Italianos conquistam cannes
ITALIANOS
CONQUISTAM
CANNES
Muito aplaudidos, filmes de Benigni e Moretti são fortes candidatos a prêmios
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Enviado especial a Cannes
Patrick Hertzog/France PresseO diretor italiano Roberto Benigni com as atrizes Nicoleta Braschi e Maria Paredes A s reações muito favoráveis durante as sessões - para a imprensa e de gala, com a presença do ministro italiano da Cultura, Walter Veltroni - não deixam dúvida: embora o festival esteja ainda praticamente na metade, dificilmente os filmes de Roberto Benigni e Nanni Moretti voltam para a Itália de mãos abanando. A Palma de Ouro seria honra demasiada para ambos, mas o júri não deve ficar indiferente à simpatia de um e outro. De resto, como sempre ocorre em mostras competitivas, faz parte das regras do jogo ajeitar os concorrentes em três fases distintas: um início mais ou menos morno, a seguir um certo impacto e, afinal, um barulho maior. Se a fórmula estiver valendo este ano, Hector Babenco e seu Corazón Iluminado aparecem com boas chances. A primeira projeção do filme está marcada para sexta-feira à noite.
La Vita S Bella pode não ser nenhuma obra-prima, mas de longe é o filme mais ambicioso, mais interessante - e por que não, o melhor da carreira de Roberto Benigni como ator-roteirista-diretor. Idolatrado em seu país por um imenso público que transformou A Vida é Bela no maior sucesso de bilheteria da temporada (depois de Titanic, obviamente), Benigni colhe aqui em Cannes os doces afagos da glória. A imprensa francesa amou o filme, os confrades italianos esgotaram todos os adjetivos para enaltecer a realização e o cineasta, em sua habitual naturalidade de clown, mal cabe em si de tanto contentamento. Apesar do aperto que passou para explicar como a comédia pôde adentrar os portões de um campo de concentração sem transformar aquele inferno em implausível local de entretenimento para o espectador.
Final da década de 30. Arezzo, pequena cidade da Toscana. Recém-chegado do campo, Guido (Benigni) trabalha como garçom no hotel do tio. A todo custo, ele tenta conquistar a professora Dora (Nicholeta Braschi, mulher do diretor). Ajudado por uma série de incríveis e hilariantes coincidências, tanto insiste que se casa com a moça. Algum tempo depois, em 43, tudo parece correr tranquilamente. O casal tem um filho, Josué, e Guido é dono de uma livraria. Judeu-italiano, ele, o filho e a mulher acabam num campo de concentração, por conta das leis raciais postas em vigor pelo regime fascista. Lá Guido, tenta toda sorte de truques para salvar a vida do filho.
Mesmo não sendo meu comediante preferido (difícil, ainda hoje, preencher o vazio deixado pela morte de Peter Sellers, muito embora o diretor Blake Edwards tenha apontado o próprio Benigni como o sucessor de Clouzot, apesar do fracasso internacional de O Filho da Pantera Cor-de Rosa) , dou a mão à palmatória e reconheço que em La Vita S Bella há virtudes em bem maior número do que, por exemplo, em O Pequeno Diabo, Johnny Stechino ou O Monstro.
Audacioso e atrevido Benigni. E seguro. Construir uma tragicomédia em cima do Holocausto, e sair sem arranhões não é um feito desprezível. Mas é exatamente o que fez o diretor. Quando a ação se transfere para o campo de prisioneiros, depois de boa parte da história ter transcorrido em clima de absoluta hilariedade, em especial no episódio da conquista amorosa (um excelente e harmonioso conjunto de gags, um perfeito ajuste de timing de comédia), a platéia se vê na delicada situação de testemunhar os artifícios e artimanhas que Guido é obrigado a forjar para tornar possível a sobrevivência do filho. Disfarçando o próprio medo, ele inventa - apenas para iludir o garoto - uma espécie de competição entre prisioneiros e guardas nazistas. Passar fome, entre outras privações, é parte do jogo. O filme tem um final trágico, o que acaba ajudando na aceitação da inusitada ingerência do riso em ambiente de histórica degradação humana.
Bastante aplaudido durante a coletiva, Benigni foi contestado por um jornalista judeu-americano, que manifestou sua indignação diante do que chamou de banalização da tragédia imensa do Shoah. O diretor respondeu afirmando que sentia muito ter ofendido a quem quer que seja, mas que sua intenção não foi escandalizar ou reabrir um ferida. E citou um episódio ocorrido com Kafka. O escritor teria ido de noite à casa de um amigo. Por engano, entrou no quarto do pai do amigo, que acordou, muito assustado. A título de desculpa, Kafka disse: Não se incomode, continue a dormir. Faça de conta que sou um sonho, um fantasma.
Dois diretores que habitam o circuito de festivais internacionais há anos fazem de si mesmos o assunto principal de seus filmes. Um é Woody Allen, o outro é Nanni Moretti. Cinco anos depois de levar de Cannes o prêmio pela melhor direção com Caro Diário, Moretti está volta com alguma coisa muito parecida. Aliás, igual. Mas melhor. Aliás, tão boa quanto, já que não há como dissociar uma da outra. O filme é Aprile, um filme belo de se ver (ou de se rever, não importa as imagens recorrentes do filme anterior). Um mar de guarda-chuva durante manifestação de rua em Milão, o passeio de Vespa pelas ruas de Roma, a chegada de um navio repleto de refugiados albaneses no porto de Brindisi.
Aprile levou três anos para ser concluído, três anos na vida de Moretti. Na vida da Itália. Começa com a eleição de Silvio Berlusconi em março de 94, passa pelo nascimento de Pietro, o filho do diretor, se detém no triunfo da esquerda na primavera de 96 e termina na comemoração dos 43 anos de Moretti, em 19 de agosto de 97. E é isso.
Moretti é um autor moralista. Idiossincrático, narcisista, adora dissecar a si mesmo - e quem viu Caro Diário há de se lembrar. Mas além de neuroses e obsessões vistas a partir do próprio umbigo, ele também cutuca a sociedade, a política, o Estado. Esta segunda parte do Diário é menos universal, mais localizada, e interliga sua vida pessoal com a política de maneira mais amarrada. O discurso oferece outro nível de interesse, menos auto-indulgente. O costumeiro humor e as habituais observações sarcásticas prevalecem, mas nem sempre com a força desejada: como não é bom ator, colocar-se na primeira pessoa nem sempre significa transmitir sinceridade de propósitos. Mas ainda assim há ótimos momentos de intimidade e introspecção.
Como o foco do interesse de Moretti está aqui mais ligado ao panorama político de seu país, não é de todo improvável que Aprile tenha trânsito restrito fora da Itália e da França.





