Itamar Assumpção lança Pretobrás
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terça-feira, 12 de janeiro de 1999
Nelson Sato 
É uma proeza e tanto preservar a pureza de intenções num meio reconhecidamente corrupto. A indústria musical, como se sabe, repele brios de ordem estética reservando o ostracismo aos que ousam contrariá-la de dentro.
O cantor e compositor Itamar Assumpção tornou-se um expert nesse tipo de confronto, fazendo dele a pauta de seu discurso a cada novo projeto, a cada lançamento de disco, a cada passo da carreira iniciada nos festivais estudantis de Londrina no final dos anos 70.
Pretobrás - Por Que Que Eu Não Pensei Nisso Antes, seu novo CD, reitera a incompatibilidade. Leia a entrevista abaixo e depois ouça Cultura Lira Paulistana, a faixa-manifesto que abre o álbum. A ditadura pulou fora da política / e como a dita cuja é craca é crica / foi grudar bem na cultura / nova forma de censura, canta ele, para logo depois lamentar que onde era Pixinguinha, Elizete, Macalé e o Zé Kéti / ficou tiririca pura / só dança da tanajura.
ReproduçãoNovo disco traz participação da cantora Zélia Duncan e parcerias com Paulo Leminski e Alice RuizPretobrás, lançado pelo selo Atração Fonográfica, chega ao público como uma trilogia. Os dois próximos volumes estão em fase de finalização. Se mantiverem a qualidade do primeiro, dificilmente o compositor escapará da consagração definitiva e do reconhecimento - ainda que tardio - por parte das celebridades da MPB, até hoje indiferentes à sua obra.
Na nova empreitada, Itamar insere programação eletrônica em várias faixas, mas nada que oculte a matriz acústica de suas composições. O músico dividiu a produção com Paulo Lepetit, que operou sampler e tocou vários instrumentos. O material assombra, projetando-se como o melhor trabalho do compositor desde o disco de estréia Beleléu (1980).
Leva a pensar nos críticos musicais do jornal New York Times, que há uma semana elegeram os dez melhores lançamentos de 98 em território americano incluindo os recentes álbuns de Tom Zé, Carlinhos Brown e Caetano Veloso na lista. Se ouvirem Pretobrás, é capaz de se anteciparem aos críticos brazucas e promover em seus artigos um revival da chamada vanguarda paulista, da qual Itamar e Arrigo Barnabé foram os principais protagonistas.
O disco surpreende. Itamar vai da candura ao experimentalismo. Presta tributo inusitado (Elke Maravilha), engata um samba atonal (Deus Te Preteje), esbanja lirismo (Vida de Artista e Paixonite Aguda), revisita repertório polularesco (Vou de Vai-Vai com citação de O Boi Vai Atrás), provoca estranhamento (Ich liebe dich e Poltinglen), resgata o compositor Geraldo Filme (Vá Cuidar de Sua Vida), envereda pela crítica social (Reengenharia) e põe todo mundo para dançar com levadas funkeadas (Por Que Que Eu Não Pensei Nisso Antes).
O álbum é marcado por reencontros e parcerias. O amigo e compositor Arrigo Barnabé, que escreve o texto da contracapa, é homenageado com uma vinheta. O legendário guitarrista Lanny Gordin, afastado durante anos da música por causa de uma overdose de LSD, comparece tocando na faixa Olho no Olho. A carioca Zélia Duncan, outra convidada ilustre, canta em Dor Elegante, poema de Paulo Leminski que Itamar reveste com violoncelo e ritmo jamaicano.
A também poeta Alice Ruiz ganha abordagem musical à altura em Abobrinhas Não, na qual o violão personalíssimo de Assumpção namora versos como Cansei de ouvir abobrinhas / Vou consultar escarolas / Prefiro escutar salsinhas / Pedir socorro às papoulas / E às carambolas. A embalagem do CD acompanha a qualidade do conteúdo reunindo ilustrações de Paulo Salles no encarte, onde Itamar Assumpção aparece como um personagem de grafites ao lado de desenhos de ritos africanos.
Qual o conceito por trás do Pretobrás? Por que lançá-lo como uma trilogia?
Reorodução Itamar Assumpção - O conceito é a liberdade artística, a liberdade de criar sem amarras e pressões do mercado. Não importa se é um, dois ou três discos. Esse é o caminho que escolhi e fora do qual só existem chavões e facilidades. Como minha produção é intensa, tenho que registrar as músicas dessa forma. E veja que esse primeiro volume contém 21 faixas. Os próximos vão trazer a mesma quantidade de canções.
