Ivan Lins e Michel Legrand fazem concerto a quatro mãos
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domingo, 08 de agosto de 1999
Por Mauro Dias 
São Paulo, 09 (AE) - Ivan Lins adora piano, piano mesmo, acústico. Criou, autodidata, uma maneira especial de tocar o instrumento, um toque marcado, rítmico, percussivo - mesmo quando está interpretando uma de suas inúmeras e belíssimas baladas. Mas, ao lado de Michel Legrand, na quarta-feira, em São Paulo, vai estar tocando um piano eletrônico. É que é muito difícil encontrar um bom piano nas casas de espetáculo brasileiras. Mais difícil ainda encontrar dois pianos, naturalmente - e quando há piano, ou pianos, a amplificação do som deixa a desejar. Por falta de hábito.
Anfitrião delicado, deixará o piano acústico para Michel Legrand. Juntos, interpretarão um repertório que começou a ser delineado no domingo, em Teresópolis, onde mora Ivan e para onde foi Legrand, depois de tocar no Rio. Passaram o domingo e a segunda-feira juntos, estudando. Mas não definindo, com precisão rigorosa, o que vai ser apresentado ao público paulista. São dois grandes músicos, que podem improvisar. Legrand prefere sentir a platéia, para escolher o que vai tocar; Ivan dará as respostas musicais devidas.
Se Legrand considera Ivan um dos maiores compositores do mundo, o brasileiro tem o francês como ídolo. E o momento em que tocarão juntos é especialmente significativo para Ivan. Michel Legrand é um dos grandes autores europeus de música para cinema. Ivan acaba de fazer sua estréia oficial como autor de trilhas - compôs a lindíssima música do filme "Dois Córregos", de Carlos Reichenbach. Na verdade, a música é o elemento condutor da narrativa, um personagem, a personagem principal, como era a do desiludido Five Easy Pieces, de Bob Rafelson, 1970.
Mas a trilha do filme de Rafelson era uma colagem. A de Ivan foi composta especialmente para a história contada por Reichenbach. Mas por que um diretor escolheria um músico de quase nenhuma experiência com música para imagens? "É que o Carlão percebeu que a atmosfera musical do filme tinha a minha cara, era a minha praia, guardava a música que sei e gosto de fazer", conta Ivan. "A história é lírica, emocional, sem qualquer pieguice, e é assim que componho, ou pretendo sempre compor", completa.
Música de filme - "Aquela música eu compus cantando", conta. "Ivan já havia feito, antes, música para outro filme, Vida e Glória de um Canalha, de Alberto Salvá, 1969 - época em que era, ainda, um universitário que compunha, desconhecido do publico. Tanto que a trilha de "Vida e Glória de um Canalha" vai assinada por Ivan Guimarães Lins - ele não havia, então, adotado o nome artístico mais curto. E o método de trabalho foi completamente diferente.
Montava os acordes e cantarolava a melodia: "Não era música de solista de piano, como agora", lembra. É uma diferença importante. Até porque uma das personagens do filme, Lydia, vivida pela estreante Luciana Brasil, é pianista clássica. "E aí vai uma das diferenças básicas do piano acústico para o eletrônico, que não tem respiração, não responde aos impulsos do executante; para compor no piano elétrico, você tem de cantar; o acústico permite a expressão dos sentimentos do solista."
Fora do Brasil - Ivan compôs boa parte dos temas fora do Brasil. Como sempre, tem viajado muito. Estava nos Estados Unidos quando fez o tema central. Encontrou um Steinway fabuloso: "Desses que aparecem para você uma vez só em toda a vida." Sentou-se e criou a melodia de abertura. E, depois, mais outra.
Há um quê de Michel Legrand na trilha de Ivan? Provavelmente não, mas o compositor acha que a "atitude" do filme é francesa - clima, certos ângulos da fotografia, algumas expressões. Em todo caso, são europeus os seus ídolos da música cinematográfica - Legrand, Nino Rota, Enio Morriconi. E, também, Henry Mancini, que era norte-americano, mas descendente de italianos, coisa que faz toda a diferença.
"Eu não conhecia o Carlão", conta Ivan. "Vi filmes dele, "Alma de Corsário" marcou-me muito, mas nunca tivemos conato." O compositor elogia a sensibilidade do diretor: "Um homem interessado em música, que percebe a música." Prossegue: "Ele já tinha todos os temas do filme, ou o espírito deles, na cabeça; tanto que me apresentou um copião já com músicas escolhidas por ele, provisórias, para servir de orientação."
Ele usou excertos de clássicos - Schumann, Skriabin, Katchaturian - e música de São Paulo - "O M de Minha Mão", de Mário Gennari Filho, canção que marcou a adolescência de Carlos Reichenbach. Por sugestão de Reichenbach, nesse caso. Mais curiosa foi a necessidade de compor uma canção que tivesse a cara dos Beatles. "Foi o meu maior desafio ao destemido Ivan Lins", conta o diretor. "Filmei a sequência da chuva ao som da música do gênio John Lennon." Ivan fez a música e o maestro Nelson Ayres, responsável pela orquestração da trilha, a letra de "Flying Free". A interpretação é do grupo cover Banda Clube Big Beatles, do Espírito Santo.
Voltando ao show de quarta-feira: Ivan e Legrand vêm sonhando, há alguns anos, em fazer um disco juntos, o que, finalmente, está prestes a ocorrer. Tocaram juntos antes, mas sem gravar. Tocaram, até mesmo, naquele pavoroso (não por culpa deles, mas da produção, que misturou música boa com sertanejos bregas, sambistas de butique, espetáculo armado para a televisão), show da Copa do Mundo da França: "Sob vaias, que haviam começado antes de nós subirmos ao palco e continuaram por horas a fio. " Agora, serão só aplausos.


