Itamar Vieira Junior lota abertura da Semana Literária do Sesc
Autor de "Torto Arado" atraiu um público de cerca de 400 pessoas ao Sesc Cadeião Cultural; evento termina neste domingo (17)
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de agosto de 2025
Autor de "Torto Arado" atraiu um público de cerca de 400 pessoas ao Sesc Cadeião Cultural; evento termina neste domingo (17)
Pamela Destacio/ Especial para a FOLHA 

A abertura da 44ª Semana Literária e Feira do Livro do Sesc PR, na noite de quarta-feira (13), lotou o Sesc Londrina Cadeião para receber Itamar Vieira Junior. O premiado autor de “Torto Arado” e “Sangue a Fogo” atraiu cerca de 400 pessoas, segundo estimativa da organização, em seu primeiro evento público na cidade.
Na palestra “Literatura e o direito ao chão”, iniciada às 19h, o escritor baiano abordou questões sociais e o direito à terra, falou sobre sua escrita e processo criativo, e compartilhou experiências da atuação como geógrafo e servidor do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), vivências que acrescentam densidade e contexto à sua obra enquanto dialogam com a realidade brasileira.
Com um público ansioso e com exemplares à mão, o encontro contou com distribuição de senhas e grande fila para autógrafos e fotos ao final do evento.
PÚBLICO
Entre os admiradores que lotaram o espaço e conversaram com a FOLHA, estava Eduarda Beneli, 21, estudante de cursinho pré-vestibular. O primeiro contato dela com a obra de Itamar Vieira Junior foi por meio da lista de leituras obrigatórias do vestibular da UEL (Universidade Estadual de Londrina), bastaram poucas páginas para que se tornasse fã.
“Não imaginei que ia ser um livro tão incrível assim. Na hora que comecei a ler, a história foi me envolvendo e eu me senti lendo um clássico, mesmo tendo sido lançado recentemente. Relacionei à história da minha família, histórias parecidas de pessoas que viviam no campo. Então, ocorreu uma identificação muito forte com esse passado. Assistir à palestra dele, vendo-o ao vivo, foi incrível. Ele é uma pessoa muito querida, fala muito bem. Não imaginei que ele seria tão solícito e acessível para a gente. Foi um momento especial”, contou.
Já Rogério Germani, 47, é um admirador de longa data. Escritor de Ibiporã (RML), com diversos livros publicados, ele veio a Londrina especialmente para prestigiar o autor e presenteá-lo com um poema de autoria própria.
“Eu vejo o Itamar como uma obra-prima. A escrita dele não tem apenas impacto imediato; ele escreve para marcar a sua alma de verdade. Acredito que foi isso que fez com que tanta gente se reunisse no Sesc hoje. Ele reescreve a história não com o olhar do vencedor, mas com o olhar que deveria ter existido desde o início. Normalmente, quem escreve a história é o vencedor, e assim você não tem outra visão. Ele traz essa outra perspectiva de volta, mas de uma maneira poética. A linguagem que ele usa fala diretamente com a gente, não é rebuscada. Ele cria aquela sensação dos contadores de histórias: a pessoa faz uma roda, reúne os familiares, os vizinhos, e começa a narrar. Para entender o que ele fala, não é preciso saber ler e escrever, basta ter sentimento”, disse.

AUTOR DÁ ENTREVISTA EXCLUSIVA À FOLHA
Antes da palestra, Itamar Vieira Junior recebeu a FOLHA para um bate-papo exclusivo.
“Torto Arado” ganhou projeção internacional. Mesmo em culturas tão diferentes, como você percebe essa recepção e identificação com a história?
Acho que, no Brasil, os leitores se vinculam muito à obra pela própria história do país, porque, independentemente de o leitor estar no Sul ou no Norte, o Brasil se urbanizou de forma tardia. [...] Há uns dois anos fui fazer lançamento no Japão e, quase em todos os lugares que passei, fazia uma espécie de palestra falando sobre o Brasil para contextualizar o que aparecia na obra. Para eles, muita coisa era surpresa. Em outros lugares, como Portugal e Colômbia, há uma semelhança histórica, o que facilita compreender essas relações de poder que determinam quem vai ter ou não terra.
No fundo, acho que é uma história que fala de temas universais, como o que vivemos hoje no mundo: a disputa por territórios que fomentam guerras, tratando desse direito elementar que é o direito à terra.
Sua palestra tem como tema “Literatura e o direito ao chão”. De que forma a literatura se mantém como instrumento de resistência?
Quando pensamos num país com a dimensão do Brasil, com um pouco de informação sobre a nossa formação social e econômica, entendemos que a soberania do país e a produção de alimentos para a população passam pela atividade do pequeno e médio produtor. Os grandes produtores, que detêm a maior parte da terra, produzem commodities para exportação. Muitos desses produtos não fazem parte da nossa dieta ou não podem ser consumidos sozinhos. É uma temática que não envelhece, porque envolve as estruturas do país, [...] que determinou que só poderia ter terra quem pudesse comprá-la. Tudo isso criou uma pequena elite que domina, em detrimento da maior parte que não pode usar a terra para viver e trabalhar. Esse tema continua atual, continua a dividir, a ser fonte de conflito, e aponta para a necessidade de uma solução.
O que pode adiantar sobre o lançamento de “Coração sem Medo”, que encerra a trilogia iniciada com “Torto Arado” e seguida por “Salvar o Fogo”?
O lançamento será em outubro. É um romance que fala daqueles que foram desterrados completamente. Eles não estão mais lutando pelo território que habitam; já foram obrigados a migrar para a cidade, onde enfrentam outros desafios e percebem que o direito à terra, à moradia, à vida, continua em risco. Esse talvez seja o mote dessa história: eles descobrem que o que está em jogo não é mais apenas a terra, mas a própria existência. Na cidade, os conflitos são de outra ordem.
Hoje, muito antes da palestra, já havia um grande público aguardando você. Que mensagem deixaria para seus leitores que não puderam comparecer e para quem ainda vai conhecer suas obras?
Eu fico muito feliz. Tenho viajado muito pelo Brasil e fora dele para encontrar leitores, porque me coloco também nessa posição de leitor. Esses eventos são grandes reuniões de pessoas com interesse comum, que querem ouvir e falar sobre literatura, compartilhar experiências de leitura. Acho que estamos num bom caminho, pensando dessa forma. Sei que temos muitos desafios para tornar o Brasil um país de leitores. Não dá para pensar em educação sem pensar em leitura. Cada evento é importante porque nos permite falar dessa paixão que é, ao mesmo tempo, tão nossa e tão vital – a leitura e a literatura – e que também nos ajuda a refletir sobre o mundo, o Brasil, nossa história, a humanidade e sobre nós mesmos. Estamos aqui para falar de arte, de literatura, mas também de humanidade, sobre aquilo que nos forma e faz parte de todos nós.


