IVAN PARA LER
Jota
De Londrina
Especial para a Folha2
Livro de Ivan Lessa na praça é coisa rara. Apesar de ter um dos textos mais admirados do País, o conhecido jornalista de O Pasquim tem sido sovina com seus admiradores. Até agora ele só havia publicado Garotos da Fuzarca, em 1986, pela editora Companhia das Letras. Era um ajuntamento de crônicas, desconexo, porém cada texto vinha com a reconhecida qualidade de sua escrita. Trouxe na contracapa elogios de Paulo Francis, do escritor Rubem Fonseca e tinha como prefaciador Millôr Fernandes. Francis, que era pouco propenso a elogios ao próximo, dizia que Ivan Lessa tem a mais rica imaginação entre os nossos contemporâneos.
Seu segundo livro, lançado agora no Brasil, tem uma faceta inédita: já foi ouvido. Ivan Vê o Mundo (Editora Objetiva, 173 págs., R$ 17,00) é uma seleção de crônicas escritas para a Rádio BBC de Londres. Foram selecionadas por Helena Carone, visto que Lessa cultiva como um estilo um desdém tremendo em relação a atos mundanos como a publicação de livros. Este jeito turrão é que faz a graça de seu texto. Ivan Lessa é precursor do humor politicamente incorreto, carregado de um sarcasmo impiedoso; com a ressalva de que lascava o pau em tudo e em todos em um jornal absolutamente sem poder econômico e visado pela ditadura militar.
É o próprio Ivan Lessa quem lê as crônicas no programa O Mundo Hoje, da BBC. Na transposição do rádio para o livro é certo que perderam o apelo da voz do autor que aparenta um certo tédio, um tom blasé semelhante ao do falecido Paulo Francis , mas mantiveram qualidade como literatura. Os pontos de vista irônicos, a originalidade, aquele jeito de escrever bem mas sem se tornar chato e preso à uma linguagem convencional e arrumadinha fazem do livro um puro Ivan Lessa. Pois há um jeito Ivan Lessa de escrever.
Essa singularidade do autor não é qualquer um que cria um estilo literário fez todos esperarem dele durante anos uma obra de maior fôlego. Mas o Ivan Lessa, nada. Já havia acertado a publicação de um romance com a editora Companhia das Letras, mas desistiu. Ao jornalista Daniel Piza, da Gazeta Mercantil, explicou que desistiu porque não tem talento nem vontade de escrever romance. Em Ivan Vê o Mundo, ele demonstra uma relação ambígua com a literatura. Ao mesmo tempo em que, numa crônica em que baba melancolia, fala de dois romances dificilmente iniciados, dois romances dificilmente tocados adiante, o que nos faz crer que persiste na feitura do tal romance, noutra mostra um desprezo irônico pela arte de escrever. Descobri muito mais sentado no banco de praça discutindo com a namorada do que em A Montanha Mágica de Thomas Mann, ele escreve. Na mesma crônica diz que livro não me inspira o menor respeito.
Ivan Lessa não é para qualquer um. Ironia, niilismo e uma iconoclastia feroz são suas armas; e ele as usa sem misericórdia para com ninguém. Está sempre batendo firme nos usos e costumes do Bananão, apelido mordaz que aplicou no Brasil. Puxa sempre pela memória, é capaz de criações engraçadíssimas trabalhando com referências da década de 50; nome de jogadores, músicas, modas e manias da época ou objetos de consumo daquele tempo vibram em seus textos. É quase sempre ambíguo, de modo que às vezes é difícil saber se a coisa é mesmo séria ou é mais uma gozação a la Lessa. Até sua birra com o Brasil, ou melhor, Bananão, parece motivada por uma grande paixão não correspondida? por esta terra de coqueiros que dão coco.
Fica por conta do leitor interpretar. Leitor para o qual Lessa também reserva umas bordoadas sem dó nem piedade. Leitor é Amélia em suas mãos. Esse estilo Ivan Lessa foi determinante para o sucesso de O Pasquim em sua melhor fase.
Depois de sua volta ao Brasil, em 1972, após quatro anos morando em Londres, de onde enviava uma coluna para jornal, passou a intervir com seu estilo criativo em todas as páginas de O Pasquim. Com o pseudônimo de Edélsio Tavares respondia de forma malcriada as cartas dos leitores. Criou também Dona Edelmar Barbosa, uma velhota que fazia entrevistas imaginárias engraçadíssimas. Escrevia também roteiros das famosas Pasquim Novelas, fotonovelas com um humor debochado onde atuavam desde os trabalhadores da redação office-boy, contabilistas, motorista até atores famosos do cinema e da televisão. José Lewgoy, Pereio, Stepan Nercessian e até Paulo Autran e Fernanda Montenegro, foram algum dos nomes que deram o ar de sua graça. Na última página publicava aforismos no Gip-Gip, Nheco-Nheco, uma das seções de maior sucesso entre os leitores. Uma das frases passou a fazer parte de qualquer texto sobre a falta de apreço do brasileiro pela história do País: A cada 15 anos os brasileiros esquecem o que aconteceu nos últimos 15 anos. Depois de mais um dos famosos rachas de O Pasquim, Ivan Lessa saiu do País para nunca mais voltar.