O disco traz uma canção em homenagem a Arrigo Barnabé, que assina o texto da contracapa e é o autor de outra faixa (Deus Te Preteje). Traz uma referência também ao teatro Lira Paulistana, a casa de shows que foi o reduto da vanguarda paulista, da qual você e Arrigo fizeram parte no começo da década de 80? Que análise você faz hoje daquele movimento? Acha que ele foi suficientemente avaliado pelos críticos, colegas de metiê, público e historiadores musicais?
Itamar Assumpção - Acho que não, acho que a contribuição que nós demos como compositores e intérpretes à tradição da música brasileira ainda não foi considerada à altura, como deveria. Não acho que exista um hiato do tropicalismo para cá. O tropicalismo, com os arranjos do Rogério Duprat, deu a idéia. Mas eu e Arrigo sintetizamos aquilo, demos continuidade cada um com sua formação e origem, eu como descendente de africano e ele como descendente de europeu. E, além disso, revelamos muita gente. Revelamos cantoras como Vânia Bastos, Suzana Salles e Virgínia Rosa e músicos como Luiz Chagas, Paulo Lepetit, as meninas das Orquídeas etc. Por isso, acho que a coisa ficou complicada no campo da criação para quem está chegando agora. Ficou mais difícil para os jovens compositores e intérpretes modernos. Quando apareci, tinha Milton Nascimento, Egberto Gismonti, Luiz Melodia, Macalé; e antes deles já existia Cartola, Geraldo Filme, Clementina de Jesus. E agora tem mais a nossa turma. Então, não dá para brincar com a música brasileira.
No Pretobrás, várias faixas trazem programação eletrônica de teclados e bateria. Como criador, que papel você atribui para esses recursos de estúdio, levando em conta que no segmento da música pop mundial eles se tornaram ferramentas básicas para a composição?
Itamar Assumpção - Mas o problema da música de mercado é a falta de idéias. A pressão é tanta que não há como se renovar. A exigência de lançar um disco por ano faz com que o cara comece a inventar histórias, a falar que vai usar um moog de marciano e coisas desse tipo. O negócio ali é número, vendagem. No meu caso, a eletrônica surgiu naturalmente com o Paulo Lepetit, que toca comigo há muitos anos, é engenheiro de som e foi co-produtor desse disco e do anterior (Ataulfo Alves por Itamar Assumpção - Pra Sempre Agora). A tecnologia entra aqui apenas como um artifício para a criação. Ela funciona como mais um instrumento nos arranjos, como um recurso prático para ganhar tempo e evitar eventuais transtornos com músicos. Com ela disponível, gravar um disco de estúdio hoje em dia virou uma viagem particular. No Pretobrás, por exemplo, tem coisas complicadas para colocar ao vivo só com instrumentação humana. Aliás, se o arranjo pedir algo eletrônico, vou colocar. O meu aprendizado está centrado em Hermeto Paschoal, para quem a música é um conjunto de sons. Eu parto daí, apesar de minha composição estar presa ao poema.
Você disse recentemente que pretende convidar os Racionais MCs e a dupla Thaíde e DJ Hum para participar de futuras gravações. Que pontos de contato a música de Itamar de Assumpção mantém com o rap?
Itamar Assumpção - O rap é uma música que não se pretende erudita em sua harmonia, ou de vanguarda. É uma música que vem renovar a indignação. O Thaíde é um mestre nisso. Eu o conheço há anos. Junto com os Racionais, ele traz o discurso da periferia voltado para a própria periferia. Ambos têm a ver comigo pela manifestação de liberdade artística, de lançarem seus discos pelos próprios selos, pela independência das amarras do mercado.
Seus discos estão em catálogo, mas são dificílimos de encontrar. Você já encontrou a fórmula para resolver isso?
Itamar Assumpção - Decidi que não vou mais fazer shows em cidades que não tiverem meus discos nas lojas. Não faço mais shows em Londrina ou Curitiba, por exemplo, se meus discos não estiverem disponíveis nas prateleiras. A gravadora (Atração) está prometendo reeditar os meus discos, já que a Baratos Afins (selo independente que relançou em CD os três primeiros álbuns do compositor em 1995) lançou mas não cuidou da distribuição. O Beleléu, inclusive, já está pronto.
E como está repertório de canções para completar a trilogia?
Itamar Assumpção - Os outros dois discos estão praticamente finalizados. Na verdade, já considero o Pretobrás um projeto acabado. Estou com um novo trabalho no forno em parceria com a poeta Alice Ruiz, além de estar escrevendo letras para a Rita Lee.


