Itaú Cultural propõe um novo modelo de ação
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sexta-feira, 12 de fevereiro de 1999
Por Maria Hirszman 
São Paulo, 12 (AE) - O Itaú Cultural vem firmando-se no cenário cultural brasileiro graças a uma política de ação que combina uma atraente agenda de eventos e exposições, com um trabalho silencioso de estímulo à pesquisa e à produção intelectual e artística. Comandando o instituto há dois anos, o artista plástico e designer gráfico Ricardo Ribenboim vem conseguindo desenvolver uma política de ação cultural bastante diferenciada e criando interessantes frutos.
A mudança mais evidente no modelo adotado foi a alteração do nome da instituição. Ao eliminar o termo instituto, o objetivo da nova direção foi reduzir o caráter burocrático do órgão e colocar a cultura como prioridade absoluta. Mas o resultado mais evidente dessa mudança de mentalidade, que está cunhando um novo modelo de instituição cultural no País, se verifica em duas importantes frentes. De um lado estão as exposições sazonais. Ao contrário do que costuma ocorrer em museus e galerias da cidade, elas passaram a ser pensadas de forma coesa, a partir de um tema que abrange todo o ano.
Em 1999, o tema escolhido foi o da relação entre a arte e o cotidiano, enfocando aspectos distintos como o objeto, a técnica e o consumo. Paralelamente às atividades sazonais, o Itaú Cultural dá continuidade a trabalhos permanentes, como a série Rumos, que pretende elaborar um diagnóstico e estimular a produção em sete grandes áreas artísticas. Enfatizando a idéia de percurso em vez de privilegiar grandes eventos que não têm necessariamente relação entre si, Ribenboim está aplicando no instituto que gerencia o modelo que adota há anos para a sua produção artística pessoal.
Avesso ao excessivo apego à questão da autoria individual - razão pela qual optou pela linguagem mais massificada do design -, seu trabalho é mais conhecido pelas participações em importantes eventos coletivos, como o Arte/Cidade, a mostra Limite da Consciência (recentemente em cartaz no Sesc Pompéia) ou até mesmo na Eco 92, quando criou uma performance com uma centena de bóias de ar soltas na orla carioca. Nesta entrevista, Ribenboim comenta seu papel como gestor de uma das instituições culturais mais poderosas e performáticas do País. Pergunta - Desde que você assumiu vem havendo uma grande mudança no perfil do Itaú Cultural. Qual é o seu modelo de curadoria? Ricardo Ribenboim - Antes de pensar na questão da curadoria no sentido tradicional, temos de ver o instituto como um todo. Hoje, propomos um cruzamento entre quatro pontos vitais. Nossas atividades são permanentes ou sazonais, retrospectivas ou propositivas. Pergunta - Antes a ação era mais voltada para a divulgação da cultura já estabelecida, não? Ribenboim - Numa primeira fase, o objetivo era resgatar o que se produziu de cultura no País nos últimos cinco séculos, para transformar isso num banco de dados informatizado. Mas quando isso foi criado, o que chamávamos de alta tecnologia era um processo em amadurecimento. Temos aqui cinco séculos de pintura no Brasil, com 1,2 mil artistas cadastrados, 16 mil imagens, mas de difícil inter- relacionamento. Pergunta - É um banco de dados sem tratamento nem a ajuda de nenhum raciocínio extra? Ribenboim - As relações remissivas eram voltadas para dentro delas mesmas, porque na época o programa não permitia um cruzamento. No entanto, o mais importante é que isso detonou um processo de armazenamento de informação. Depois foram feitos vídeos para contextualizar essas questões. Hoje já são 60, todos disponíveis na nossa vídeoteca. No panorama histórico há um buraco, referente aos anos 60 e 70. O vídeo dos anos 60 está sendo editado agora. Todo o banco de dados está se transformando num grande hipertexto. Pergunta - Além das galerias, há os museus, que vivem uma situação financeira complicada e buscam sobreviver trazendo os grandes pacotes internacionais. Você vê alguma solução para essa situação? Ribenboim - Você sabe que isso é um mito. Porque as nossas exposições são mais baratas do que as internacionais. Acredite se quiser. Mesmo quando pagamos o artista, colaboramos no processo de criação. E elas ainda podem estar sendo financiadas pela mesma lei. O que me preocupa mais é que a tentativa mercadológica de levar as pessoas para essas mostras não é o propositivo. É o mais velho de