilhismo, é um disco solar. Que sai do forno com leve baforada pop – loops e programações eletrônicas circundam o CD, aqui, ali e acolá. Até rap e funk há.
Mas Ivan sempre trabalhou com delicadezas harmônicas, digno feitor de canções aparentemente simples mas incrivelmente marcantes. Canções capazes até de valorizar letras frouxas como ‘‘Voa’’, da desconhecida Lêda Selma. Contém também o disco regravações dispensáveis, ou melhor, sem maiores arrombos de criatividade. É o caso de ‘‘Lua de São Jorge’’ (Caetano Veloso) e ‘‘Mulher Eu Sei’’ (Chico César). Ainda nos pontos fracos, inclue-se a funkeada ‘‘Ladrão’’, uma crítica sem maiores impactos à roubalheira promovida por Lalaus e colegas de, digamos, ofício. Também, roubar e não ir para a cadeia, no Brasil, é tão corriqueiro que a canção acaba sendo apenas um desabafo.
Ciscos. Um sopro, uma puladinha de faixa e restabelece-se a boa impressão de ‘‘A Cor do Pôr-do-do Sol’’ que traz a maioria dos arranjos assinada por Téo Lima, embora Wagner Tiso também imprima sua marca registrada – as cordas bem dosadas – em duas faixas. Ah, sim, a competência de Guto Graça Mello, o produtor, incide diretamente no produto.
Quanto aos novos parceiros, Celso Viáfora parece ser o preferido – são quatro canções. Ele mais Ivan e Ivano Fossatti promovem um dos momentos mais singelos do disco através da poesia sonora e literária de ‘‘Nada Sem Voc꒒. ‘‘Sem você sou inutilidade/ Nuvem Negra ao fim da tarde/ Escondendo o pôr-do-sol/ Sem você e tudo são naufrágios/ Onde eu sou o foco frágil/ De um estúpido farol’’.
Lins-Viáfora têm tudo para ser uma dobradinha de futuro. Porém foi com Dudu Falcão que Ivan Lins fez maravilhas: a deliciosa ‘‘Vento e Areia’’. A título de curiosidade apenas: a bela ‘‘Dois Córregos’’ recebeu letra de Caetano Veloso. Nada de mais. A melodia é mais bonita. Tão bonita que, merecidamente, concorre ao Grammy latino na categoria música instrumental. A canção faz parte da trilha sonora do filme homônimo, de Carlos Reichenbach.
Com o alter ego, Vítor Martins, duas músicas. Nem é preciso recorrer ao encarte para se saber quem são os autores – são eles. Daí conclui-se que a ‘‘infidelidade’’ só fez bem a Ivan Lins. Ter dado uma puladinha de cerca para ir em busca de novos parceiros não provocará indignação aos fãs acostumados ao casamento tão redondinho de Ivan e Vítor. Ao contrário. Sinal que, às vezes, um matrimônio, mesmo o musical, precisa de um tempinho para que uma das partes – ou ambas, que seja – reorganize as idéias e sentimentos.
Não sejamos injustos: ‘‘Cuidate Más’’, a primeira faixa, composta pelos dois, tem seus encantos com a sonoridade cubana – consequentemente carregada nos metais e, vejam só, com um improvável e breve solo de guitarrona distorcida. Mas fato é fato: ao inaugurar novas parcerias Ivan Lins volta a impressionar, a chamar a atenção ao seu trabalho. ‘‘A Cor do Pôr-do-Sol’’ tem vida e consistência. Tem, sobretudo, fortes vibrações cromáticas há muito não sentidas nos discos de Ivan Lins.

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