Trabalha na Redação Brasileira da BBC de Londres há 21 anos mas não perdeu o contato com sua terra. Está sempre publicando nos jornais e revistas daqui. Já escreveu para a Veja, Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil e Gazeta Mercantil. Conforme conta em uma das crônicas de Ivan Vê o Mundo, uma das razões de sua saída do Brasil foi a mania do brasileiro de assobiar. Pode ser apenas um cutucão ao seu estilo, mas também pode ser a realidade assobio é mesmo insuportável; até o exílio pode ser doce, vivido sem alguém assobiando em nossos ouvidos.
Por causa do assobio ou qualquer outra chateação, ele nunca apareceu por aqui, nem mesmo em férias. Já conheço o Brasil, prefiro gastar as férias conhecendo um lugar novo, é sua explicação. E com a facilidade que tem para visitar a mãe a escritora Elsie Lessa; seu pai, já falecido, é o conhecido escritor Orígenes Lessa que vive em Portugal, aí então é que ele não pisa mesmo em terras brasileiras.
As visitas à mãe renderam uma crônica engraçadíssima. Um ponto de vista, digamos assim, turístico, de Portugal, onde Ivan Lessa diz que pode ser encontrado em uma esquina de Cascais vendo batidas de carro. Ninguém no mundo bate tanto com o carro quanto os portugueses, revela com ironia. Em Portugal também mata saudades da terra sim, ele guarda um lugar para nós em seu coração esfriado pelo fog londrino com um feijãozinho, um bifinho com arroz e ovo estrelado e uma linguicinha para expatriado nenhum botar defeito.
Em Ivan Vê o Mundo não está presente o Ivan Lessa mais mordaz, aquele que morde e não assopra; quem conheceu as hilariantes peripécias sexuais do professor Edélsio Tavares (junto com o negro Ken e a jovem Pat) narradas por Ivan Lessa em O Pasquim poderá até estranhar um pouco o pai coruja embevecido com o quarto da filha adolescente que cheira à canela, não me perguntem por que, ele conta ou preocupado com os jovens ingleses de olho nos dotes da menina-moça. Até sabiá, assunto que parece mais propenso a ciscar nos quintais literários de um Rubem Braga, Ivan Lessa tira de letra. Só um cronista com sensibilidade poderia reparar nos dois olhinhos de semente de mamão do passarinho. O velho Braga aprovaria.
Um dos prazeres do texto de Ivan Lessa está em sua frases habilidosas. Não poderia ser diferente com um cronista da sua qualidade. Na coluna Gip-Gip, Nheco-Nheco, criou frases memoráveis, das melhores do humor brasileiro. Em Ivan Vê o Mundo, várias delas, isoladas, são verdadeiros aforismos. O livro termina com apenas uma frase, comprovando a importância delas em sua obra: Este fim de milênio está levando séculos para acabar. Não precisa dizer mais nada. O cronista também tem um incrível poder de arrancar gargalhadas do leitor por meio do encaixe de uma frase, uma pequena cena. Narrando um encontro ocasional com a atriz Ava Gardner gorda, óculos escuros, rosto meio sobre o inchado em uma rua de Londres, diz que fingimos não nos conhecer, dentro das melhores regras não-escritas da etiqueta ou grife Laura e Petrarca, Abelardo e Heloísa, Romeu e Julieta.
Ivan Vê o Mundo traz o feijão com arroz habitual da crônica. Aquele material banal com o qual um bom cronista faz um banquete. E no caso de Ivan Lessa há o ineditismo da coisa; ninguém esperava pegá-lo assim desprevenido, a ponto de não evitar nem demonstração de ternura em algumas crônicas. E sem perder o tom do rabugento jornalista que vive falando mal da gente com estilo e graça. É um dos grandes escritores contemporâneos. Um estilista de primeira. O que não deixa à toa em seus escritos a persistente citação do nome de Machado de Assis. O bruxo do Cosme Velho só perde para Dolores Duran em matéria de lembrança. Mas não é para menos; além da nostalgia fazer parte da essência de Ivan Lessa, este é um livro que já tocou no rádio.