todos. Estamos atrás de Van Goghs quando o importante é estimular discussões sobre a contemporaneidade. Pergunta - Este ano vocês vão discutir questões inerentes ao processo de criação artística? Ribenboim - Aí é que está o interesse. Se pegarmos a questão do cotidiano, não esquecendo que o tema é cotidiano e arte, podemos até ter o Duchamp como referência da contemporaneidade. Mas também temos um marco nos anos 60, representado pela tentativa de Hélio Oiticica, Lygia Clark e outros, de romper o estatuto da arte. Daí a importância da exposição Por que Duchamp?, que vai mostrar as relações entre a produção brasileira e a operação duchampiana. Pergunta - Como lidar com a questão de público? Qual é o principal objetivo: ampliar o número de visitantes ou aprofundar o pensamento? É possível conciliar as duas coisas? Ribenboim - O que temos tentado fazer é atrair o grande público e propor a profundidade por partes. A primeira abordagem é a expositiva, a segunda já começa por meio de uma monitoria que condiciona um processo de reflexão. Nosso trabalho não é imediatista, tem de ser feito a médio e longo prazo. Pergunta - Você tem números de visitação? Ribenboim - Podemos dizer que em média tivemos cerca de 30 mil pessoas por mês visitando o instituto, para todas as atividades. O que estamos tentando é trazer esse público sem precisar usar um nome, uma assinatura. Queremos montar um projeto que viabilize a formação de um interesse de compreensão da arte e da cultura brasileira. Acho que a gente deve ter esse foco, o que não quer dizer que obrigatoriamente tenhamos de fazer coisas ligadas ao Brasil. Fizemos, por exemplo, um festival de música nova com gente do mundo inteiro. Pergunta - Vocês também desenvolvem atividades fora do espaço da instituição. Ribenboim - Exatamente por isso não trabalho obrigatoriamente com números. Damos acesso por meio da Internet, da televisão, de publicações, de parcerias e convênios. É um trabalho impossível de mensurar. Ainda estamos num processo de construção do projeto do Itaú Cultural, que vai estar mais amarrado neste ano. O que é importante é trabalhar em vários níveis. Estamos sempre pensando em como reduzir, arejar. Até porque somando essa estratégia de arejar as exposições, o próprio espaço físico está sendo repensado. Pergunta - Além dessas exposições do eixo curatorial, há outros planos? Ribenboim - A gente também está criando outras frentes, pois nossa missão é armazenar, fomentar e difundir a cultura brasileira. Entre as ações permanentes há o projeto Rumos, que ocorre independentemente de um tema. Este ano estamos atuando em sete áreas. Vamos tentar diagnosticar uma trama em todo o Brasil e a partir dela estabelecer parcerias e convênios, em campos como o de artes visuais, cinema e vídeo, literatura, formação de críticos... Pergunta - Aí entraria o aspecto de mecenato mais forte, viabilizando produções? Ribenboim - Poderíamos dizer que sim. O mecenato é uma espécie de viabilização do nosso trabalho como um todo. Mas, na verdade, não patrocinamos e sim fazemos parcerias. Não damos nada sem uma resposta em troca. A ação do Rumos é tentar fazer um mapeamento de quem produz arte e cultura em todo o território, até as fronteiras. Pergunta - Para isso você precisa não só de uma vigorosa produção artística, mas de gente capacitada, que viabilize essa ponte. Ribenboim - Nesta primeira fase também estamos trabalhando na formação desse gestor. Sem querer colocar o instituto como algo de ponta, como Ph.D. em cultura, o que estamos tentando fazer é criar um modelo e a partir dele conseguir a adesão das pessoas e irradiar um processo de produção. A sinergia que conseguimos permite que nos concentremos na construção de um processo de compreensão da cultura brasileira. Pergunta - Outro aspecto importante é que vocês costuram as atividades sem respeitar a segmentação das diferentes linguagens. Ribenboim - Estamos propondo a multidisciplinariedade, que é algo comum nos dias de hoje. Hoje você não pode mais chamar o artista de artista plástico. Ele usa recursos da fotografia, da computação gráfica, do cinema. Quer dizer, existe uma série de elementos que o ajudam a representar sua estrutura de pensamento. O meu trabalho no City Canibal (exposição realizada ano passado no Paço das Artes) mostrava exatamente essa idéia de percurso. Pergunta - Existe essa retroalimentação? Não são muitas portas abertas? Ribenboim - O que ocorre é