Ivan Alves Filho conta a história do Brasil de Pero vaz de caminha até o impeachment de Collor
Rio, 21 (AE) - Quantos documentos são necessários para contar a história do Brasil? O pesquisador Ivan Alves Filho afirma que são mais de 300 e reuniu todos no livro "Brasil, 500 Anos em Documentos", que a Editora Mauad está lançando. A carta de Pero Vaz de Caminha é o ponto de partida da obra. Dos 300 documentos, o livro traz 90 na íntegra porque, na opinião do pesquisador, "contribuíram para a formação da nacionalidade brasileira".
Do Descobrimento até o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello, ele buscou em bibliotecas e arquivos públicos e particulares, brasileiros e europeus, os documentos que trouxeram alguma mudança na história do Brasil. São cartas, leis, decretos e até artigos de jornal que tiveram alguma influência no que ocorreu no País desde a chegada de Pedro álvares Cabral. "Não fiz distinção entre documentos reacionários ou não", alerta Ivan Alves Filho. "O Ato Institucional n.º 5 (AI-5), por exemplo, é extremamente conservador, mas marcou um período da nossa história".
Não foi fácil reunir todos os documentos. O pesquisador começou o trabalho ainda nos anos 70, quando era exilado e vivia na França. Ele teve dificuldade de encontrar alguns dos quais se ouve falar muito mas não se sabia, até então, onde estavam. "É o caso da Lei das Terras, de 1850, que instituiu a propriedade privada da terra no Brasil e exigiu que ela fosse paga, o que vetou esse direito aos ex-escravos e aos pobres", cita Alves Filho. "O original estava nos Arquivos do Parlamento, mas foi difícil achá-los".
A seleção foi outro problema. Como o pesquisador não queria prender-se só à história oficial, ele reuniu material suficiente para pelo menos outro livro e precisou ser rigoroso na escolha do que seria publicado. "Há documentos que não tive dúvidas em publicar no livro, mas outros foram substituídos e entraram depois de muita reflexão", conta Alves Filho. "Houve até um caso em que eu fiquei com o original, pois participei do momento em que ele foi escrito ou lançado", continua o pesquisador, referindo-se à sua participação, em 1992, na fundação do PPS, quando decidiu guardar a ata. Esse foi um dos poucos casos em que a afetividade influenciou na seleção de Alves Filho.
No mais, seu livro reúne documentos importantes como a Lei áurea, o Manifesto Pau-Brasil (que deu início ao Movimento Modernista em 1922), a carta-testamento de Getúlio Vargas e até a decisão judicial, anunciada nos anos 80, que responsabilizou a União pela morte do jornalista Vladimir Herzog, em 1975. "Além de citar os documentos, fiz questão de indicar onde eles podem ser encontrados para facilitar a vida de outros pesquisadores", ressalta o autor.
Ao fim do trabalho, Alves Filho chegou a uma conclusão surpreendente. Para ele, toda a história do Brasil é resultado de negociações entre a elite, que detém o poder e ocupa os cargos dentro do Estado, e as forças que se contrapõem a ela, sejam elas populares ou não. "O Estado não tinha força suficiente para impor-se à sociedade civil, mas esta nunca foi forte o suficiente para fazer valer sua vontade", teoriza o pesquisador. "Ao contrário do que ocorreu na Europa, por exemplo, as transformações aqui ocorreram sem violência", explica ele.
"Isso torna o processo mais difícil e lento mas, uma vez alcançado um objetivo, o retrocesso é mais raro porque as mudanças foram sempre negociadas". Alves Filho só não conseguiu encontrar algum patrocinador para sua obra. "Brasil, 500 Anos em Documentos" foi produzido com recursos do autor e da Editora Mauad. (B.C.S.)