que isso já é reflexo daquilo que penso na minha produção pessoal. A questão da contemporaneidade é uma discussão que está aí, o tempo todo aflorando. Eu diria que é maior conflito seria a absoluta impossiblidade de colocar o meu trabalho pessoal e íntimo exposto nesse conjunto. Mas tenho certeza de que todo o projeto do Itaú Cultural tem a ver com o que estou pensando, com a compreensão do meu trabalho. Pergunta - Qual é sua formação? Ribenboim - Ainda moleque, com 5 anos, fui aluno do Toyota. Depois com 11, 12 anos entrei na Escola Vocacional Osvaldo Aranha, que era extremamente importante na época e trabalhava o potencial criativo dos alunos. Lá fui aluno do Evandro Carlos Jardim, do Babinski, do Celso Favaretto, que hoje trabalha com a gente e a quem sempre recorro num processo de reflexão. Em seguida, veio a Escola Brasil: (com dois pontos mesmo). Lá surgiu o meu processo de trabalho. Passei toda a minha adolescência produzindo em ateliê. Até que em 74 participei da Bienal, com trabalhos que já tinham relação com a produção gráfica, mais ligados ao design. Mas comecei a entrar em crise e a dizer que a arte pouco me importava naquele momento. Pergunta - A questão da comercialização incomodava-o? Ribenboim - Achava que fazer coisas que me levavam a expor ou a colocar um trabalho em galeria era algo negativo. Tinha conseguido chegar onde queria, expor numa bienal, bárbaro, mas e depois? Comecei a querer que minha produção fosse mais pluralizada e fui trabalhar com design gráfico, na indústria de cadernos. Introduzi a imagem nas capas, algo que não existia. Aquele famoso caderno, conhecido como canguru, que tinha um envelope plástico para colocar folhas avulsas, foi projeto meu. E aí fui me enfronhando cada vez mais, sempre naquele processo da tensão que existia entre a produção plástica e a produção gráfica. Até que comecei a trabalhar a questão dos mitos, do significado dos objetos do capitalismo, a questão da Coca-Cola. Depois mostrei esse trabalho, que tem 24 anos de percurso, no City Canibal. Pergunta - Você foi abolindo as fronteiras entre o objeto de arte e o de uso, subvertendo a questão da autoria... Ribenboim - Recontextualizando tudo. Acho importante a questão do design estar inserida na compreensão da produção artística. Até quando falamos da multidisciplinariedade não podemos esquecer que a produção brasileira, e principalmente o design, precisa ser conhecido. Estamos querendo fazer um mapeamento de todos os lugares que tenham matéria-prima e núcleos de produção de artesanato e depois levar designers e arquitetos para lá, para montar uma espécie de cooperativa de produção artesanal, que passaria a ser autogerida. Nós saímos fora para que o projeto não tenha uma visão paternalista. Pergunta - Qual é o orçamento do instituto? Ribenboim - É de R$ 12 milhões por ano, incluindo folha de pagamento. Para o projeto cultural, sem contar com a operação da casa, uns R$ 7 milhões. A verba total que o governo se dispôs a repassar à iniciativa privada foi de R$ 300 milhões, dos quais 16 mil Ufirs foram nossos. Somos a maior verba de iniciativa privada aprovada para a iniciativa cultural. Antes da gente só teve a Telesp e a Petrobrás. Pergunta - Então é uma instituição pública e privada? Ribenboim - Quando falamos de um projeto que é ligado a incentivo fiscal, tenho total consciência de que também estamos falando de dinheiro público. Quer dizer, 70% da verba do instituto vem de renúncia fiscal. Sempre pensamos que o nosso projeto, até por ser federal, deve ser trabalhado numa rede nacional e não regional. Pergunta - Qual é a sua avaliação em relação a esse modelo do incentivo fiscal? Ribenboim - Não podemos esquecer que é um modelo recente, com menos de 15 anos. A França começou isso há 70 anos, portanto, há um processo de absorção do mecenato que nós não temos. Mas não dá para pensar que só a lei é suficiente para o processo de fomentação cultural do País. Projetos culturais devem ocorrer tanto com incentivos do governo como ações de instituições privadas, independentes da própria lei. Seria interessante também que o mapeamento cultural ficasse mais evidenciado. O que me dá uma grande vontade, na verdade, é fazer esse tipo de proposta: vamos integrar mais. Sinto que hoje temos condições, por meio da informática, por meio de grupos articulados e de ações que vêm do governo para a sociedade, de desenvolver uma ação mais integradora e coesa.


